“O povo tem voz e agora está no poder”, diz Maiara Felício, a vereadora mais votada

Para quem acompanha ativista, sua elegibilidade era só uma questão de tempo: aos 26 anos, ela faz história em Friburgo
terça-feira, 17 de novembro de 2020
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)
Maiara Felício:
Maiara Felício: "Friburgo nunca ter tido uma mulher preta como vereadora eleita de fato, em 200 anos de história, não há palavras para definir" (Arquivo pessoal)

A famosa bolha causada pelas redes sociais talvez tenha levado à falsa impressão de uma surpresa na eleição para vereança em Nova Friburgo, quando 1.870 pessoas elegeram a primeira mulher negra para a Câmara dos Vereadores. A eleição de Maiara Felício (PT) não é surpresa para aqueles que acompanham o cenário político friburguense e acompanharam o desenrolar das eleições municipais. De fato, o pleito eleitoral deste ano foi diferente. As campanhas nas redes sociais se intensificaram e tiveram como diferencial o corpo a corpo, algo tão comum na história do processo democrático.

Quem acompanhou Maiara durante a campanha sabia que era uma questão de tempo sua elegibilidade. Mulher, negra, de periferia, militante, modelo, digital influencer. Com 26 anos, ela foi a primeira mulher a ter a mais alta votação em uma eleição friburguense. Durante toda sua campanha foi a lugares em que ninguém havia visitado, ganhou a confiança da população de comunidades e trouxe consigo um trabalho social de força, a frente do movimento Império das Negas. Nesta entrevista conheça a vereadora com maior votação neste pleito.

AVS: A ficha já caiu?

Maiara Felício: Ainda não. Foi muito trabalho e preparo para chegar à campanha e para que tivéssemos muito mais acertos do que erros. Estou me preparando para muito trabalho, vai ser muita coisa. Ainda não tenho noção do feito.

Qual foi sua maior dificuldade durante essas eleições?

A parte financeira. Demoramos um tempo para ter resoluções partidárias e como concorri pela primeira vez, em muitas coisas não tinha expertise. O partido viu muito potencial na candidatura e ajudou. A ajuda demorou e eu estava preocupada. Como trabalho com rede social, diante de um cenário de pandemia, tive facilidade para o engajamento e produção de conteúdo, tudo foi voltado para o debate com a sociedade e consegui alcançar muita gente.

O que você considera como ponto alto da sua luta durante a campanha?

Uma coisa é fazer campanha na internet e outra é ir para rua. Quando fui para rua me surpreendi com a receptividade. Meu interesse era fazer um trabalho de rua na mesma intensidade que o trabalho na internet. Teve vez em que as pessoas passavam de carro gritando meu nome em lugares que não ando muito. Receber de outros candidatos os cumprimentos de que a minha candidatura tinha potencial, também foi um dos pontos altos. A nossa maior alegria foi ver que as pessoas estavam muito interessadas na candidatura. O mais marcante foi quando eu estava preocupada, ao colocar uma enquete no Instagram e as pessoas erraram o meu número. No dia seguinte, subi o Rui Sanglard e passou um motorista de Uber gritando o número, não o meu nome. Ali eu fiquei despreocupada. Importante ressaltar que quando eu falo “nós” é porque a campanha não é só minha, não consegui nada sozinha, teve ajuda de muita gente.

Como você acompanhou o resultado da apuração e como foi o momento da constatação de mulher eleita?

Eu estava tão nervosa que queria entrar em uma caverna e esperar passar. A intenção era dormir, por conta do cansaço, mas quando chegou a hora, não aguentei e tive que inventar algo para fazer. Meu pai e minha mãe são hipertensos e eu não poderia acompanhar a apuração ao lado deles. Eu reuni a equipe e aguardei o resultado na casa de um deles. Demorou para bater o martelo e ter a certeza de que estava eleita. Quando abriu a primeira parcial e vi que estávamos em primeiro, foi uma loucura e não acreditávamos. Achei que teria uma votação perto dos 400 votos. A cada parcial liberada que vi a votação subindo a gente não acreditava. Foi quando cheguei a 1.800 votos que nós respiramos, fizemos as contas e comemoramos. Foi lindo demais.

Você tem noção da importância da sua representatividade e da expressiva votação que recebeu?

Eu estou muito honrada. Friburgo nunca ter tido uma mulher preta como vereadora, eleita de fato, em 200 anos de história é algo que não há palavras para definir. Como isso aconteceu por tanto tempo e ainda assim ser a única mulher preta. Temos que refletir muito essa realidade porque nós elegemos apenas três mulheres e isso é preocupante. Foi uma honra ser a mais votada. Eu ainda não estou acreditando. Tenho noção da importância, sim, de ser eleita. Estar nesse lugar me traz muita responsabilidade. São muitos jovens, muitas meninas e até mesmo as pessoas mais velhas, é importante trazer isso pra gente e como é significativo.

O que essa votação representa para você?

É o desejo de algo diferente, de alguém que acolha de fato todas as bandeiras, de alguém que não tenha medo de falar, ser simples, ser a cara da pessoas da cidade. Temos um estereótipo muito marcado dentro da prefeitura. Acho que a população quer a tão falada renovação. Elas querem se ver ali.

Em 2021, qual será a sua primeira ação como vereadora eleita?

Colocar em prática as nossas propostas de campanha, começar a estudar todas as normas da Câmara, adaptar o trabalho e honrar com as pessoas que votaram em mim e com a população friburguense. Importante falar que na campanha conseguimos expor quatro propostas, mas temos 13 propostas para o mandato. Temos que entender o cenário e como se trabalha para colocar em prática. Sempre trabalhei no Império das Negas sem recurso, só com doações e voluntariado. Agora tenho recursos para colocar em prática meu projeto.

Que mensagem a sua eleição passa para a sociedade friburguense?

O povo tem voz e agora o povo está no poder. Temos uma representação do povo lá dentro e temos muitos projetos para que essa participação aconteça de verdade dos gabinetes itinerantes, prestação de contas, estruturação das associações de moradores. A mensagem é essa: chegou a vez do povo. O povo é tudo em uma democracia e que seja feita a vontade do povo.

 

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