“A igualdade não existe, a equidade está longe e os direitos não são os mesmos”

O artigo da professora Eliane Santos, integrante da Colônia Pan-Africana
quinta-feira, 19 de novembro de 2020
por Eliana Santos*, especial para A VOZ DA SERRA
A professora Eliane Santos
A professora Eliane Santos

“Quero começar a minha fala respondendo a uma pergunta que muitas pessoas fazem neste dia. ‘Por que dia da Consciência Negra?’. Então, sempre respondo assim: ‘Pensem em 300 anos de escravidão, açoites, fome, falta de dignidade e direitos, entre tantos fatores, e depois pensem mais 300 anos de lutas para chegar a algumas conquistas e não a benefícios como falam’. 

Conquistas essas que ainda estão muito aquém do que queremos e merecemos, pois saímos de Mãe África, reis, rainhas, profissionais especializados e chegamos ao Brasil acorrentados. E hoje, apesar de todo o sacrifício de Zumbi, João Cândido, Dandara, Acotirene, Luiza Maim, Abdias do  Nascimento, Conceição Evaristo, entre outros(as), ainda somos nós que estamos na base das pirâmides. 

Não entendam esta fala como lamento, reclamação ou que nos vemos como coitados, isto é apenas constatação dos fatos. O que queremos, na verdade, é equidade, respeito e direitos garantidos, ações de políticas públicas afirmativas e cumprimentos das legislações. 

Não queremos e nem precisamos de caridade, mas sim o reconhecimento de nossa capacidade. Pois a igualdade não existe, a equidade está longe e os direitos não são os mesmos. 

Gostaríamos de poder contar uma história bonita e feliz em 20 de Novembro, porém ainda não... Temos sim momentos felizes com os quais contornamos as coisas ruins. Nova Friburgo foi a primeira cidade no Brasil a hastear a bandeira Pan-Africana, porém não conseguimos nos fazer entender da importância do Sistema PIR aqui, um órgão público com a obrigação de instituir a Promoção da Igualdade e Equidade Racial em seus diversos modelos e opções. 

As ações das politicas públicas voltadas para a população negra e afrodescendentes precisam sair do papel. E apesar de todas as adversidades, estamos aqui para, mais uma vez aproveitar o 20 de Novembro — Dia Nacional de Consciência Negra — para refletirmos o quanto é importante esta data e o quão necessário ela ainda se faz, uma vez que o momento é de intolerância religiosa e racismo estrutural e institucional, para todos os lados. 

Para terminar quero dizer uma frase muito própria a nossa realidade: ‘Nós, negros, não somos colonizadores, somos colonizados, mas com certeza somos nós, os negros, os construtores da cidade’”. 

Em tempo: “Aproveito a ocasião para parabenizar a Maiara Felício que assumirá em 1º de Janeiro de 2021 uma cadeira como a vereadora mais votada em Nova Friburgo nas eleições de 2020 e a 1ª mulher negra a assumir esta posição, após 202 anos da criação do município. Espero que ela consiga manter o seu trabalho em prol das Políticas Afirmativas para Pretos e Pretas e toda a comunidade friburguense, haja vista que será uma representante da população. Penso que com a vitória da Maiara, a história dos pretos em Nova Friburgo comece a ser reescrita.” 

A dúpé (obrigada) 

* Professora Eliane Santos, Mulher Negra e Umbandista, inetrante da Colônia Pan-Africana

 

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