Fadiga do século 21 é mental, emocional e física; dormir não basta para recuperar

A fadiga moderna nem sempre é física ou hormonal. É um estado cognitivo de sobrecarga constante devido à falta de pausas deliberadas
sexta-feira, 29 de agosto de 2025
por Jornal A Voz da Serra
(Foto: Freepik)
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Em um mundo que recompensa a hiperprodutividade e penaliza a pausa, a fadiga deixou de ser uma exceção e se tornou uma constante silenciosa. Estudos globais e opiniões de especialistas alertam que dormir não é mais suficiente: a fadiga do século 21 é cognitiva, emocional e estrutural. Aprender a descansar torna-se um ato de resistência e um caminho para uma vida mais consciente.

Esgota mentalmente viver numa cultura que cobra resultados 24h por dia
Aquele cansaço que parecia ser exclusividade de novos pais ou estudantes durante a época de provas agora se tornou mais democrático. Um estudo recente sobre hábitos de bem-estar, realizado pela consultoria internacional Ipsos e pelo Global Institute for Wellbeing, revelou que mais de 62% das pessoas relatam sentir-se física ou mentalmente exaustas pelo menos três vezes por semana.

Outro estudo, conduzido pelo Observatório de Tendências Sociais e Empresariais da Universidade Siglo 21, identificou que 47% dos trabalhadores argentinos descreveram seu nível de energia como "baixo ou muito baixo" nos últimos meses. E, entre os adolescentes, os dados mais recentes do Unicef em conjunto com o Instituto Gino Germani indicam que quase 7 em cada 10 se sentem cansados mesmo depois de dormir mais de sete horas.

A sensação de fadiga não distingue mais idades ou estilos de vida: tornou-se um pano de fundo compartilhado. É expressa por crianças de 8 anos, adolescentes superestimulados, jovens adultos que não conseguem se concentrar e avós que sentem que nunca se desligam. Essa exaustão generalizada é real ou é uma percepção alimentada pela vertigem da vida moderna?

Para Adriana Martínez, psicóloga da Fundação Aiglé, não há uma causa única: "Vivemos em uma sociedade que exige que estejamos disponíveis, atualizados, produtivos e emocionalmente estáveis o tempo todo. A linha entre trabalho e descanso se tornou tênue." 

Essa linha nos acompanha desde o momento em que abrimos os olhos até fechá-los novamente, conectados a telas, alertas, conversas, reuniões e demandas. Dormimos menos, descansamos pior, vivemos em estado de alerta. E o corpo, inevitavelmente, se esgota. “Ouça o que seu corpo e sua mente precisam. A fadiga é um sinal, não um fracasso", acrescenta Adriana Martínez.

Perfeição como padrão

Do ponto de vista médico, Conrado Estol, neurologista especializado em prevenção vascular, coloca claramente: “Nossos avós terminavam o dia com o corpo exausto. Nós, hoje, com a mente exausta.” A sobrecarga não é mais física, mas cognitiva. Trabalhamos sentados, imóveis, mas determinados a lembrar senhas, gerenciar conexões, comparar decisões e resolver problemas. E tudo isso acontece com a atenção fragmentada pela multitarefa. “Nós nos esgotamos sem alcançar a sensação de realização”, aponta Estol.

E como se não bastasse, também convivemos com uma cultura de exigência constante que impõe a perfeição como padrão e a auto-importância como virtude. Estudos confirmam isso. Da Universidade da Califórnia, o neurobiólogo Matthew Walker demonstrou que o sono inadequado desconecta o córtex pré-frontal do sistema límbico, prejudicando a capacidade de regular as emoções.

"O sono deve ser considerado um pilar da saúde, assim como a nutrição e o exercício", insiste Walker. Dormir mal não causa apenas fadiga física. Também nos torna mais reativos, mais ansiosos, mais propensos ao mau-humor e a conflitos interpessoais.

Descanso cerebral

Satchin Panda, pesquisador do Instituto Salk, explica que a qualidade do descanso também depende de sua sincronização com os ritmos circadianos: "A maioria das pessoas não dorme mais quando seu corpo precisa, mas quando pode. Essa desconexão é compensada pela fadiga crônica." 

