Palavras de todo o mundo

sexta-feira, 17 de outubro de 2025
por Rachel Ventura Rabello*
Palavras de todo o mundo
Sempre me apresentando algo interessante, a jornalista Ana Borges me mostrou essa semana uma crônica de Joaquim Ferreira dos Santos sobre o persistente anglicismo em nossa língua. O escritor relata um episódio em que uma funcionária de uma loja em um shopping da Zona Sul carioca perguntou se ele gostaria que o produto fosse entregue em sua casa. “Quer adressar?”, ela perguntou. Derivado do inglês to adress, o termo substituiria palavras como “remeter”, “enviar”, “entregar” etc. 

Se a gente parar para estudar a etimologia, logo perceberá que não existe língua “pura”
Ao conhecer mais uma expressão do anglicismo em nossa língua, confesso que, em um primeiro momento, tive uma reação de estranhamento, incômodo, vergonha alheia. Mas, parando para pensar, logo vi que essa reação não passava de bobagem e, pior, de preconceito. Se a gente parar para estudar a etimologia, logo perceberá que não existe língua “pura”, porque a história das línguas se confunde com a história de cada povo.

O português brasileiro é repleto de palavras de origem africana e indígena. Isso, como se sabe, deve-se não apenas à sangrenta formação do povo brasileiro, com o genocídio e escravidão de indígenas e africanos, mas também aos escritores românticos, que buscaram inscrever a singularidade do Brasil em suas obras literárias, ainda que de modo um tanto quanto artificial. Já o português europeu tem palavras de origem árabe, por conta da história da formação do país (lembremos que foi Afonso Henriques o primeiro rei de Portugal e o primeiro a iniciar a expulsão dos mouros do território, ali estabelecidos desde o século VII). A verdade é que as línguas sempre foram influenciadas pela  hegemonia cultural e econômica de cada época. 

Até meados do século XX, ao menos no Brasil, a influência da língua francesa era muito maior do que a da língua inglesa, fato que podemos notar em palavras já dicionarizadas como abajur, sutiã, chofer, fecho éclair, entre tantas outras. Também era o francês a língua estrangeira ensinada nas escolas. Assim, terá maior influência a língua considerada “de prestígio” em cada tempo. Com o deslocamento do poder econômico dos Estados Unidos para a China, não será surpreendente se daqui a alguns anos o português brasileiro começar a absorver palavras ou construções frasais do mandarim.

Um estudo realizado por pesquisadores do Departamento de Neuropsicologia do Instituto Max Planck de Cognição Humana e Ciências do Cérebro, em Leipzig, na Alemanha (Max Planck Institute for Human Cognitive and Brain Science), demonstrou que diferentes áreas do cérebro são ativadas em falantes nativos de línguas distintas, formando conexões que, em última análise, influenciam a forma como pensamos. O estudo comparou participantes falantes de alemão e árabe e revelou que alemães têm o hemisfério esquerdo do cérebro mais ativado, onde se processam a sintaxe e o raciocínio lógico. Já entre os árabes, há maior conexão entre os hemisférios direito e esquerdo, ativando regiões que processam a semântica e a criatividade. Obviamente, isso não quer dizer que falantes de alemão sejam menos criativos que falantes de árabe, mas certamente torna evidente que a língua que falamos influencia a maneira como elaboramos nossos pensamentos.

Diante desse estudo e da crônica de Joaquim Ferreira dos Santos, me peguei pensando sobre os impactos do anglicismo em nossa forma de pensar. O que, para alguns, à primeira vista, pode parecer um “empobrecimento” da língua portuguesa, na verdade,  pode enriquecer nossas conexões cerebrais e possibilitar novas formas de ler – e escrever – o mundo.

*Rachel Ventura Rabello é escritora e mestre em Letras

 

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