O veto que não apagou um nome

Lucas Barros

Além das Montanhas

Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.

quinta-feira, 16 de julho de 2026
por Lucas Barros

Na última terça-feira, 14, a Câmara Municipal de Nova Friburgo decidiu manter o veto do prefeito ao projeto de lei que pretendia dar o nome de Isadora da Silva Cardoso Stulpen Veigaao posto de saúde de Lumiar. A proposta surgiu como uma homenagem e um protesto à menina que faleceu após a ausência de atendimento médico adequado no distrito - caso que provocou enorme comoção popular e reacendeu o debate sobre a precariedade da assistência em saúde naquela região turística. Com a manutenção do veto, o posto permanecerá sem ter o seu nome.

Para alguns, trata-se apenas de uma discussão administrativa. Para outros, trata-se de memória. E, sobretudo, de significado.

Não pretendo discutir aqui se o veto foi correto ou politicamente conveniente. Há argumentos dos dois lados e cada leitor tem o direito de formar sua própria convicção. O que me chama atenção não é exatamente a placa que deixará de existir. É aquilo que ela representaria.

A sessão do Legislativo que antecedeu esse texto foi marcada por um momento impossível de ignorar. Com a voz interrompida pela emoção, o pai de Isadora olhou para os representantes do município e afirmou que tanto o Executivo quanto o Legislativo carregavam responsabilidade pela morte de sua filha.

Há frases que não se respondem com discursos. Elas permanecem ecoando muito depois de a sessão terminar.

Dar o nome de Isadora ao posto de saúde jamais devolveria uma filha ao pai. Jamais diminuiria a dor da família. Jamais apagaria a tragédia. Mas símbolos possuem uma força que muitas vezes ultrapassa a utilidade prática. Eles lembram às futuras gerações que determinado sofrimento não pode ser esquecido.

A memória existe justamente para impedir que a negligência seja tratada como um acidente qualquer. Porque algumas histórias precisam permanecer vivas para que nunca mais se repitam. E talvez seja exatamente isso que mais incomode.

Um apelo antigo

Durante anos, moradores de Lumiar denunciaram dificuldades relacionadas ao atendimento em saúde. Reclamações antigas, pedidos antigos, reivindicações antigas. A sensação era de que o distrito precisava insistir continuamente para ser ouvido. Até que um dia a tragédia rompeu o silêncio.

Foi preciso perder uma criança para que um tema antigo finalmente ocupasse o centro das discussões públicas. Essa talvez seja uma das maiores feridas da administração pública brasileira. Muitas vezes, a política parece funcionar apenas depois da tragédia. Enquanto o problema é apenas um alerta, ele pode esperar.

Quando se transforma em comoção, torna-se prioridade. Não deveria ser assim. Política pública deveria nascer da prevenção, não do luto. Deveria surgir do planejamento, não da indignação. Deveria proteger vidas antes que elas se transformassem em estatísticas ou manchetes. Infelizmente, a realidade costuma seguir outro roteiro.

Nova Friburgo conhece bem esse ciclo. A saúde continua enfrentando dificuldades estruturais. Faltam profissionais, faltam insumos, faltam respostas. Ao mesmo tempo, assistimos com frequência a debates que parecem caminhar em outra direção. Festas, eventos, inaugurações e anúncios ocupam espaço enquanto problemas antigos permanecem aguardando solução.

Não se trata de afirmar que cultura, turismo ou entretenimento não tenham importância. Têm. Uma cidade também precisa celebrar. Mas existe uma ordem natural das prioridades. Quando o cidadão não encontra atendimento adequado, toda comemoração perde um pouco do brilho. E só quem já precisou, sabe dizer esse sentimento de impotência.

A sensação que permanece é de abandono. É a sensação de que algumas comunidades precisam gritar muito alto para serem percebidas. De que alguns problemas só recebem atenção quando já produziram consequências irreversíveis.

Talvez seja justamente por isso que a discussão sobre o nome do posto tenha provocado tanta repercussão. Não por causa da placa. Mas porque ela acabou se tornando um símbolo de algo muito maior.

O símbolo de uma população que deseja ser lembrada antes da tragédia. O símbolo de famílias que não querem homenagens futuras. Querem atendimento presente. Querem ambulâncias funcionando, equipes suficientes, estrutura adequada e a tranquilidade de saber que, diante de uma emergência, o poder público estará preparado para agir.

No fim das contas, a placa nunca foi o centro da discussão. O verdadeiro debate sempre foi sobre memória. Sobre responsabilidade. Sobre prioridades. E sobre o tipo de cidade que queremos construir. Porque nomes podem, sim, ser vetados. Mas existem histórias que nenhuma votação consegue apagar.

E talvez essa seja a principal delas: a de uma comunidade que aprendeu, da maneira mais dolorosa possível, que nenhuma homenagem será maior do que a obrigação do poder público de proteger vidas. Afinal, monumentos confortam a memória, mas somente políticas públicas impedem que novas lembranças precisem ser erguidas sobre a dor.

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