Solidão: crise global é uma das grandes preocupações de saúde do século 21

Uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão. Entre 17% e 21% dos jovens de 13 a 29 anos se sentem solitários
sexta-feira, 28 de novembro de 2025
por Ana Borges
Foto: Freepik
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A solidão é uma epidemia crescente na maioria dos países desenvolvidos. Os jovens de 16 a 24 anos sentem-se mais solitários do que qualquer outra faixa etária, incluindo pessoas com 65 anos ou mais, segundo estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Estar só pode ser bom ou ruim, depende da frequência e da forma como esse tempo é aproveitado
De fato, 73% da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) relata sentir-se sozinha às vezes ou sempre. É um paradoxo curioso: a Z está hiperconectada no mundo virtual, mas socialmente desconectada. A internet, os celulares e os videogames abriram um multiverso de novas conexões e oportunidades. No entanto, as interações digitais não conseguiram substituir a necessidade de conexão emocional no mundo físico.

Os Millennials (Geração Y, 1981 e 1996), foram a última geração analógica, lembrando-se da vida antes que as tecnologias digitais monopolizassem nosso tempo. O americano médio passará 21 anos, 4 meses e 29 dias online ao longo da vida. Assim como os Baby Boomers (1946-1964) precisam aprender habilidades digitais, em breve as gerações Z e Alfa (nascidas a partir de 2010) terão que aprender habilidades sociais básicas. 

Ao mesmo tempo, muitas das instituições tradicionais que promovem um senso de pertencimento estão em declínio. Diminuiu a frequência à igreja no Ocidente e a maioria dos jovens não têm condições de comprar uma casa ou constituir família. 

Além disso, a ansiedade climática está gerando um estado constante de angústia. A Geração Z está se tornando adulta em uma era de colapso social. A infinidade de opções se transformou em um fardo psicológico. Os jovens estão sobrecarregados de estímulos, mas pouco socializados. 

Como exemplo, o caso dos aplicativos de namoro: o usuário médio desliza o dedo na tela para ver de 50 a 100 perfis por dia, mas se sente menos satisfeito e mais deprimido. A sobrecarga de opções explica por que a turma Z está trocando smartphones por celulares mais simples.

Outra preocupação se chama “bed rotting“, que em tradução livre significa “apodrecer na cama”, uma tendência entre os jovens desta geração. A prática consiste em passar horas deitado, geralmente mexendo no celular, sem fazer nada produtivo. Visto nas redes como uma forma de descanso mental, o hábito pode até ajudar a aliviar o estresse, mas o exagero preocupa especialistas, pois pode indicar fuga da realidade, isolamento e afetar a qualidade do sono. Resumindo, o “bed rotting” reflete o cansaço físico e emocional de uma geração sobrecarregada, benéfico em doses pequenas, mas prejudicial quando vira rotina.

“Ministérios da Solidão”

Um relatório da Comissão sobre Conexão Social da OMS revela que uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão, com impactos significativos na saúde e no bem-estar. Segundo a pesquisa, a solidão está associada a cerca de 100 mortes a cada hora mais de 870 mil mortes todos os anos.    

A organização define conexão social como “maneiras pelas quais as pessoas se relacionam e interagem entre si”. Já a solidão é descrita como “sentimento doloroso que surge da lacuna entre as conexões sociais desejadas e as reais, enquanto o isolamento social se refere à falta objetiva de conexões sociais suficientes e, neste caso, em nada se relaciona à prática preventiva recomendada durante a pandemia da covid-19”.

De acordo com o relatório, a solidão afeta, sobretudo, jovens e pessoas que vivem em países de baixa e média renda. Entre 17% e 21% dos jovens de 13 a 29 anos relataram se sentir solitários, com as taxas mais altas entre adolescentes. O índice chega a 24% entre pessoas de países de baixa renda — mais que o dobro da taxa registrada em países de alta renda (11%).

Apenas oito países têm políticas de combate à solidão, entre 194 países membros da OMS, todos de alta renda: Estados Unidos, Reino Unido, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Alemanha, Holanda e Japão. A Coreia do Sul, por iniciativa da prefeitura da capital, lançou recentemente o programa “Seul — Chega de Solidão”, para combater o isolamento da população, alcançando altos índices de aprovação. 

Mas essa é apenas uma entre diversas iniciativas relacionadas ao assunto que foram anunciadas nos últimos anos. Os governos de Reino Unido e Japão, por exemplo, criaram “ministérios da solidão” em 2018 e 2021, respectivamente. O Ministério da Saúde do Brasil não dispõe de dados sobre o problema da solidão no país.

A revista The Lancet, um dos periódicos científicos mais respeitados do mundo, anunciou em julho a criação de um comitê para estudar a solidão e o isolamento social. Num editorial sobre o tema, os responsáveis pela publicação inglesa destacaram como esse incômodo ganhou protagonismo nos últimos anos — e se mostra cada vez mais como um fator negativo para a saúde do corpo e da mente.

“Conexões sociais empobrecidas são associadas a um risco aumentado de doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, infecções, declínio cognitivo, depressão e ansiedade”, listam os autores.

A ideia do comitê, que deve começar a se debruçar sobre o tema em breve, está justamente em definir o que é a solidão, como ela pode ser identificada e quais são as principais formas de combatê-la, segundo as melhores evidências científicas disponíveis.
 

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