Em todo o mundo as pessoas sentem-se sós, desligadas e alienadas

A crescente dificuldade em estabelecer conexões humanas genuínas, mesmo em um mundo hiperconectado
sexta-feira, 28 de novembro de 2025
por Ana Borges
Em todo o mundo as pessoas sentem-se sós, desligadas e alienadas

Característica definidora do século 21, três em cada cinco adultos dos EUA, antes mesmo da pandemia se consideravam pessoas sós e mais do que um em cada cinco millennials afirmava não ter qualquer amigo. Na Alemanha, dois terços da população achava que a solidão era um problema grave; quase um terço dos holandeses e um quarto da população sueca admitia sentir-se só; e no Reino Unido o problema era tão grave que em 2018 o primeiro-ministro criou uma nova pasta executiva: o Ministério da Solidão. 

Os dados referentes à Ásia, Austrália, América do Sul e África eram igualmente perturbadores: novos e velhos, homens e mulheres, solteiros e casados, ricos e pobres. Em todo o mundo as pessoas sentem-se sós, desligadas e alienadas. Estamos em plena crise global de solidão.

No livro “O Século da Solidão”, a acadêmica inglesa Noreena Hertz, considerada uma “das principais pensadoras globais” pelo The Observer, faz um retrato desassombrado mas otimista do mundo solitário que construímos e mostra como a covid-19 acelerou o problema da solidão e o que é preciso fazer para nos religarmos. Nunca como agora a solidão foi tão generalizada, mas também nunca dispusemos de tantos meios para lidar com ela. 

Com base em anos de pesquisa, vários estudos, entrevistas e exemplos concretos, a autora explora como a nossa crescente dependência da tecnologia, o desmantelamento das instituições cívicas, a reorganização radical dos espaços de trabalho, a migração maciça para as cidades, e décadas de políticas neoliberais, que puseram o interesse próprio acima do bem coletivo, nos tornaram mais isolados do que nunca.

“Antes de o coronavírus atacar, já estávamos vivendo o século da solidão. Contudo, o vírus veio expor de maneira ainda mais incisiva o modo como tantos de nós se sentem negligenciados, não só pelos amigos e a família, mas também pelos empregadores e pelo Estado; como tantos de nós se sente desligado, não apenas daqueles com quem temos uma relação mais íntima, mas também dos nossos vizinhos, dos nossos colegas de trabalho e dos nossos líderes políticos”, destaca a escritora.

Um simples gesto

Pesquisa recente realizada no Reino Unido, entre a marca McVitie’s, a instituição de caridade Mind e o produtor de documentários A Mug of Life — que  visa destacar as lutas da sociedade contra a solidão e incentivar conversas reais,  revelou que 37% da Geração Z se sente frequentemente solitária, um número significativamente maior em comparação com outras gerações. 

Mas o que está por trás desse paradoxo de estar mais conectado digitalmente e, ao mesmo tempo, mais isolado emocionalmente?

O estudo, realizado com dois mil adultos, mostrou que, embora a maioria das pessoas passe em média cinco horas e meia por dia em frente às telas, 22% dos entrevistados admitiram não saber como iniciar uma conversa com um estranho. Além disso, 45% acreditam que interagem mais digitalmente do que pessoalmente. Esses dados apontam para uma crescente dificuldade em estabelecer conexões humanas genuínas, mesmo em um mundo hiperconectado.

Criador de conteúdo com quase um milhão de seguidores no Instagram e TikTok, Will Shears tem buscado reverter essa tendência. Ele realiza um projeto simples, mas poderoso, em Londres: oferecer chá e biscoitos para estranhos em bancos públicos, promovendo conversas espontâneas. 

"Em um mundo digital, onde podemos passar um tempo em frente às telas para nos conectar com outras pessoas, é importante lembrar que também podemos ter conexões significativas longe da tecnologia", disse Shears, em entrevista para a jornalista Cecília Malan, da GloboNews. Para ele, uma xícara de chá e uma conversa agradável podem ter um impacto extremamente positivo no dia de uma pessoa. 

Especialistas apontam que a solidão não é apenas um sentimento passageiro, mas pode ter sérias consequências para a saúde mental. “Embora a solidão em si não seja um problema de saúde mental, ela pode aumentar o estresse e está associada a um risco maior de certos problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade. Conversar pode não ser a solução completa, mas pode ajudar a nos sentir menos sozinhos e mais capazes de lidar com a situação”, sugerem.

Portanto, lembre, da próxima vez que você preparar um chá, ou um café, no caso do Brasil, talvez seja uma boa oportunidade para convidar alguém para bater um papo. Às vezes, um simples gesto pode fazer muita diferença.

 

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