A história do herói suíço Pierre-Nicolas Chenaux e sua descendência em Friburgo

Político suíço foi responsável por uma revolta no cantão de Fribourg em 1781, conta o escritor francês Serge Kurschat
sábado, 20 de fevereiro de 2021
por Jornal A Voz da Serra
A estátua do revolucionário Pierre-Nicolas Chenaux
A estátua do revolucionário Pierre-Nicolas Chenaux

O historiador e escritor francês Serge Kurschat, descobriu um personagem suíço — Pierre-Nicholas Chenaux — que chamou sua atenção por sua rebeldia. E explicou: “Os personagens rebeldes sempre me intrigaram. Pesquisando sua historiografia, muito ideológica, senti um gosto de injustiça e desconfiei que Chenaux foi demonizado. Afinal, se ele tinha tão má fama, por que o homenagearam com uma estátua? Então, eu quis saber”, adiantou. 

No período 1994/2004, Kurschat serviu no exército francês, integrou comandos da Marinha, e foi um dos 20 soldados que salvaram mais de mil pessoas de 21 nacionalidades diferentes, na República da Serra Leoa. Participou do resgate de milhares de pessoas na República Democrática do Congo (ex-Zaire), e de 2004 a 2008, foi treinador físico e instrutor de defesa pessoal. 

Bacharel em Literatura, é formado também em Ciências Humanas e Sociais, pela Universidade Franche-Comté, na França, onde concluiu seu mestrado com a tese "Pierre-Nicolas Chenaux, Etude d'un processus révolutionnaire en Gruyère à la fin du XVIIIème siècle", 2015, 365 páginas.

A seguir, um resumo da história de Chenaux, por Serge Kurschat (foto):

“Pierre-Nicolas Chenaux, nascido em 1740, em La Tour-deTrême e assassinado aos 41 anos, era um político suíço responsável por uma revolta no cantão de Fribourg, em 1781. 

Personagem de espírito assertivo de protesto, no entanto era um homem de negócios frustrado: investia em importação de trigo, curtume, comércio de madeira, etc... e nada dava certo. 

Utilizando argumentos como as condições climáticas ou as vicissitudes econômicas dos anos em questão, Serge Kurschat nos apresenta um Chenaux que teve má sorte em seus sucessivos empreendimentos. 

Por trás deste dedicado chefe de uma grande família, havia um líder capaz de comandar cerca de 2.500 homens durante uma revolta. Entretanto, na noite de 4 de maio de 1781, ele foi assassinado por François Nicolas-Henri Rossier, um de seus apoiadores atraído pela promessa de uma grande recompensa. 

Sua condenação foi então encenada pelas autoridades: ele foi decapitado e esquartejado em 5 de maio de 1781, em aplicação do código penal da época, o Lex Carolina, segundo o qual a morte não extingue a ação legal. 

Para crimes políticos, a Lex Carolina previa um conjunto de sentenças post-mortem semelhantes às damnatio memoriae (condenação da memória, apagar a existência de uma pessoa). 

Foi somente em 4 de julho de 1848 que o Grande Conselho reabilitou oficialmente Pierre-Nicolas Chenaux. Entretanto, o justo reconhecimento da importância desse personagem, ainda que póstuma, é inigualável na história de seu país. E sua memória, embora condenada ao esquecimento, permanece viva na consciência coletiva.”

Nesta entrevista, o historiador conta o caminho que percorreu até descobrir a relação de Chaneux com os cidadãos brasileiros, seus descendentes. Confira:  

AVS: Como você abordou essa história?  

Serge Kurschat: Eu tentei olhar para Chenaux e seu movimento da maneira mais neutra possível, pesquisando nas fontes. Fui a Fribourg, Berna, Solothurn, Lucerna, Schwyz, em Paris e Turim (Itália) encontrei textos inéditos, que me exigiram um intenso trabalho paleográfico (transcrever manuscritos antigos e medievais, em francês antigo e alemão gótico). Também explorei o contexto, como o clima, a escassez de alimentos, a epizootia (epidemia animal): estes são aspectos que me ajudaram a colocar o homem no seu tempo. O que dificultou muito a pesquisa é que o próprio Chenaux não deixou nenhum registro escrito.  

Ele tinha conhecimento dos movimentos no resto da Europa?  

Chenaux estava em contato direto com as ideias do Iluminismo por ter estudado na França, como algumas pessoas de sua época. Internacionalmente, estas ideias já haviam desencadeado a Revolução Americana (1776), e outras revoltas em curso em 1789, como a Revolução Francesa. A este respeito, o movimento de Chenaux parece ser pioneiro, na Suíça. Um dos pontos fortes deste estudo é precisamente aproveitar ao máximo os documentos inéditos da história local, que são mantidos nas reservas do Musée Gruyérien de Bulle ou de testemunhos por vezes inéditos como "Le Cri du Peuple Fribourgeois" (O Grito do Povo de Friburgo). A observação cuidadosa desses documentos administrativos também permite medir a natureza dificilmente justa de um sistema de justiça deixado nas mãos de patrícios que temem por si mesmos.  

