Colônia Japonesa de Friburgo suspende Hanami devido à Covid-19

Sítio Florândia da Serra, em Conquista, está fechado para preservar a saúde dos friburguenses e evitar contágios
sábado, 27 de junho de 2020
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)

"As primeiras mudas de cerejeiras vieram de São Paulo, em 1975. Depois, o senhor Matsuoka foi multiplicando as mudas e, como o clima é propício, hoje elas brotam naturalmente de suas sementes. Na época, a ideia do senhor Matsuoka de plantar as cerejeiras tinha como objetivo relembrar sua infância e juventude vividas no Japão”, conta Hiroji Fujimaki, genro de Matsuoka. 

Na década de 90, teve início o Hanami - Contemplação das Flores de Cerejeira, ao modo original do Japão: com as famílias reunidas sob as cerejeiras, fazendo uma refeição, um lanche, como um piquenique. 

Hiroji conta que nos primeiros anos participavam apenas familiares e os amigos mais próximos. Com o passar do tempo, amigos foram convidando amigos, até que o espaço disponível deixou de comportar a quantidade de participantes. 

“A colônia japonesa passou a organizar o evento anual e até 2016 o Hanami era realizado aos sábados. Com o crescente aumento de visitantes, decidiu-se fazer aos domingos também. Esse ano, com a Covid-19, não teremos o Hanami. O sítio Florândia da Serra, em Conquista, está fechado para preservar a saúde das pessoas e evitar o risco de contágio. Inclusive, dois moradores daqui testaram positivos para o coronavírus”, explicou Hiroji Fujimaki, casado com Patrícia Matsuoka. Eles moram no sítio, sendo que Patrícia, desde que nasceu. Esta entrevista foi gravada no local com o casal e está disponível também em nossas plataformas digitais.  

AVS: Como vocês se conheceram?

Hiroji: Nossos pais são japoneses e vieram sozinhos para o Brasil. Para compensar a falta da família, os japoneses costumam se reunir para se conhecer melhor e às vezes acontecem casamentos. Esse convívio é natural desde a infância. 

Como começou a história da cerejeira em Friburgo? 

Patrícia: Quando meu pai teve a ideia de plantar cerejeiras, há 40 anos, ele decidiu comprar as primeiras mudas, em São Paulo. É através da cerejeira, um símbolo japonês, que ele se lembra de sua terra natal. É uma planta que pega rápido e se acostumou ao nosso clima. Assim que suas frutinhas caem, já começam a brotar. Meu pai foi plantando em todas as ruas aqui do caquizal. A cada ano foi plantando mais um pouquinho. Quando morrem, ele replanta mais um pouquinho, até que um dia o sítio ficou assim, cheio de cerejeiras. 

Quanto tempo leva para uma cerejeira começar a florescer e ficar desse tamanho? 

Patrícia: Nós plantamos tantas cerejeiras, que perdemos até a noção. Vemos pés pequenininhos que já começam a florir. Mas acho que depois de uns cinco anos, elas já chegam em um tamanho legal e começam a florir bem. 

Como foi o começo do Hanami?

Patrícia: Foi há mais ou menos uns 30 anos que iniciamos o Hanami, a festa da cerejeira, com grupos japoneses. Como já dissemos, o grupo japonês é muito unido. Vinham pessoas de Cachoeiras de Macacu, do Funchal, do Rio, que queriam muito ter esse contato com a natureza, poder admirar a beleza das cerejeiras. Abrimos uma primeira estrada e fazíamos a festa ali no chão mesmo, com karaokê, com a presença de umas 30 pessoas.

Hiroji: As primeiras tinham até umas dez pessoas, todos amigos, como é feito no Japão, embaixo das árvores, no chão com algumas esteiras e apreciando a beleza da floração. 

Patrícia: Esse é o significado do Hanami, observar. Hana é flor, Mi vem do verbo ver, então é ver, contemplar a flor. Um amigo japonês disse que queria ver a festa, depois veio outro, e a cada ano vinha mais gente, do Rio, muita gente mesmo... A festa foi abrasileirando, tivemos que mudar a estrutura porque o pessoal já queria comprar alimentos no local. Antes, cada um levava sua comidinha, que chamamos de “obentô”, e dividíamos. Era aquela confraternização. Quando o pessoal começou a gostar da ideia, queriam comprar, fazer diferente, aí  mudamos o local, saímos da estrada e viemos para cá. 

Hiroji: Aí a colônia japonesa de Friburgo assumiu a organização da festa da cerejeira, a estruturação para receber o público. 

Quais são as atrações da festa?

Patrícia: Tem o Bon Odori, uma dança folclórica tradicional, muito popular. Em qualquer lugar onde tenha festa de japonês, em determinado momento falam... “Vamos dançar bon odori!”. Seja de onde for, todo mundo participa daquela grande roda, de gestos repetitivos, fácil de aprender e todo mundo dança. Também apresentamos uma dança moderna, o Yosakoi Soran, com um instrumento, o Naruko, que no Japão, temos a crença de quando você bate, espanta os pássaros. É animado e alegre. 

Hijori: Outra atração da festa são os tambores japoneses, chamados de Taiko. Aqui em Friburgo, estamos começando um grupo, e quem estiver interessado, após a pandemia, pode procurar a colônia japonesa. Estamos abertos a receber os interessados em aprender essa arte.

Em relação à pandemia, como afetou o funcionamento das celebrações? 

Patricia: Um amiguinho do meu filho até mandou uma mensagem para ele, dizendo.. “passeia pelas cerejeiras e faz um ao vivo para a gente, faz uma live”. (risos). 

Hiroji: Em março, as colônias japonesas determinaram o cancelamento, até maio, de todos os eventos e atividades, tanto internas quanto aqueles abertos ao público. Já estamos em junho e não sabemos até quando esse isolamento vai durar.

Tem outra espécie de cerejeira que começa a florescer em agosto, a flor é branca não é?

Patricia: Sim, é uma outra qualidade de cerejeira, a Yukiwari, ela só surge em meados de agosto. Quem sabe até lá a pandemia passa, e a gente consegue fazer o Hanami? 

Gostariam de acrescentar uma mensagem?

Patrícia: A cada ano esperamos que as cerejeiras estejam mais lindas. As árvores estão em constante formação, então o sítio vai ficando mais bonito com o passar do tempo, assim esperamos. Participamos da organização da festa a partir da floração. Antes, como não tínhamos muito conhecimento, a gente marcava a data da festa achando que seria “tal dia”, agora não, esperamos e anunciamos em cima da hora mesmo, para que todos venham contemplar o Hanami, a flor da cerejeira.

Hiroji: Hoje, através das redes sociais é fácil divulgar as notícias sobre o evento, as pessoas seguem a página da Festa da Cerejeira de Nova Friburgo. Infelizmente, nesse ano de 2020, como já avisamos, em função da pandemia do novo coronavírus, não vamos realizar o evento. Mas a natureza é mais forte do que isso tudo, Então, nos próximos anos esperamos realizar festas cada vez melhores. 

(Colaborou a estagiária Vitória Nogueira)

 

 

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