Escritor Álvaro Ottoni comemora 40 anos de carreira

“Fazer literatura infantil é a razão da minha vida”, diz autor de 30 livros publicados
sexta-feira, 20 de agosto de 2021
por Ana Bores (ana.borges@avozdaserra.com.br)
Álvaro Ottoni
Álvaro Ottoni

“O desenvolvimento de interesses e hábitos permanentes de leitura é um processo constante, que principia no lar, aperfeiçoa-se sistematicamente na escola e continua pela vida afora”, ressaltou o autor austríaco Richard Bamberger (1911-2007).

Assim também pensa o escritor Álvaro Ottoni, autor de 30 livros publicados e comemorando este ano, 40 anos de carreira. Reconhecer a importância da literatura infantil e incentivar a formação do hábito de leitura na idade em que todos os hábitos se formam, isto é, na infância, é a missão a que ele se dedica desde sempre. Para ele, literatura infantil é um caminho que leva a criança a desenvolver a imaginação, emoções e sentimentos de forma prazerosa e significativa. 

“Não demorei a descobrir que a infância fantástica que tive, é diretamente responsável por fazer da literatura infantil minha razão de vida. Foram as crianças que me fizeram perder a timidez, as responsáveis por apontar o que eu fazia nas escolas. Foram elas que me empurraram para o mundo fantástico da contação, ao insistirem para que eu verbalizasse a história que haviam lido no meu livro. E mais: foi de tanto responder que só sabia escrever, que passei a me perguntar: por que eu não sabia contar? Assim, quando trabalhava na capacitação de professores de todo o país, com o tema Leitura e Linguagem, pela Fundação Biblioteca Nacional, passei a frequentar oficinas de contação de amigos mestres da arte do contar”.

Ele lembra que seu encanto com a literatura começou cedo e pela poesia. Nesse gênero chegou a publicar um livro, Cantarolando, em 1975. Não pensava, então, em escrever para crianças. Até que a tristeza pela perda da casa em que nascera e crescera, e principalmente da “sua” árvore, a mangueira que morava no quintal, o levou a imaginar. ... Ah, se essa árvore soubesse do risco que corria, fugiria! 

Uma carreira  forjada na infância

Dessa reflexão veio a inspiração para o primeiro livro a abordar o tema ecologia, para crianças, no país: “A Árvore Que Fugiu do Quintal”, na 22ª edição até o momento, é sucesso também no teatro, com várias montagens: a primeira em 1990, de Isaac Bernat, foi convidada para participar da ECO-92. Também foi montada por alunos de escolas pelo país afora e, a partir de 2016, adaptada como musical por Zé Helou, tendo no elenco suas filhas, as atrizes Cacá e Elisa Ottoni. Também foi encenada por Guida Bruno, em Portugal, em vários eventos promovidos pelo site de disseminação de leitura "Mala d'estórias”. Em breve será editada lá e nos Estados Unidos. 

O sucesso de A Árvore..., lançada no Brasil, em 1981, o assustou. “Fiquei com medo de ser um autor infantil de um livro só. Afinal, o que escrevi foi um desabafo pela perda da minha árvore e da casa onde me deixaram ser criança pra valer. Gostava muito de falar sozinho, tinha um monte de amigos imaginários, e ali eu era feliz e sabia. Casa repleta de livros, com campo de futebol, quintal, alegre e sempre cheia de gente — sou o sétimo de 10 filhos. Não tinha TV, nem precisava. De forma que não tinha mesmo nenhuma informação do mundo externo”, lembrou.

Por pressão do editor, dos amigos e da esposa Ângela, ele decidiu se aventurar na carreira. Escrever para crianças se tornou uma tentação irresistível, e nessa esteira vieram “A História de Um Sorriso”, “O Pato Pastel”, “Quando o Coração Recebe Visita”, “O Peixe Que Não Sabia Nadar”, entre outras dezenas de livros que publicaria nas décadas seguintes. 

Onde mora um monte de ideias

As escolas adotavam todos os livros que Álvaro publicava, e ele, enfrentando sua timidez, ia conversar com os alunos e autografar cada exemplar. “Até que um dia, um aluno olhou pra mim e parecia que tinha visto um fantasma: "Você não é morrido, não? Pensei que você era morrido!". Pronto, sem saber  o menino me revelava o que eu fazia ali. Me fez descobrir que ir às escolas era um complemento de meu trabalho literário. Não só mostrar que não era ‘morrido’, como ter a oportunidade de contar que em suas cabeças mora um monte de ideias. É das ideias que nascem as histórias, os livros. Que é preciso descobrir como é legal ler, escrever, passar as ideias que moram na cabeça da gente para o papel. Até hoje digo para meus jovens leitores que, quanto mais a gente lê e escreve, com mais facilidade e prazer botamos nos papéis essas histórias que brincam com nossa imaginação”.