O que descobriu sobre a descendência de Chenaux no Brasil? 

Pierre-Nicolas Chenaux casou-se com Anne-Claude Garin, de Bulle, em 1767. O casamento foi realizado na Capela de La Mottaz, em La Tour- deTrême, e oito crianças nasceram desta união. Os descendentes do casal residem, em grande parte, no Brasil, onde muitos cidadãos de Friburgo emigraram no início do século XIX para fundar a comunidade de Nova Friburgo.

O economista Alberto Wermelinger já contou mais de 4.000 descendentes de Pierre-Nicolas Chenaux, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro e São Paulo. Descendentes de Pierre-Nicolas Chenaux, Sebastião Donato Thurler e Maria Daudt Thurler pertencem ao ramo genealógico que começa com Pierre-Antoine Thürler, que partiu para "o mundo melhor", leia-se Nova Friburgo, em 1819, com a esposa Marie-Thérèse, nascida Chenaux, filha de Pierre-Nicolas Chenaux. 

No século XIX, mais de 500 mil suíços escolheram emigrar para escapar das  condições de vida miseráveis em seu país. De acordo com “A Gênese de Nova Friburgo”, do historiador Martin Nicoulin, além de Pierre Thürler, Jean Sermoud e família também deixaram La Tour-de Trême, em 1819. 

Tivemos notícias deste primeiro, em 1962, quando José Thurler, então bispo de Sorocaba, ao voltar do Concílio Vaticano II, parou em Gruyère para descobrir suas raízes: em Bellegarde, ele soube que sua bisavó, esposa de Pierre Thürler, era Marie-Thérèse Chenaux, filha de Pierre-Nicolas; e em um domingo, foi a La Tour-de Trême para rezar a missa na casa da família Brasey, antiga fazenda de seus antepassados. Em seguida, dirigiu-se ao cartório para consultar antigos registros, onde encontrou documentação que lhes diziam respeito. 

Quando em 1981, muitos descendentes de emigrantes fizeram a chamada "viagem de retorno", daqueles ancestrais que haviam partido em três barcos em Estavayer-le-Lac, um jovem industrial de Nova Friburgo, Reynaldo Thurler, não teve a mesma sorte. Esperançoso, também percorreu Bellegarde e La Tour à procura do seu "sangue perdido". Então, desolado por não ter encontrado nenhuma informação, voltou ao Brasil. Em Nova Friburgo há uma avenida, no bairro Olaria, com o nome de um patrono local de artes, Julio Antonio Thurler, bisneto de Pierre-Antoine. Uma rubrica histórica até mencionou que o imperador D. Pedro II teria sido amamentado por uma Thurler, fato que merece destaque: 

“A babá de Sua Majestade Pedro II, uma jovem suíça, também de uma família  exilada, havia casado com um dos filhos de Marie-Thérèse tendo dado à luz um menino. Portanto, ela teria amamentado tanto o futuro Imperador do Brasil como o bisneto de um revolucionário nascido um ano antes numa fazenda em Touraine.”

Como foi a chegada da família ao Brasil?

O sucesso dos Thurlers em sua nova pátria, no início do século passado, não deve surpreender. Pierre-Antoine e sua esposa destacavam-se dos seus companheiros de viagem, visto que provinham de famílias burguesas, tendo recebido uma educação diferenciada. Não é, portanto, surpreendente que os Thurlers tenham sido apresentados, desde cedo, à família real. Deve-se esclarecer também que a familia Thurler-Chenaux chegou ao Brasil trazendo na bagagem uma pequena fortuna, ao contrário da maioria de seus conterrâneos, que deixou seu país por necessidade. Na verdade, o final trágico de seu pai, Pierre-Nicolas Chenaux, e a vergonha que ainda pesava sobre sua família, foram certamente um fator importante na decisão de sair do país de origem. 

O que mais pode ser acrescentado a essa verdadeira odisseia?

Por exemplo, outra personalidade da cidade, Maria-Carolina Thurler, contemporânea do bispo José Thurler, mereceu artigo publicado em periódicos da época: viúva ainda muito jovem, esteve à frente de uma indústria, criou dez filhos sozinha, e morreu aos 94 anos, deixando 198 descendentes. Ao tomar conhecimento dessa história, Reynaldo Thurler publicou apelo na imprensa do Rio, São Paulo e Nova Friburgo, convocando os Thurler para uma assembleia, em 7 de novembro de 1982. Mais de 200 parentes atenderam o seu chamado. Em 1983, foi fundada a Associação da Família Thurler, com nome de empresa, estatutos etc. Hoje conta com mais de 500 membros, todos ligados às suas origens suíças, que se reúnem todos os anos, formando uma verdadeira dinastia da qual Pierre-Nicolas Chenaux se orgulharia. Levaria um século até que a memória de Chenaux fosse restaurada e feita justiça.  

 

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