Um passeio de trem por Nova Friburgo

sexta-feira, 16 de julho de 2021
por Renato Henrique Gomes da Silva*, especial para A VOZ DA SERRA
Um passeio de trem por Nova Friburgo

A Associação de Amigos da Preservação e Memória do Patrimônio Ferroviário Barão de Nova Friburgo - Clube do Trem - é uma entidade que foi criada em agosto de 2017. Trata-se de uma entidade civil, sem caráter corporativo, suprapartidária, sem fins lucrativos, de cunho histórico, cultural e educativo, com sede e foro no município de Nova Friburgo, podendo atuar com núcleos de base, em todas as localidades em que foi implantado o transporte ferroviário pelo Barão de  Nova Friburgo e em outras unidades da federação. 

Neste artigo, faremos um passeio pela história do trem em Nova Friburgo. O trem vindo do nível do mar, das cidades do Rio de Janeiro e Niterói, capitais dos estados  da Guanabara e Rio de Janeiro, respectivamente, chegava a Theodoro de Oliveira (a 1.000 metros de  altitude) puxado por uma locomotiva de força e tração. Para vencer a diferença de nível, depois de passar por Cachoeiras de Macacu, era equipada com freio de segurança, sistema Fell, entre os  trilhos de bitola métrica. 

Nesta primeira parada em terras friburguenses, a locomotiva era substituída por outra de velocidade maior e mais leve, no pátio de manobra mais importante da Região Serrana, onde hoje  se localiza o Posto da Policia Rodoviária Estadual. A partir de Theodoro, descendo em direção ao centro de Nova Friburgo, seguia a margem esquerda  do Rio Santo Antônio, passando por Mury, onde, após uma pequena parada em Mury, ainda à margem esquerda, chegava ao Bairro Ypu, passando em frente a Fábrica Ypu. 

Logo depois, atravessava o rio por um pontilhão, cujos pilares originais podem ainda ser visualizados, embora parcialmente encobertos pela ponte em frente à Igreja de São Bento. Neste local, ao fazer a curva, apitava para alertar sobre sua chegada. Passando pela Rua Moisés Amélio, entrava na estação central, hoje sede da Prefeitura  Municipal de Nova Friburgo (Palácio Barão de Nova Friburgo), destino e ponto final dos passageiros. O trem estacionava na  plataforma atrás do prédio numa área complexa que oferecia oficina mecânica, garagem, pátio de manobras, rotatória para inversão de direção das locomotivas, estação de passageiros e cargas,  sanitários, bilheteria, setor administrativo e sala de espera. 

Desta estação partiam trens para Itaocara e Porto Novo, em Minas Gerais, com bifurcação da linha em Conselheiro Paulino. Antes, paravam na estação de cargas, onde hoje encontra-se o quartel  do 11º Batalhão da Polícia Militar, após atravessarem a ponte de ferro, cujos pilares podem ser vistos em ambas as margens do Rio Bengalas em frente à fábrica Haga. 

Rumo à Itaocara, o trem seguia passando em frente à igreja Santa Terezinha, em Conselheiro Paulino, em direção à Riograndina, cujas estação e ponte de ferro, belíssimas e  centenárias, construídas na implantação da referida linha, ainda permanecem como marcos da  época áurea do trem que transportava cargas, como café, e passageiros entre as cidades do Centro-Norte fluminense e capitais.

A caminho de Minas Gerais, o trem passava ao lado direito da Igreja de Conselheiro,  Paulino contornava o bairro São Jorge e seguia pela estrada da Fazenda da Laje, local de uma pequena  plataforma, até atingir a cidade de Sumidouro. 

É neste trecho, Fazenda da Laje x Sumidouro que estão depositadas todas as expectativas de ser implantada uma linha regular de trem, inicialmente turística, entre as duas cidades, Nova Friburgo e Sumidouro, reaproveitando o leito anteriormente usado pela linha férrea. 

A “Viagem dos Sonhos” iniciaria-se na Fazenda da Laje, onde ainda pode ser visto um bueiro construído na época da abertura da linha, em direção à Fazenda Manoel do Queijo, pela margem direita  do Rio Grande. Serpenteando todas as encostas das montanhas rochosas da região, a viagem abre uma  extensa e deslumbrante vista da mata nativa, do vale do Rio Grande, da antiga represa de energia  elétrica, cuja cascata Pinel encanta a todos, pela sua opulência, altura, volume e queda d’água. 

Seguindo, o comboio atravessaria o cannyon, de 35 metros de altura, do Rio Grande, cuja  ponte de ferro jaz desde de 2011 às suas margens, juntamente com os pilares que a sustentavam.  Daí, chega-se à Janela das Andorinhas, região agrícola que se estende até a divisa com o município  de Sumidouro, mais ou menos, 11 quilômetros após o início da viagem. 

Da divisa, o projeto é que trem continue seu trajeto passando por uma região de forte agricultura e cultivo de frutas, em especial o caqui, até chegar a estação férrea, cuidadosamente conservada, no  distrito de Mariana, pertencente a Sumidouro. A seguir, contorna o deslumbrante vale da fazenda Santa Cruz cuja sede totalmente recuperada pelo seu proprietário e importante empresário da região, é visualizada por toda a sua  grandeza e plenitude.  

