Chalet do Country: 160 anos depois, a redescoberta de um bem precioso

sábado, 12 de dezembro de 2020
por Vanessa Melnixenco e Luís Fernando Folly* (especial para A VOZ DA SERRA)

Há 160 anos — 23 de novembro de 1860 — a história de um sonho começava a ser escrita, com o lançamento da pedra fundamental do futuro chalé do barão de Nova Friburgo. O primeiro bloco foi assentado pelas mãos do próprio imperador, D. Pedro II, como consta na trolha (colher pequena usada por pedreiros) utilizada na cerimônia. De origem maçônica, o rito era geralmente realizado em construções públicas, e impressiona por conter a inscrição de que ela foi oferecida a D. Pedro II.

Essa peça é um dos mais novos objetos a entrar para o acervo do clube, que também passa a contar com a medalha recebida pelo arquiteto Gustave Waehneldt pelo projeto do chalet, na Exposição Geral de Belas Artes de 1862. A medalha foi produzida na Casa da Moeda e na parte frontal está a efígie de D. Pedro II em relevo. 

A insígnia faz parte do conjunto de prêmios que Waehneldt recebeu por diversos projetos, incluindo o Palácio do Gavião (Cantagalo) e o Palácio Nova Friburgo (atual Museu da República, no Catete/Rio). Até então, sabíamos apenas da existência da medalha que está exposta no Rio de Janeiro. A descoberta desta premiação nos deslumbrou. As peças foram doadas por beneméritos e farão parte da exposição permanente do chalet.

O que as paredes  do chalet revelam

O chalet foi construído com paredes de taipa de mão (pau a pique ou sapê), técnica que utiliza ripas de madeira fixadas com argamassa de barro, água e fibras vegetais. Apesar de extremamente sólida, a taipa é vulnerável à água, e foram justamente infiltrações que causaram sérios danos na estrutura. Dessa forma, os restauradores reconstruíram o madeiramento de taipa nas áreas afetadas, fazendo uso das técnicas originais. 

A taipa de mão não é aparente, pois as paredes são embolsadas. Sobre esta cobertura de cal foram feitas as pinturas decorativas, também realizadas no Palácio Nova Friburgo. Ao todo são 12 motivos que reúnem mais de 75 espécies da flora existente nos jardim da Chácara do Barão. 

Essas pinturas se encontravam bem conservadas, salvo uma das faixas que sofreu com infiltração. A policromia estava se desprendendo da parede. Para salvá-la, os restauradores a fixaram com cola orgânica (melhor resistência e menor agressividade). Com as pinturas fora de perigo, passou-se para a etapa da limpeza. Sem os resíduos, a pintura revelou a sua cor primitiva, muito mais sóbria e delicada. Por fim, os retoques foram feitos pontualmente, de forma a interferir o menos possível no desenho original.

O teto, por sua vez, é de estuque, uma técnica muito parecida com a taipa, porém mais leve: é constituído por fasquias de madeira com argamassa de pó de mármore, areia fina e aglomerante. Como no caso das paredes, o forro também tem o revestimento todo decorado por pinturas. 

Redescobrindo a obra original

O rosa era cor muito comum no século 19, e as tintas eram feitas a partir de corantes naturais, retirados de plantas, minerais e insetos. Como a parte externa exigia uma grande quantidade, não havia muitas opções disponíveis, sendo as mais comuns as cores amarelo (açafrão) e rosa (ipê ou cochonilha).

Descobrimos que a aparente boa conservação das decorações do forro foi, na verdade, fruto de repinturas. Tal serviço foi executado com falhas e sem respeito aos tons primários, que descaracterizaram a aparência original. Após a retirada da tintura inadequada, os traços ficaram, em alguns pontos, bem apagados, tornando mais minucioso o trabalho de retoque das pinturas.

O forro da sala também é ricamente decorado com ornatos de gesso. Há uma variedade de modelos, como folhas de acanto, gavinhas, flores, figuras aladas. A cornija que circunda todo o teto possui emblemas de instrumentos musicais como lira, partituras, pandeiro, corneta, flauta e triângulo —  é a Sala de Música. 

Portas abertas ao público

Durante o trabalho com as janelas, tivemos algumas surpresas. Os frisos das esquadrias, por exemplo, eram originalmente banhados a ouro. O douramento ficou escondido por camadas de tintas posteriores. Constatou-se também que as ferragens das janelas foram fabricadas pela empresa francesa Camion Frères, cuja marca está gravada em uma das extremidades do metal dos prendedores de janela. Fundada em 1820, a Camion Frères dominou o mercado de quinquilharias em ferro durante mais 150 anos. 

A fim de possibilitar a todos a oportunidade de conhecer o trabalho de restauro e acompanhar o desenvolvimento da obra, o clube tomou a iniciativa de abrir a casa. Em novembro de 2019, o chalet teve suas portas novamente abertas ao público, após 10 anos. Durante dois fins de semana do mês, a casa recebeu sócios e turistas para visitas guiadas. Infelizmente, com a eclosão da pandemia da covid-19 e a necessidade do isolamento social, a ação foi interrompida.

A essência do Country Clube

Durante os quatro meses em que o Country Clube foi mantido fechado ao público, as obras prosseguiram. A partir de agosto de 2020, quando se iniciou a reabertura, sócios e visitantes voltaram e se emocionaram no reencontro com o jardim, mas, o que mais chamou a atenção foi o chalet. O antigo bege da fachada dera lugar a um tom de rosa.

Através de uma janela de prospecção, confirmamos a suspeita de que o exterior da casa era rosa. Essas “janelas” são aberturas feitas para investigar o que existe debaixo da camada de tinta visível: delimita-se o trecho e o tamanho da janela; em seguida, aplica-se o algodão embebido em solvente sobre a superfície escolhida – para retirar a tinta mais recente –; e, depois, utiliza-se o bisturi para remover as camadas das tintas mais antigas. 

O rosa era uma cor muito comum ao tempo de sua construção, quando as tintas eram feitas a partir de corantes naturais — plantas, minerais e insetos. Como a parte externa exigia uma grande quantidade, não havia muitas opções disponíveis, sendo as mais comuns as cores amarelo (açafrão) e rosa (ipê ou cochonilha). 

Quem vê “tudo cor-de-rosa” agora, talvez não imagine os muitos percalços que o Country enfrentou para manter vivo esse sonho nascido em 1860. Os últimos dez anos foram, provavelmente, os mais desafiadores, no entanto, eles também despertaram a verdadeira essência do Clube: a união e o companheirismo. 

Em memória dos fundadores

Em 2018, tivemos a campanha Amigos do Chalet, de arrecadação de fundos para a restauração da casa. Mais de 600 pessoas contribuíram para preservar um dos mais importantes patrimônios históricos do Brasil. Com o valor, conseguimos recuperar todo o telhado da casa, passo fundamental para a restauração da parte interna. 

Esta restauração, por sua vez, só foi possível graças ao nobre gesto de apoiadores diretos, como os sócios Antonio Baptista, Braulio Rezende, Evaristo Monteiro, Jane Rezende, João Bartolomeu, João Carlos Thurler, Joilson Wermelinger de Araújo, José Rezende, Junice Rezende, Juvenal Condack e, em especial, Rogério Faria, que se sensibilizaram e assumiram o financiamento da obra, dos materiais aos serviços. Dessa forma, fazem jus não apenas à memória dos fundadores do Clube, mas dão continuidade a um legado centenário tocante a todos os friburguenses. 

O Nova Friburgo Country Clube espera que o trabalho que está sendo desenvolvido mobilize mais altruístas a fazerem parte dessa história. Oxalá esta renovação do sonho seja o prelúdio de uma sociedade que valorize sua cultura. 

Peças e imagens raras

1 - Do latim trulla, colher pequena, a trolha nada mais é do que uma colher de pedreiro. Usava-se uma trolha simbólica no início das obras de edifícios importantes. De origem maçônica, o rito era geralmente realizado em construções públicas, apesar de raro no Brasil. A existência da trolha do Chalet, portanto, já é por si só algo insólito. Além disso, trazer a inscrição de que ela foi oferecida a D. Pedro II, é ainda mais impressionante. (Foto: Salvador Canto Junior | Studio Photograph) 

2 - O Chalet foi construído com paredes de taipa de mão (também conhecida como pau a pique ou sapê), técnica que utiliza ripas de madeira fixadas com argamassa de barro, água e fibras vegetais. Apesar de extremamente sólida, a taipa é vulnerável à água, e foram justamente infiltrações que causaram sérios danos na estrutura. Dessa forma, os restauradores reconstruíram o madeiramento de taipa nas áreas afetadas, fazendo uso das técnicas originais. (Foto: Acervo NFCC)

3 - A taipa de mão não é visível, pois as paredes são embolsadas. Sobre a cobertura de cal foram feitas as pinturas decorativas, pelos artistas Mario Bragaldi e Giovani Tassani. Essas pinturas se encontravam bem conservadas, salvo uma das faixas que sofreu com infiltração. A policromia estava se desprendendo da parede e para salvá-la, os restauradores a fixaram com cola orgânica (mais resistente e menos agressiva). Com as pinturas preservadas, passou-se para a etapa da limpeza que, sem os resíduos, revelou a sua cor primitiva, muito mais sóbria e delicada. Por fim, os retoques foram feitos pontualmente, de forma a interferir o menos possível no desenho original. (Foto: Acervo NFCC)

4 - Durante o trabalho com as janelas, a equipe se deparou com algumas surpresas. Os frisos das esquadrias, por exemplo, eram originalmente banhados a ouro. O douramento ficou escondido embaixo das camadas de tintas posteriores. (Foto: Acervo NFCC)

5 - Através de uma janela de prospecção, confirmou-se a suspeita de que o exterior da casa era rosa. As janelas de prospecção são aberturas feitas para investigar o que existe debaixo da camada de tinta visível. Primeiramente, delimita-se o trecho e o tamanho da janela; em seguida, aplica-se o algodão embebido em algum solvente sobre a superfície escolhida, para retirar a tinta mais recente; depois, utiliza-se o bisturi para remover as camadas das tintas mais antigas. (Foto: Acervo NFCC)

* Vanessa Melnixenco é historiadora do NF Country Clube, e Luís Fernando Folly e curador do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural

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