CNF: um espaço a se defender antes que desmorone

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
por Janaína Botelho*
Foto: Henrique Pinheiro
Foto: Henrique Pinheiro

O Colégio Nova Friburgo inovava em tudo: excursões campestres e estudo do meio social eram atividades extraclasse dos alunos. A famosa revista O Cruzeiro, de 14 de outubro de 1950, numa ampla reportagem de cinco páginas, comparava esse estabelecimento de ensino a um “colégio brasileiro estilo americano”. 

Descrevendo o ineditismo de sua pedagogia e suas amplas instalações para acomodação dos alunos, professores e funcionários, a matéria destaca que as mensalidades eram caras e “restritas às classes mais abastadas”. A revista O Cruzeiro mostra o cotidiano do colégio com alunos tocando violino, jogando xadrez, nas modernas salas de aula, na prática esportiva, na aula de música e fazendo a refeição com os professores. 

No ano de 1958, nas férias de janeiro, alguns professores viajaram com os alunos à Europa em uma excursão percorrendo nove países. Como os alunos estudavam francês, inglês e espanhol, puderam aproveitar bem a viagem. Eram estimulados a manter correspondência com alunos de outros países para aprimorarem o idioma.

Os docentes passavam por um exame criterioso de admissão no Rio de Janeiro. Mesmo após serem admitidos estavam sempre sendo avaliados. A qualquer momento poderia entrar em sala de aula um grupo de docentes instrutores para observar de que forma o conteúdo estava sendo dado. 

Por ser um colégio em que os professores vinham de fora do município, foram construídas residências para abrigar esses profissionais do ensino. Deveriam residir próximos aos alunos, já que fazia parte da pedagogia do colégio o acompanhamento dos estudantes o dia inteiro.

Posteriormente, um prédio com apartamentos na área do colégio ampliou a hotelaria para professores e funcionários. Sua quadra esportiva era de excepcional tamanho, sua piscina com padrão olímpico e os alunos tinham até aulas de esgrima. 

O colégio possuía uma bandeira, hino, escudo e flâmulas. A bandeira tem as cores do colégio: o branco, o azul e o grená representando o primário, o ginásio e o científico, respectivamente. Em seu campo azulado há três estrelas em branco: a maior significa a virtude e as outras duas a saúde e o saber, trinômio que resumia os ideais do colégio. 

Havia a eleição da Turma Nobre, avaliada pelo comportamento e a melhor média de aproveitamento. O prêmio era uma descida extra ao centro da cidade. Na década de 50, do século 20, a Fundação Getúlio Vargas oferecia como bônus ao diretor quando terminasse seu mandato uma viagem à Europa para estágio no Centro Internacional de Estudos Pedagógicos em Sèvres, na França. 

Os professores Joaquim Trotta e Jamil El-Jaick viajaram em suas férias por conta própria para fazer um estágio em Sèvres. Baseado nesse centro surgiu a ideia de se criar um Centro Pedagógico semelhante no Colégio Nova Friburgo. Jamil El-Jaick agiu junto ao MEC e à Fundação Getúlio Vargas, e o Centro Nacional de Estudos Pedagógicos de Nova Friburgo é criado em 1957, nos moldes do Centre Internationel d’Études Pedagogiques de Sèvres.

O intercâmbio com o Brasil intensificou-se graças à visita ao colégio de madame Hatingais, diretora do Centro de Sèvres e Inspetora Geral de Ensino na França. Professores de todo o país passaram desde então a fazer atualização e aperfeiçoamento no Centro de Estudos Pedagógicos do Colégio Nova Friburgo. 

Dessa experiência pedagógica saíram algumas obras: Os livros de Joaquim Trotta, “Experiência Comunitária no Colégio Nova Friburgo da Fundação Getúlio Vargas”, no qual revela suas observações e experiências nesse colégio, e ainda “Atividades Extraclasse e Liderança”, onde mostra o entrosamento entre atividades de classe e extraclasse. 

Existe ainda o livro “Protagonismo Juvenil”, de Antônio Carlos Gomes da Costa, baseado nas práticas progressistas do colégio que colocava o aluno como um ator principal e um protagonista de si mesmo. E uma tese de mestrado defendida na PUC, “Colégio Nova Friburgo da Fundação Getúlio Vargas – mergulhando em sua memória institucional”, de Pablo Silva Machado Bispo dos Santos.

* Entre março e abril de 2017, a historiadora e colunista de A Voz da Serra, Janaína Botelho, produziu uma série de artigos sobre a história do Colégio Nova Friburgo, um prédio considerado patrimônio da cidade. Inaugurado em 1950, pela Fundação Getúlio Vargas, formou diversas gerações de estudantes, por 27 anos, encerrando suas atividades em 1977. Neste espaço, reproduzimos um dos cinco artigos que a professora escreveu sobre o tema em sua coluna História e Memória.

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