Há poucos quilômetros em direção a Sumidouro a majestosa cascata Conde D’Eu  pode ser observada também pelo seu volume d’água, com uma queda livre de aproximadamente  100 metros de altura.  Mais a frente, a passagem através de três túneis esculpidos e construídos na época da  abertura da linha férrea, com destino a Porto Novo, encanta a todos. Três túneis de comprimento curto, médio e longo. Este último, em curva e totalmente desprovido de luz natural. 

Chegando a Murineli, outro distrito sumidourense, cuja estação encontra-se em excelente  estado de conservação, o trem atravessa a rodovia estadual RJ-148 (Nova Friburgo-Carmo), passa pela  Ponte Seca, a ser reconstruída, aproveitando alguns dos seus pilares centenários, ainda hoje  encontrados ao longo do leito antigo da linha.          Finalmente, a chegada a Sumidouro, 22 quilômetros após a partida na Fazenda da Laje. 

Sem dúvida uma “Viagem dos Sonhos”, com o indizível sabor de rever toda a beleza no  percurso de volta, com pequenas paradas para fotografia e deslumbramento. Tudo isso, embalado pelo suave movimento do trem, pelo badalar antigo do sino, pela música de seu apito, enquanto desliza soberbo pelas terras de nossos antepassados, revisitando a  história. 

*Renato Henrique Gomes da Silva é membro  da diretoria do Clube do Trem Nova Friburgo. 

Um cenário de raras belezas

(por Deborah Cunha, presidente do Clube do Trem)

Realizando esse “passeio” dá para perceber a riqueza cênica desta região! O Clube do Trem Nova Friburgo realizou um estudo de viabilidades para a instalação de uma linha turística que ligasse os dois municípios: Nova Friburgo e Sumidouro.  Este rico trabalho foi desenvolvido pela equipe “Grupo Tarefa Engenharia” (GTEng) do Clube do Trem Nova Friburgo, que construiu relatório de projeto conceitual para implantação do Trem Turístico (TT) no trecho da antiga parada (denominada pela Estrada de Ferro Leopoldina de PE) - PE Branca até próximo ao PE Ugepim do ramal de Sumidouro, totalizando um percurso de cerca de 11 quilômetros todo em terras friburguenses. 

Em março de 1889 (portanto em 2019 o ramal celebraria 130 anos) a Estrada de Ferro Leopoldina inaugurou o ramal de Sumidouro em bitola métrica, que partia da estação de Conselheiro Paulino (em Nova Friburgo) e num percurso de 92 quilômetros atingia a estação de Melo Barreto, em Minas Gerais, logo depois de cruzar o Rio Paraíba do Sul. As características principais na implantação do traçado do ramal foram rampa máxima de 2,7% e raio mínimo de curva de 90 metros (doc. 2.3 pág. 127). Os trilhos  de aço nas últimas décadas de funcionamento eram de 32 quilos por metro. Os dormentes eram de madeira tratada. A linha funcionou até 1967.  

Posteriormente os trilhos e dormentes foram removidos. Nas últimas décadas de funcionamento, as composições do ramal eram tracionadas exclusivamente por locomotivas classe 2-6-0 "Mogul"  adquiridas nas décadas de 1920 e 1930 pela LR (Leopoldina Railway). Estas locomotivas tinham peso por eixo motriz de aproximadamente 10 toneladas. Tracionavam composições mistas (carga e passageiros). O trecho inicial do ramal, da estação (demolida) de Conselheiro Paulino até o PE  Branca (demolido), está por demais urbanizado e com algumas invasões da faixa de domínio. Por esta razão o trecho considerado no presente relatório para o TT se estende do antigo PE Branca  (km 162,825 altitude 934 m) até cerca de 600 metros antes do antigo PE Ugepim (km 174,457 altitude  1041 m), portanto perfazendo aproximadamente 11 quilômetros. 

Seguimos com esse objetivo: obter apoio de investidores que vislumbrem a reconstrução da ferrovia em nossa região, que possui fortíssimo potencial turístico, e certamente poderá oferecer grande desenvolvimento econômico, além de disponibilizar grande oferta de empregos para os  moradores das cidades envolvidas no projeto que vai além da linha do trem.

 

Publicidade

Apoie o jornalismo de qualidade

Há 76 anos A VOZ DA SERRA se dedica a buscar e entregar a seus leitores informações atualizadas e confiáveis, ajudando a escrever, dia após dia, a história de Nova Friburgo e região. Por sua alta credibilidade, incansável modernização e independência editorial, A VOZ DA SERRA consagrou-se como incontestável fonte de consulta para historiadores e pesquisadores do cotidiano de nossa cidade, tornando-se referência de jornalismo no interior fluminense, um dos veículos mais respeitados da Região Serrana e líder de mercado.

Assinando A VOZ DA SERRA, você não apenas tem acesso a conteúdo de qualidade, mantendo-se bem informado através de nossas páginas, site e mídias sociais, como ajuda a construir e dar continuidade a essa história.

Assine A Voz da Serra

TAGS: