O Brasil registrou, no primeiro semestre de 2025, a maior marca de transplantes de sua história: foram 14,9 mil procedimentos, segundo dados divulgados, nesta semana, pelo Ministério da Saúde. O número representa um crescimento de 21% em relação a 2022 e consolida o país entre os maiores realizadores de transplantes no mundo.
Apesar do avanço, o Brasil ainda enfrenta um obstáculo decisivo: a recusa familiar. Dados do Ministério da Saúde mostram que 45% das famílias se recusam a autorizar a doação de órgãos de seus entes falecidos, o que limita o potencial do sistema de transplantes, considerado sólido e reconhecido internacionalmente.
O desafio é ainda mais relevante considerando a fila de espera. Atualmente, cerca de 78 mil pessoas aguardam por um transplante no Brasil. Os órgãos mais demandados são rim (42.838 pessoas), córnea (32.349) e fígado (2.387). Embora o país ocupe a terceira posição mundial em número absoluto de transplantes, atrás apenas de Estados Unidos e China, quando comparado por milhão de habitantes, ainda está entre a 20ª e a 30ª posição.
Setembro Verde
Neste sábado, 27, é celebrado o Dia Nacional da Doação de Órgãos, reforçado pela campanha Setembro Verde, que busca estimular o diálogo familiar sobre a importância da doação. No Brasil, a autorização da família é indispensável para que a doação e o transplante aconteçam, mesmo que a pessoa tenha manifestado sua vontade em vida.
Para facilitar o processo e aumentar a taxa de doações, o Ministério da Saúde lançou o Programa Nacional de Qualidade na Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (Prodot). O programa reconhece e valoriza equipes hospitalares envolvidas na identificação de potenciais doadores, na logística e, especialmente, no diálogo com familiares em um dos momentos mais delicados.
“O objetivo é dar segurança às famílias e mostrar que o Sistema Nacional de Transplantes é sólido e reconhecido mundialmente. Queremos que cada profissional que aborda uma família seja também um porta-voz dessa confiança”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Além do Prodot, o Governo Federal criou a Política Nacional de Doação e Transplantes (PNDT), formalizada em portaria específica pela primeira vez desde 1997. O conjunto de medidas prevê R$ 20 milhões em investimentos anuais e inclui a incorporação de novos procedimentos no Sistema Único de Saúde (SUS), como transplante multivisceral e uso de membrana amniótica para tratamento de queimaduras graves. Também foram regulamentados transplantes de intestino delgado, adotado o uso da prova cruzada virtual para maior segurança imunológica e definidos critérios de prioridade para pacientes com maior dificuldade de compatibilidade.
Como ser um doador
No Brasil, não é necessário cadastro oficial para ser doador de órgãos e tecidos. Basta manifestar a vontade em vida e comunicar os familiares sobre essa decisão. Uma conversa aberta garante que a escolha seja respeitada no momento necessário e pode salvar até oito vidas.
A lei federal que regula a doação de órgãos é a 9.434, de 4 de fevereiro de 1997, que proíbe a compra ou venda de órgãos e estabelece normas para remoção, transporte e distribuição de tecidos humanos. Também define quem pode doar e em quais condições. Qualquer pessoa pode ser doadora, desde que tenha condições de saúde adequadas e respeite as regras de compatibilidade e autorização familiar.
A doação pode ocorrer de pessoas vivas ou falecidas. No caso de doadores vivos, apenas órgãos duplos ou que não comprometam a integridade vital podem ser doados, como um rim, parte do fígado, pulmão ou medula óssea. Para doadores falecidos, é imprescindível que haja morte encefálica confirmada por exames médicos, além da autorização da família.
Órgãos como coração, fígado, rins, intestino, pâncreas, córneas, ossos, tendões e pele podem ser aproveitados. Após a doação, o corpo do doador é preparado de forma a não prejudicar o velório, garantindo dignidade e respeito à memória do paciente.
Desafio: sensibilizar famílias
Embora o Brasil seja referência mundial em transplantes realizados integralmente pelo sistema público, o país ainda enfrenta o desafio de convencer famílias sobre a importância da doação. Estudos mostram que apenas 55% das famílias autorizam a doação. Para aumentar esse percentual, especialistas reforçam a necessidade de diálogo familiar, esclarecimento sobre o processo e confiança no Sistema Nacional de Transplantes.
O momento atual, próximo ao Dia Nacional da Doação de Órgãos, é considerado estratégico para conscientização. A expectativa do Ministério da Saúde é que, com programas como o Prodot e a PNDT, aliados à educação e informação, mais famílias possam autorizar a doação, ampliando o número de vidas salvas.
Fonte: Agência Brasil, Agência Gov e Correio Braziliense

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