Personalidade

O amor de Iris e Santiago
quinta-feira, 04 de junho de 2026
por Marcelo Gonzales
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
Vinte anos atrás, eles se cruzaram em um forró de São Gonçalo. Ela estava na plateia. Ele no palco. Houve encontros, desencontros e, como acontece em tantas histórias que parecem não terminar quando acabam, a vida tratou de guardá-los um para o outro.

Canções para chamar de lar: entre trilhas na mata, fogão a lenha, duas filhas e mais de mil apresentações juntos, Iris e Santiago transformaram amor, família e recomeços em música
Durante quinze anos seguiram caminhos diferentes. Casaram-se, construíram outras histórias e quase se tornaram apenas uma lembrança distante. Até que, pouco antes da pandemia, um acaso resolveu mudar tudo.

Um amigo em comum precisava hospedar um músico que faria uma apresentação na cidade. O músico era Santiago. 

O reencontro aconteceu sem grandes anúncios, mas trouxe de volta algo que havia permanecido adormecido por muito tempo. Poucos meses depois, o mundo entraria em isolamento e eles tomariam uma decisão que transformaria suas vidas: ficariam juntos.

O início da nova caminhada não aconteceu nos palcos. A música, naquele momento, também havia sido silenciada pela pandemia. Para seguir em frente, criaram um projeto de entrega de alimentos orgânicos que aproximou agricultores da serra e consumidores das cidades. Foi nesse movimento que Lumiar começou a entrar em suas vidas.

As viagens se tornaram frequentes. A natureza, cada vez mais presente. Até que surgiu o convite para viverem numa propriedade rural em Toca da Onça, dentro de uma área de preservação cercada por mata. A casa era simples, de pau a pique, alimentada por energia solar e acessível apenas por uma longa caminhada por trilha.

Foi para lá que seguiram os três: Iris, Santiago e Cecília, filha de um relacionamento anterior de Iris, que encontrou em Santiago um companheiro de vida e de cuidados. Enquanto a menina estudava à distância, a família aprendia uma nova forma de existir.

Entre plantações, fogão a lenha e o silêncio da floresta nasceram também as primeiras composições. Iris escrevia poemas. Santiago criava melodias e arranjos. Aos poucos, as canções começaram a registrar a própria história que viviam. Não eram músicas inspiradas pela vida. Eram a própria vida transformada em música.

Foi naquele cenário que surgiu "Sertão da Paz", projeto autoral que reúne lembranças, paisagens e sentimentos de uma família que escolheu desacelerar para recomeçar.

A chegada de Yara, a segunda filha do casal, trouxe novos desafios e novos horizontes. Os shows começaram ainda em 2021 e logo se espalharam pelos palcos de Lumiar, São Pedro da Serra e Nova Friburgo. Muitas vezes a bebê acompanhava os pais nas apresentações, acomodada em um carrinho ou cercadinho montado ao lado dos instrumentos.

Hoje, após mais de mil apresentações realizadas juntos, Iris e Santiago continuam dividindo muito mais do que um palco. Compartilham a criação das músicas, a rotina da casa, os sonhos, as filhas e os planos para o futuro.

Na prática, contam que quase não existe separação entre a vida familiar e o processo criativo. As ideias surgem na cozinha, durante viagens de carro ou no meio das tarefas cotidianas. A música acontece enquanto a vida acontece.

As filhas cresceram cercadas por esse ambiente. As duas demonstram afinidade com a arte e participam naturalmente do universo criativo construído pelos pais. Um universo que, segundo o casal, é tão bonito quanto contraditório. 

Há momentos em que a casa exige mais atenção. Em outros, é a arte que ocupa o centro dos dias. E é justamente nesse equilíbrio imperfeito que a família encontra seu caminho.

Talvez seja por isso que, ao serem perguntados sobre o que sustenta a relação nos períodos difíceis, eles não falem sobre sucesso ou reconhecimento. Falam sobre propósito. Sobre a família que construíram. Sobre os sonhos compartilhados.

Antes de cada viagem ou apresentação, mantêm um pequeno ritual. Dentro do carro, fazem uma oração juntos. Agradecem o que possuem e os caminhos que ainda desejam percorrer.

Entre montanhas, canções e afetos, a história de Iris e Santiago parece lembrar algo simples e precioso: algumas famílias são construídas tijolo por tijolo. Outras são construídas nota por nota. A deles, talvez, seja feita das duas coisas.
 

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