Apaixonado pela arte milenar do contar, Álvaro criou em Friburgo, a primeira e única Secretaria Municipal de Leitura, do país, montou na Criarte (escola no bairro do Humaitá, Rio), um centro de estudos onde foram desenvolvidas pesquisas pontuais, que se tornariam tema de workshop que o escritor apresenta para professores e interessados em educação. “Faz tempo que dou oficinas de contação e mais recentemente, para minha alegria, em dupla com minha filha Elisa, criamos um canal no youtube, o "Trelelê-Tralalá", recheado de histórias tanto de minha autoria como de origem africana, indígena, de nosso rico folclore”, revelou.

Seu amigo, o falecido professor Darcy Ribeiro, dizia que ‘os livros do Álvaro são perigosos; lendo-os voltamos a ser crianças’. “Pois, estendo a frase-homenagem de um dos mais conceituados e brilhantes mestres para um time de escritores brasileiros que se dedicam ao gênero literário. Nossa literatura infanto-juvenil é uma das melhores do mundo”, avalia. 

Talentos que a  escrita revela

Para Álvaro, trabalhar com crianças é uma oportunidade “divina da gente se acriançar. Com elas tanto pego carona para minha infância, acordo a criança que existe e resiste dentro de mim, como aprendo e me divirto”. E cita dois exemplos disso. 

“Aconteceu em uma escola em Jacarepaguá onde estive em companhia do saudoso escritor e acadêmico, Orígenes Lessa, que por sua vez é a fonte mais límpida de minha inspiração — até nome de rua ele me deu em Lençóis Paulista, sua cidade natal. Estávamos lá autografando nossos livros para a criançada, quando bate o sinal do recreio. Nesse momento, um menino se desesperou, passando a  insistir: "Autografa aqui, Álvaro, autografa aqui!". Em suas mãos um papel ficava cada vez mais amassado. Quando, enfim, estávamos frente a frente, o menino esticou uma bolinha de papel. Ao ver o estado do papel, Orígenes lhe ofereceu uma folha novinha, perguntando: Não prefere que o Álvaro autografe aqui?. "Não, não, autografa no meu mesmo que depois eu passo a limpo". Obedeci, lógico, e ainda tentei em vão dar outro autógrafo no papel do Orígenes, mas qual o quê, o menino já corria contente para o pátio com sua bolinha autografada na mão”.

O outro exemplo aconteceu no Ciep Nação Rubro Negra, na Gávea (Rio), na sala de leitura, que, por homenagem de Darcy Ribeiro, recebeu o nome de Álvaro Ottoni. Todas as quartas-feiras ele desenvolvia atividade livre de criação e ilustração de histórias, jogos literários e leitura, com os alunos. 

“Corria tudo bem até que um dia entrou na sala um menino que era assim, digamos, o terror da turma. Se chamava Robson, morava na praça com mendigos, cheirava cola e vira e mexe chegava na escola meio fora de si, por vezes agressivo. Mas, para surpresa de todos nós, ele demonstrou interesse nas atividades, comportou-se super bem, participou ativamente e logo se fez assíduo. Um dia decidimos que iríamos escrever sobre um sonho. E Robson escreveu que era um excelente surfista, craque mesmo na prancha, ganhara o campeonato carioca, brasileiro, e o do Havaí. E na última linha escreveu: ‘Aí, eu acordei e descobri que só ganho quando sonho’". 

“Caramba”, se tocou o autor, “ali na minha frente estava um menino de uns 12 anos e que já se considerava um absoluto derrotado. Porém, nesse momento acabara de me dar brecha para que eu trabalhasse sua pra lá de baixa autoestima. O tempo passou, o ano estava terminando. Robson se transformou em um bom aluno, aplicado, fez amizades, abandonou a cola, a praça, os mendigos, e veio morar no Ciep que era também um ciep-residência, com 20 leitos, sob supervisão de um casal. Assim, foi o menino Robson quem me ensinou que a literatura também se presta, e muito, para levantar a autoestima”.

Enfim, “somos o país que mais venceu o Prêmio Hans Christian Andersen, com Lygia Bojunga, Ana Maria Machado e Roger Mello. Nossos ilustradores são reconhecidos mundialmente, detentores dos maiores prêmios internacionais, como Graça Lima, Celso Sisto (que também é escritor), com destaque absoluto para o mestre Rui de Oliveira”, encerra Álvaro Ottoni.

 

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