Projeto sustentável escolhe Lumiar como teste para “Casa de Morcegos”

A pesquisa se destaca pelo sucesso inicial da migração voluntária de colônias da espécie.
terça-feira, 04 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra
Foto: Piper 3d
Foto: Piper 3d

O distrito de Lumiar foi escolhido como área piloto de um projeto inédito no Estado do Rio de Janeiro que busca a preservação dos morcegos, retirando os animais de telhados de forma ética e sustentável. A iniciativa, desenvolvida entre 2023 e 2024, instalou abrigos artificiais, as chamadas bat houses, com o objetivo de oferecer refúgios seguros para os morcegos e incentivar a migração voluntária das colônias que se formam dentro das residências. 

A pesquisa foi coordenada pela bióloga Elizabete Captivo Lourenço, com apoio da Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio), parceria com o Laboratório de Ecologia de Mamíferos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e execução da Piper3D, empresa especializada em consultoria ambiental, onde a bióloga é sócia.

Lumiar foi escolhido por estar na Região Serrana, área que apresenta um maior desenvolvimento de morcegos. A pesquisa começou a partir de um caso real no distrito: uma moradora que convivia com morcegos no telhado da própria casa sem conseguir removê-los. Com a oportunidade da equipe de se instalar na residência dela, para maiores estudos de caso, coleta de materiais e identificação de quais espécies estavam se abrigando lá, a pesquisa começou a ganhar forma.

“A partir dessa casa começamos a fazer propagandas, para chegar nos moradores da região. Também entramos em contato com o pessoal da Área de Proteção Ambiental (APA) de Macaé de Cima, para poder mapear onde havia morcegos morando em residências e procurar parceiros. Precisávamos de pessoas que além do desejo de retirar esses animais do telhado, tivessem uma sensibilização ambiental, porque não íamos matar e nem retirar de forma imediata os animais dos telhados”, explica Elizabete.

Como funcionam as Bat Houses

Para o desenvolvimento dos abrigos artificiais, foi escolhido o modelo norte americano, que já é muito utilizado nos Estados Unidos. O principal objetivo é proteger os morcegos de possíveis predadores, do sol e fornecer um lugar seguro para a reprodução. Devem seguir alguns critérios como: utilizar madeiras não tratadas, com câmaras estreitas, cheiros familiares e instalados em locais ensolarados por pelo menos seis horas diárias. A conscientização das pessoas também é necessária para o bom funcionamento dos pontos.

Foram instaladas oito bat houses em seis casas de parceiros no distrito de Lumiar, com a permanência de morcego em duas instalações, por dois dias, após esse período não houve mais a presença dos animais, mesmo com o monitoramento há cerca de um ano. Segundo Elizabete, em cinco casas, foi instalado além dos abrigos artificiais, um sistema para a remoção dos morcegos para estudo e identificação de espécies. “Dessas cinco casas, em duas conseguimos fazer a remoção completa dos morcegos, e mesmo com monitoração há um ano, esses animais não voltaram”, comentou.

Os morcegos brasileiros ainda estão resistentes à mudança, em comparação com outras espécies fora do país. O projeto teve sucesso parcial: algumas casas tiveram as colônias totalmente removidas, outras apenas reduzidas. Já a ocupação das bat houses ainda é baixa, o que pode indicar necessidade de adaptação do modelo às espécies brasileiras.

“Queremos desenvolver uma estrutura própria, um abrigo brasileiro. O modelo norte-americano funciona lá, mas aqui as espécies não se adaptaram totalmente”, afirma a pesquisadora.

Importância da espécie no ecossistema

Embora sejam frequentemente associados ao medo ou a doenças, os morcegos cumprem papéis essenciais no equilíbrio ambiental. Os morcegos frugívoros dispersam sementes e contribuem para a regeneração de áreas degradadas, por isso são apelidados de “jardineiros noturnos”. Os nectarívoros polinizam flores que se abrem à noite, como as agaves utilizadas na produção da tequila. E os insetívoros consomem toneladas de insetos por noite, ajudando a controlar pragas agrícolas e vetores de doenças, como o mosquito aedes aegypti, transmissor da dengue. Um único morcego pode se alimentar de milhares de insetos em poucas horas, o que reduz o uso de pesticidas e gera impacto ambiental positivo. Mesmo assim, são alvo de envenenamento, queimadas, uso de naftalina e outras tentativas de expulsão, todas proibidas por lei.

Segundo Elizabete, o desafio é duplo: proteger os morcegos e devolver qualidade de vida aos moradores. “A problemática principal é o morcego em refúgio nos telhados. Muitas pessoas querem retirar os animais, mas acabam recorrendo a métodos ilegais e cruéis. Nosso objetivo é conciliar as duas pontas: conservação desses animais e redução do incômodo nas residências”, explica a bióloga.

Próximos passos

Com a fase inicial concluída, Elizabete diz que a próxima fase do projeto é conseguir outra pessoa para dar continuidade, em mestrado ou doutorado, dentro do Laboratório de Ecologia de Mamíferos na Uerj, para o aumento do número de bat houses e com um modelo 100% brasileiro. 

“O ideal é que o projeto seja continuado e cresça. Nosso maior ganho até agora foi provar que é possível retirar morcegos de telhados sem matar, sem veneno e com educação ambiental”, finaliza. 

  • Reportagem da estagiária Isabella Rodrigues com supervisão de Henrique Amorim

  • Foto: Piper 3d

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  • Foto: Piper 3d

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