Sua pesquisa mostrou que mesmo quem dorme oito horas pode se sentir exausto se o sono estiver desalinhado com o relógio biológico. Essa desconexão é frequentemente motivada por rotinas de trabalho impostas e pela hiperconectividade que perturba a percepção do tempo.

Essa dessincronização também impacta as crianças. A psicóloga Lucía Argibay Molina descreve uma cena recorrente em seu consultório: “As crianças frequentam horários escolares estendidos, vão dormir tarde, dormem com a TV ou o celular ligados. Elas ficam apáticas, irritáveis, brigam com os colegas e dormem na aula.” 

A sobrecarga de atividades, a falta de rotinas claras e a insônia tecnológica fazem com que até mesmo as crianças sintam fadiga. Jonathan Haidt, em seu livro The Anxious Generation, alerta que os smartphones intensificaram as dificuldades noturnas para dormir: “O sono é vital para um bom desempenho na escola e na vida. Elas se tornam mais irritáveis e ansiosas, o que prejudica seus relacionamentos.”

A ciência começa a delinear novos parâmetros em relação ao descanso. Não basta mais simplesmente medir quantas horas dormimos. "A duração do sono não é mais o único indicador relevante. Hoje, priorizamos regularidade, continuidade e sincronização com os ritmos circadianos", explica Walker. Till Roenneberg, cronobiólogo da Universidade de Munique, reforça essa ideia: 

"O sono socialmente imposto é uma forma de violência biológica cotidiana que não percebemos porque é normalizada." Esse jetlag social [conjunto de sintomas], como Roenneberg o chama, gera desconforto mesmo entre aqueles que acreditam ter descansado o suficiente.

No entanto, muitos relatam sentir-se exaustos mesmo depois de dormir o suficiente. O que está acontecendo? O neurocientista Andrew Huberman, de Stanford, oferece uma pista: "A fadiga moderna nem sempre é física ou hormonal. É um estado cognitivo de sobrecarga constante devido à falta de pausas deliberadas." 

Sua equipe descobriu que estados de repouso fora do sono (momentos sem estímulos visuais ou tarefas) melhoram a plasticidade cerebral. "O descanso cerebral requer espaços de baixa demanda sensorial", enfatiza. Sem esses momentos de vazio mental, sem recesso, o cérebro entra em colapso, mesmo que o corpo esteja parado.

Sara Mednick, especialista em sono da Universidade da Califórnia, fala sobre "micropausas estratégicas" e afirma que cochilos curtos, mesmo de dez minutos, produzem benefícios imediatos na atenção sustentada e no controle emocional. Para ela, "o burnout não é mais exclusivo do trabalho: ele surge da pressão constante de ter que funcionar e ter um bom desempenho o tempo todo". 

Por isso, ela propõe incorporar pequenas pausas conscientes como parte da higiene mental. Não se trata de dormir mais, mas sim de descansar melhor.

Contra a exaustão
  • Tente manter uma rotina de sono consistente, mesmo nos fins de semana. A regularidade é tão importante quanto o número de horas que você dorme.
  • Ajuste sua rotina de sono ao seu cronótipo. Dormir contra o seu ritmo biológico é mais desgastante do que dormir pouco. 
  • Encontre momentos de descanso sem estímulos visuais, mesmo que não durma. Descansar sem telas também é restaurador. 
  • Incorpore cochilos curtos de 10 a 20 minutos. Eles funcionam como uma redefinição mental sem exigir sono profundo.
  • Evite multitarefa: fazer muitas tarefas ao mesmo tempo diminui a eficácia e drena sua capacidade de atenção. 
  • Não preencha todos os espaços vazios do dia. O tédio também tem valor regenerativo.
  • Cuide da sua alimentação. Um intestino inflamado pode causar fadiga persistente que não se resolve com sono.
  • Limite o tempo de tela pelo menos uma hora antes de dormir. A luz azul retarda a produção de melatonina.
  • Lembre-se: descansar é um ato de saúde, não de preguiça. Pausar também é produtivo.

 

(Fonte: Flávia Tomaello, do La Nacion)

 

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