Nesta semana, a capital do Brasil foi transferida simbolicamente para Belém, onde permanecerá até o final da COP30. Oficialmente, a Conferência começa nesta segunda-feira, 10, mas as reuniões preparatórias estão a todo vapor nas capitais paraense e fluminense. A propagação dessa onda verde pode ser vista em outras grandes cidades pelo país com iniciativas sustentáveis e de adaptação sendo anunciadas e inauguradas nos últimos dias.
Nesse panorama, o governo brasileiro espera conseguir avançar as pautas da COP que encontram mais resistência, como o financiamento para países em desenvolvimento fazerem a sua transição energética de maneira justa e inclusiva. Belém, a capital paraense, recebeu a Cúpula dos Líderes para dar o pontapé inicial nas promessas e discursos, com destaque para os mais contundentes, como os do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, e dos presidentes da Colômbia e do Chile, que discursaram sobre termos falhado como humanidade não apenas em implementar os esforços já acordados anteriormente, mas também moralmente, pois agora nos aproximamos de um colapso climático que afeta a todos.
Em contraste com o tom alarmista de Belém, a atmosfera festiva do Rio de Janeiro se sobrepôs - em meio a tantas reuniões paralelas -, impulsionada pelo prêmio Earthshot, que trouxe shows de música e premiações milionárias. Entre os vencedores está um projeto brasileiro de reflorestamento que utiliza inteligência artificial, drones e dados de satélite para restaurar florestas.
Outros vencedores do prêmio Earthshot incluem: um projeto que despoluiu em 24% a cidade de Bogotá, Colômbia; a preservação do alto-mar (que representa 60% da área total dos oceanos); as soluções para descartes da indústria da moda; e um projeto de hospitais e escolas flutuantes para eventos climáticos extremos em Bangladesh.
Procurando manter o embalo das negociações, as presidências da COP29 e 30, publicaram o roteiro “De Baku à Belém", que visa garantir o aporte de US$1.3 trilhão em financiamento climático para os países em desenvolvimento. O texto sugere alguns caminhos para reestruturar a balança financeira dos países mais pobres e impulsionar tecnologias limpas.
Entre as sugestões mais polêmicas destacam-se: mecanismo para países ricos e instituições multilaterais perdoarem dívidas em troca de
investimentos verdes; uma tributação internacional (0,5% de imposto sobre todas as transações financeiras, o que poderia gerar até US$ 900 bilhões); e um imposto climático para jatinhos e viagens de luxo.
Como já aconteceu em outras COPs, o tema de financiamento é sempre delicado e encontra resistência dos países ricos. Mas a postura dessa presidência é a de que chegou a hora de agir e não temos mais tempo a perder. A grande aposta do Brasil para a COP é o Fundo de Florestas Tropicais (TFFF), que avançou pouco essa semana. A meta é levantar US$ 25 bilhões durante a COP e os US$ 100 bilhões restantes virão da iniciativa privada.
Concretamente, sabemos que a Finlândia se recusou a contribuir para o TFFF, assim como o Reino Unido. Além disso, o encontro de Ursula von der Leyen com Lula acabou sem uma promessa de contribuição para o TFFF. Fora o aporte inicial do Brasil de US$ 1 bilhão, anunciado na ONU em setembro, somente a França (US$ 500 milhões), Indonésia (US$ 1 bilhão) e Noruega (US$ 3 bilhões) se comprometeram essa semana.
Nesse contexto, fechamos a semana que antecede as discussões técnicas da COP com passos modestos, mas firmes. A delegação brasileira parece bem otimista nas suas ações para levantar fundos para manter a floresta em pé.
Um grande incentivo para o Itamaraty é o fato deste mecanismo ser visto como um termômetro para o sucesso da Conferência em Belém, pois é uma das poucas ações que sairão do papel, uma vez que os acordos vigentes já foram vistos e revistos, e falta somente agir.
*) Isabela Braga é bióloga e cientista climática. Escreve aos sábados

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