Terapia on-line é alternativa para pacientes em tempos de pandemia

Psicóloga lista estratégias para lidar com uma situação nunca antes vivida por brasileiros
sábado, 28 de março de 2020
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
A psicóloga Carmem Lúcia Gobel Coelho
A psicóloga Carmem Lúcia Gobel Coelho

Confinamento, quarentena, isolamento, solidão, são os sentimentos mais relatados e percebidos em todo o mundo, em  tempos de coronavírus. Em meio a tantas informações, entre elas as famigeradas fake news, o clima de tensão agravado pelo confinamento pode afetar o estado emocional de grande parcela da população.

Diante desse quadro que se agrava à medida que a pandemia avança e o isolamento, consequentemente, se estende, o Conselho Federal de Psicologia liberou consultas on-line para evitar a propagação do vírus e, em contrapartida, permitir que os pacientes, no momento em que mais precisam, fiquem desassistidos.

Até então, para atendimento on-line era necessário que o profissional realizasse o cadastro no e-Psi, para, só então, começar o trabalho remoto. Em nota, o Conselho Federal de Psicologia suspendeu essa determinação nos meses de março e abril para facilitar as consultas.

Segundo especialistas, em momentos de insegurança e incerteza, o simples fato de ficar isolado em casa pode se tornar um gatilho para uma crise de ansiedade. Exatamente por isso, passa a ser fundamental o papel do psicólogo. 

A VOZ DA SERRA entrevistou com exclusividade a psicóloga, mestre e doutora Carmem Lúcia Gobel Coelho para discorrer sobre questões relativas à sua área diante de uma calamidade que atingiu países de todos os continentes. Exercendo a profissão há 38 anos, Carmem atende pacientes que moram em outras cidades e até em outros países. Confira:

  

A VOZ DA SERRA: Que estratégias você adota para lidar com essa situação?

Carmem Lúcia Gobel: Toda situação que se configura de uma forma totalmente desconhecida por todos nós, como agora, naturalmente vai provocar ansiedade, perplexidade, insegurança, medo, porque é um cenário de incertezas que leva à desestabilização. Todos esses sentimentos precisam ser acolhidos, nunca ignorados. Diante de um perigo iminente, precisamos nos preparar, não fingir que está tudo bem.  

Até semana passada, por volta do dia 13, estávamos trabalhando normalmente, escolas funcionando, comércio aberto. Quer dizer, estamos vivendo isso há apenas duas semanas, quando foi decretada suspensão de praticamente todas as atividades. Quanto às estratégias devem começar pelo acolhimento e demonstração por parte dos terapeutas de que é normal ficar vulnerável, emocionalmente. 

Para amenizar essa situação inesperada é importante criar rotinas, se informar, mas evitar ficar 24 horas ligado no noticiário, o que só aumenta a sensação de desamparo e vulnerabilidade. Esse isolamento deve ser usado também para promover um encontro consigo mesmo, abraçar-se, refletir, observar as próprias reações. E, de alguma forma, dentro das possibilidades de cada um, bater papo com amigos ou familiares, pelo computador, contribuir para levar alento aos que estão em situação mais precária. Enfim, ir nos adaptando à medida que surjam novos dados, novas situações e condições de vida. 

AVS: Ninguém podia imaginar nada parecido com uma pandemia e encarar com tranquilidade as primeiras notícias vindas da China…

Carmem Lúcia Gobel Coelho: Acredito que ninguém. Podíamos até imaginar o cenário, mas viver nele é outra história, tem uma enorme diferença. A partir das primeiras medidas para combater o risco de contágio, com a indicação de quarentena e outras restrições, comecei a me preparar para atender meus pacientes diante de uma nova situação. Essa preparação não termina, porque tudo muda toda hora e a gente tem que ir encontrando respostas para bem atender quem busca ajuda, o tempo todo. O cenário muda de configuração a cada momento, é inevitável. 

Portanto, você precisa estar atenta a tudo que afeta a vida das pessoas, de modo geral.

Completamente. Quais serão as medidas nos setores da educação, da saúde, as medidas econômicas, políticas, sociais? São muitos os pontos de interrogação que não sabemos quando serão respondidos, e em meio a tudo isso temos que manter o equilíbrio para nos fortalecer cada vez mais.    

Como lidar com o excesso de informação?

Não se deixando inundar, sufocar por elas. Tomar conhecimento das notícias através de um canal de notícia ou jornais, oficiais, de fonte segura, é bom que se diga - e não oficiosas, principalmente as de redes sociais -, é o suficiente. O resto do tempo deve ser aproveitado para outras atividades, de todo tipo, em casa. Por outro lado, percebo que as pessoas estão num tal nível de perplexidade, que só falam disso, só querem saber de coronavírus, como se assim conseguissem pensar melhor ou descobrir mais sobre essa doença. A narrativa costuma organizar muito a cabeça da gente. Não deixa de ser também uma estratégia, no caso, pessoal, para enfrentar o isolamento.

Como podemos nos proteger dessa “inundação” de sentimentos?

Controlando a ansiedade. O fato de estar fazendo o isolamento social nos impõe desacelerar o ritmo a que estamos acostumados no nosso dia a dia. Controlar a ansiedade e ter práticas que nos conectem com o que cada um acredita, ajuda muito, desde as questões sagradas, como a religião, a espiritualidade. Isso traz conforto, confiança, nos dá um pouco de paz de espírito. 

 

Recomendações:

  • Reduzir a exposição às notícias;

  • Ocupar a mente com atividades diversas;

  • Manter o pensamento positivo tendo ciência de que está fazendo a parte que lhe cabe e que não temos controle sobre tudo e todos;

  • Pensar no futuro, de forma moderada, e fazer planos positivos e prazerosos. Para quem não consegue fazer isso sozinho, recomenda-se procurar ajuda de um psicólogo;

  • Estabelecer uma rotina, um ritmo para o seu dia;

  • Manter os cuidados pessoais, se arrumar, mesmo para ficar em casa;

  • Buscar, na medida do possível, atividades agradáveis como ouvir músicas, ler um livro, um jogo em família etc, e também meditar, refletir, se conhecer mais e melhor;

  • Usar a tecnologia para se conectar com as pessoas. O isolamento é físico e não emocional;

  • E não se esqueça: tudo passa.

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