Monsenhor Mielli: a obra de uma vida edificada em fé e concreto

Líder religioso, que completaria 98 anos nesta quinta, transformou Olaria em uma enorme família e formou gerações de friburguenses
quinta-feira, 30 de julho de 2020
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)
A concretagem da torre da igreja, em 1971 (Acervo do Memorial Monsenhor Mielli)
A concretagem da torre da igreja, em 1971 (Acervo do Memorial Monsenhor Mielli)

Antes mesmo dos 30 anos de idade, o jovem padre friburguense Caetano Antônio Mielli já tinha tomado para si uma missão visionária e humanista: fundar no bairro operário de Olaria que via crescer não apenas uma paróquia, mas um complexo social, religioso e educacional que oferecesse a milhares de famílias proletárias a chance de crescimento pessoal, profissional e espiritual. Assim foi construído, a partir dos anos 50, o Centro Social Nossa Senhora das Graças, integrado, além de uma igreja moderna, por uma escola que formou gerações de friburguenses.

Foi uma obra grandiosa para a época, projetada quase ao mesmo tempo que Brasília e, inicialmente, pelo mesmo arquiteto: Lucio Costa. O centro social transformaria para sempre o bairro mais populoso de Nova Friburgo, oferecendo aulas, cursos técnicos como contabilidade, formação de professores, serviços assistenciais, esportes. Alunos tornavam-se professores, fazendo a engrenagem girar.

O renomado parceiro de Oscar Niemeyer conheceu o terreno (abaixo), doado em 1951 por outro visionário, Cesar Guinle, apenas por fotografias. E não pôde terminar o projeto da igreja devido à sua transferência para a construção de Brasília, delegando-o a outros arquitetos, sob a supervisão dos irmãos engenheiros Heródoto e Ariosto Bento de Mello, da jovem firma Sotec. 

A obra da igreja em concreto armado, em plena construção de Brasília, durou mais de 20 anos e representou um desafio extra para o jovem padre: além de “roubar” os projetistas,  a mudança da capital federal trouxe a dificuldade da obtenção de cimento, que era totalmente consumido pelo Planalto Central.

“Peço-lhe o grande favor de resolver com Dr. Ariosto tudo o que for necessário para o andamento da obra. É preciso telefonar para Dr. Lino sabendo o dia em que poderemos retirar o cimento e providenciar os caminhões. São 500 sacos e por isso necessitamos de uns quatro caminhões”, escrevia de próprio punho um preocupado padre Mielli, durante viagem, à sua assistente Thereza Fernandes, em carta que A VOZ DA SERRA obteve com exclusividade junto aos arquivos da família (abaixo).

O empenho do padre - posteriormente Monsenhor - Mielli na obra de sua vida, edificada em fé e concreto, moveu doações, terrenos, cotas extras de cimento e fincou em Olaria um dos legados mais importantes da história de Nova Friburgo. Nesta quinta-feira, 30 de julho, o líder religioso faria 98 anos, se um infarto não o tivesse levado, em 1979, aos 56 anos.

O corpo de Monsenhor Mielli está sepultado na igreja que ele idealizou e ergueu. Friburguenses se recordam até hoje da missa de corpo presente e do velório que varou a madrugada e encheu várias vezes o templo, com o povo em lágrimas se revezando do lado de dentro e de fora, até o dia seguinte. A prefeitura decretou luto oficial na cidade, o comércio de Olaria funcionou à meia-porta em plena quarta-feira.

Comoventes recordações de família

O sobrinho Orlando Mielli Jr. lembra, emocionado, uma das facetas mais marcantes do tio: o respeito ao diferente, à pluralidade de ideias. Nascido em família italiana e católica, Caetano Antonio, o Taninho, como era chamado em casa, tinha um avô, João Perna, kardecista com participação ativa na fundação do Lar Abrigo Amor a Jesus (Laje) e do Centro Espírita Friburguense. Quando tudo parecia perdido, como a enxurrada de 1973 que quase destruiu o Colégio Nossa Senhora das Graças, Monsenhor Mielli aceitou a valorosa ajuda de um protestante, o pastor Schlupp. Antes de construir seu templo, o líder católico procurou o pastor Eliezer, da Igreja Batista de Olaria, para estabelecer o diálogo. “Vamos pregar o Evangelho, cada um à sua maneira”, teria dito.

Orlando destaca ainda o lado familiar do tio Taninho, muito carinhoso com a mãe, dona Antonieta, a quem visitava todos os dias: “O amor por ela era lindo de ver”. Depois da morte do filho, dona Antonieta, acamada, pedia para que colocassem o retrato de Taninho sempre do lado para o qual a virassem no leito, para que ela pudesse ficar olhando para ele.

Em casa, conta Orlando, o tio padre era aquele para o qual todos corriam nos momentos mais difíceis. E assim era Olaria, a sua grande, maior e numerosa família. “Ele foi um friburguense à frente do seu tempo e que fez muito pela cidade”, resume o sobrinho.

Conta Ariosto Bento de Mello em uma biografia do Monsenhor Mielli que Taninho, numa manhã de dezembro de 1933, então com 11 anos e sem conhecimento de ninguém, nem mesmo dos pais, resolveu procurar Dom José Pereira Alves, bispo de Niterói em visita ao Colégio Anchieta, para lhe dizer que tinha vontade de consagrar sua vida a Deus. Em casa, ele costumava brincar com os irmãos, devidamente paramentados, em torno de um altar improvisado.

Na véspera de morrer, Monsenhor Mielli, que estava bem disposto, escreveu um texto, colhido por Thereza de Jesus Fernandes, sua assistente por quase 30 anos, que dizia assim: “A vida tem seus momentos alegres e felizes, bem como momentos de dores e de sofrimentos. Em ambos devemos estar unidos ao Cristo. Ao Cristo glorioso do Tabor ou ao Cristo vítima no Calvário”.

Homenagem a dona Thereza

Ex-funcionária da fábrica de rendas Arp, Thereza perdeu o pai também vítima de infarto  e com a mesma idade em que Monsenhor Mielli morreu. “Lembro-me dele dizendo: ‘Thereza, se conforme. De agora em diante eu serei seu segundo pai. E realmente o foi”, conta ela num texto autobiográfico escrito em 1990, três anos antes de sua morte, ao qual A VOZ DA SERRA também teve acesso com exclusividade nos arquivos da família.

Em 1953, por indicação do padre Mielli, Thereza foi a primeira secretária do escritório da Sotec, jovem firma construtora dos engenheiros Heródoto e Ariosto Bento de Mello. “A Sotec cresceu rapidamente. Novas obras, novos engenheiros foram chegando, até da Suíça”, descreveu ela. Logo começaram a surgir as ideias de construção da igreja e do centro social em Olaria. “A Sotec fez um projeto, foi feito outro na Suíça e, finalmente,  um grupo de arquitetos do Rio desenvolveu o projeto tirado dos primeiros traços  do grande Lucio Costa”, descreve Thereza em suas memórias, contando que assim se tornou contadora das obras do Centro Social Nossa Senhora das Graças.

Por conta disso, as memórias de Thereza  deverão ser incluídas em breve no Memorial Monsenhor Mielli, no Centro Social Nossa Senhora das Graças, anuncia o pároco atual, Luiz Claudio Azevedo de Mendonça, que enviou ao jornal a seguinte mensagem:

"Agradecemos à Sra. Thereza de Jesus Fernandes a grande e importantíssima contribuição de 25 anos de  sua missão  junto ao Monsenhor Mielli, nos trabalhos da paróquia Nossa Senhora das Graças, particularmente nas três grandes obras: edificação da igreja Matriz, do Centro Social e do Ginásio, e depois do Colégio Nossa Senhora das Graças. Com imensa dedicação, amor e fé, esta irmã se doou inteiramente a esta causa da evangelização e promoção humana, através das atividades e iniciativas pioneiras no campo da organização paroquial, da educação das crianças, adolescentes e jovens, da assistência e promoção da população mais pobre, apoiando o zeloso e caridoso sacerdote e bom pastor. Missionária fervorosa, generosa e solidária, abriu mão de projetos pessoais e profissionais para se entregar a tão fundamentais obras do seu 'pai espiritual', Monsenhor Caetano Antônio Mielli, cuja história, com detalhes, ela nos deixou registrada com sua escrita afetuosa e abalizada de fiel colaboradora e filha, testemunha feliz de todo o bem que construíram para uma imensa comunidade. Deus a recompense com toda a felicidade da vida eterna, junto ao Monsenhor Mielli e a todos os que participaram desta iluminada missão".

Missa em Ação de Graças neste domingo

A missa em Ação de Graças ao Monsenhor Mielli e a dona Thereza será celebrada neste domingo, 2, às 18h, de forma reservada devido à pandemia de Covid-19, com transmissão pelo Facebook  e  pelo canal de YouTube da paróquia. 

Em mensagem ao Facebook do jornal enviada pelo neto, outra antiga colaboradora do centro social, Dona Cassinha, de 91 anos, irmã de Thereza Fernandes, ressaltou o dom da palavra que Monsenhor Mielli  possuía como sacerdote, nas homilias e também como educador. "Generosidade, bondade e humildade nunca lhe faltaram. Do coração nem se fala: sempre acolhedor, especialmente aos mais necessitados. Ele fez muito pelo povo de Olaria. Foi aquela pessoa de bom senso, de amor e de unidade", escreveu ela.

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