“Temos um valor subestimado no município”, diz subsecretária de Vigilância em Saúde

Em entrevista exclusiva, Fabíola Penna confirma que há subnotificação de casos em Friburgo e reforça necessidade de distanciamento social
terça-feira, 19 de maio de 2020
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)

Nova Friburgo tem 121 casos positivos de coronavírus, sendo 46 em profissionais de saúde – com uma morte entre esses profissionais, num total de 12 óbitos pela doença, conforme o mais recente boletim divulgado ontem, 18, pela Prefeitura de Nova Friburgo. A cada boletim o número de infectados aumenta e a circulação do vírus é evidente.

A orientação do Ministério da Saúde é de só testar os pacientes que apresentem sintomas mais graves da doença devido a falta de testes em massa. Diante dessa determinação, muitas pessoas que tiveram contato com o vírus, mas apresentaram sintomas leves ou não apresentaram sintomas acabaram não realizando o teste e tirando a dúvida se de fato contraíram a doença, assim como muitas pessoas que morreram e não puderam ser testadas. É a subnotificação.

Para falar sobre esse tema, A VOZ DA SERRA entrevistou a subsecretária de Vigilância em Saúde, Fabíola Penna.

A VOZ DA SERRA: Há um grau elevado de subnotificação na cidade?

Fabíola Penna: Esse é um problema antigo no país e como o coronavírus é uma doença nova, nos pegou de surpresa. O Brasil estabeleceu um critério de baixa testagem, não foi ofertado um número de testes suficientes para toda a população. Foram criados critérios, como por exemplo o material que nós encaminhamos para o Lacen-RJ, só para pacientes internados – aqueles que agravam – e profissionais de saúde com síndrome gripal. Chegaram agora na última semana os kits de testes rápidos que também são inespecíficos porque não dá a informação se a pessoa está com a doença naquele momento ou se é uma memória imunológica de contato anterior, mas que já vale como critério. Ampliou um pouco, mas ainda é insuficiente para testar toda a população. Grande parte da população, entre 70 a 80% da população não desenvolverá sintomas, serão assintomáticos ou sintomáticos leves, que levará também a não saber as ocorrências. A essas pessoas também é orientado que não procurem as unidades hospitalares. Por esses fatores nós temos um valor subestimado da doença no município, assim como no país. É importante que a população continue a seguir as regras de higiene, aqueles que podem evitem circular nas ruas e coletivos porque temos uma grande parcela da população que nem sabe que está carregando o vírus e pode levar um dano maior com alguém que já tem uma saúde mais prejudicada.

Os testes estão sendo feitos prioritariamente nos profissionais de saúde e em pessoas que apresentam sintomas mais graves. A subnotificação passa muito pelo caso de pessoas que apresentam sintomas leves e não são testadas, correto?

Exatamente. Aos pacientes que não são profissionais de saúde, mas que tem a síndrome gripal, existe o sistema SUS-VE (Sistema Único de Saúde de Vigilância Epidemiológica) no qual lançamos essas informações quando chegam, mas esses casos não serão testados. A gente vai fechar o caso ou por critério clínico epidemiológico – pessoas que tiveram contato com alguém confirmado (com Covid-19) por laboratório, que residem ou que trabalham muito próximo e estão desenvolvendo os mesmo sintomas – ou esse caso vai ficar sem o fechamento por falta de critério – se a gente não tem um critério, uma história de proximidade com a doença a gente fica sem condições de fechamento.

Na última semana o Estado lançou um site para acompanhar o grau de subnotificação. A prefeitura pensa em fazer algo semelhante?

Sim, nós temos acompanhados essas informações. Essa semana vai acontecer uma reunião do Grupo de Trabalho Regional de Vigilância em Saúde, temos estabelecido uma parceria com a Vigilância Epidemiológica com a Secretaria de Ciência e Tecnologia para ampliar a capacidade de informatização e acesso das informações em tempo real das unidades de saúde pública e privada. Temos feitos reuniões com os hospitais para que sejamos parceiros e termos uma noção real da situação no município.

No último fim de semana o prefeito Renato Bravo prorrogou o prazo mantendo medidas restritivas. Os boletins mostram que os números de casos confirmados estão crescendo. A posição do município é manter as restrições de circulação de pessoas?

Sim. O Comitê Operativo de Emergência em Saúde (COE) se reúne todos os dias, incluindo fins de semana. Temos feito reuniões com empresários, trabalhadores, sindicatos de trabalhadores patronais, conselhos de categorias de profissionais de saúde para que possamos ter uma fala igual, junto com o Ministério Público e a Defensoria Pública. Nós temos uma curva bastante ascendente, o que nos preocupa, em função da restrição do número de leitos que nós temos – tanto da rede pública quanto particular –, os hospitais têm feito o possível para ampliar esse número, mas percebemos que está sendo insuficiente. É esperado que em meados de maio tenhamos o pico da doença, estamos nos aproximando de uma estação que é perigosa por morarmos em uma região muito fria. Entendemos e é muito dramático o olhar do lado econômico, essa doença vai deixar danos na economia. Há uma fala dissonante entre os governos, o que prejudica o município, que leva uma dificuldade de ação, porque não sabemos qual será a retaguarda que teremos das esferas do governo para erguer o município, mas temos repetido a fala de que o que vale mais é salvar vidas. E nesse momento, por ser uma doença com alto grau de transmissão, precisamos lançar mão do isolamento. Pedimos que as pessoas não tentem burlar o decreto. Primeiro porque corre o risco de sanções – estamos com uma Força Tarefa instaurada – com ações mais punitivas.

Você mencionou que a expectativa é de que esta semana seja crítica para o aumento da curva de casos. Toda semana há essa previsão e as pessoas inclusive repetem essa informação com certo desdém. O fato de que essa perspectiva tem sofrido alteração comprova a eficácia do isolamento social?

O objetivo dessas medidas restritivas é de que o sistema de saúde tenha condição, uma vez que os próprios profissionais estão sendo acometidos pela doença, de dar suporte a todos aqueles que precisarem dos hospitais. Prolongar essas medidas de isolamento faz com que isso seja possível. Se esse pico da doença vier de uma vez só, o número de óbitos vai ser muito superior. Não se pode falar que o município tem só 12 óbitos, porque isso já é muito. Ainda não temos uma vacina, um tratamento específico, a única forma de combate é o isolamento, mesmo com todo o dano psicológico e financeiro.

O município vai entrar na última etapa da campanha de vacinação contra o vírus Influenza, qual será a estratégia da prefeitura para o público alvo dessa etapa?

Para essa última etapa são pessoas de 55 a 59 anos, profissionais da educação que no caso são só os professores. Como a campanha foi antecipada, o Ministério da Saúde tem enviado as doses de forma fracionada. Estabelecemos como uma ação do município não deixar que a população chegue ao posto de saúde sem que seja dia de vacina. Estamos anunciando com muita antecedência. Também não adianta chegar muito tempo antes do horário de início porque a vacinação só começará às 9h. Estamos quase atingindo a cobertura que nós estabelecemos. Já ultrapassamos os 100% de cobertura em idosos e trabalhadores de saúde.

 

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