As mulheres poetas do Brasil

sábado, 14 de março de 2020
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
As mulheres poetas do Brasil

2020 é o ano do centenário de Clarice Lispector e o Caderno Z comemora, assim como celebra a poesia e as/os poetas. Embora não fosse oficial, a data era, e ainda é comemorada em 14 de março, em homenagem a um de nossos maiores poetas, Antônio Frederico de Castro Alves, nascido nesse dia em 1847.  Até houve um projeto de lei para que a data fosse oficializada, mas foi arquivado. 

Mas, em 2015, outro projeto de lei (nº 13.131) foi sancionado pela ex-presidente Dilma Rousseff, criando oficialmente o Dia Nacional da Poesia, mas em 31 de outubro, data do nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade. No entanto, entendemos que uma data não invibializa a outra. Aliás, a rigor, poesia nem precisa de datas comemorativas para ser lembrada, festejada, dita, escrita, falada, lida. Todo dia é dia de poesia. 

De acordo com o dicionário Aurélio, poesia é a “arte de criar imagens, de sugerir emoções por meio de uma linguagem em que se combinam sons, ritmos e significados”, enquanto poema é “obra em verso ou não, em que há poesia”. Contudo, poema ou poesia, para leitores aficionados do gênero, não parece haver diferença.

Cecília Meireles foi uma das mais importantes poetas da literatura brasileira. Principal voz feminina de nossa poesia moderna, produziu vasta obra literária e deixou contribuições no domínio do conto, da crônica, da literatura infantil e do folclore, muito embora tenha ficado mais conhecida por seus versos de inclinação neossimbolista. Ela jamais se filiou a qualquer movimento literário. No entanto, em sua obra é possível perceber grande influência do Simbolismo. Estão lá presentes o vento, a água, o mar, o ar, o tempo, o espaço, a solidão e a música, elementos que conferem à poesia de Cecília Meireles “um caráter fluido e etéreo”.

Já Cora Coralina era uma mulher simples. Não se amarrava — nem a si nem aos seus versos. Sem pensar em métrica, rima ou se preocupar em encaixar sua poesia em modelos pré-existentes, ela escrevia em versos livres, e nunca sobre grandes temas. Eram as miudezas e a simplicidade do dia a dia que enchiam os olhos e as linhas da poeta modernista nascida em Goiás, em 1889. Em tempos de likes e filtros, de desânimo e desesperança, Cora nos ensina, com sua bela obra, três importantes lições para que nossa vida seja mais leve e feliz: gratidão, positividade e fé. 

Estas são apenas duas das nossas mais respeitadas e queridas poetas, entre tantas, algumas poucas, muito poucas retratadas nesta edição, em breves perfis, para que nunca nos esqueçamos delas e de suas obras. Como Clarice Lispector, Hilda Hilst, Adélia Prado... 

  •   Cecília Meireles (1901-1964)

Considerada uma das autoras brasileiras de maior expressividade, com mais de 50 obras publicadas, a carioca Cecília tem fortes influências de caráter intimista. Com referências da psicanálise, voltadas para a temática social, foi em uma visita a Ouro Preto que se viu inspirada para escrever o “Romanceiro da Inconfidência’: um poema que evoca a luta pela liberdade no Brasil do século 18 e incorpora elementos dramáticos, épicos e líricos. Talvez a mais conhecida de suas obras, nela a escritora fundiu história e lenda para falar, em uma narrativa rimada, sobre os acontecimentos da Vila Rica à época da Inconfidência Mineira. Títulos:  Motivo / Ou isto ou aquilo / Despedida / Biografia / Reinvenção / A bailarina.

  • Clarice Lispector (1920-1977)

Nascida na Ucrânia, com apenas 5 anos veio com a família para o Brasil, onde morou em Maceió, Recife e Rio de Janeiro. Clarice foi uma das mais destacadas escritoras da terceira fase do modernismo brasileiro, chamada de "Geração de 45". Cronista, escritora, jornalista, Clarice foi naturalizada brasileira e se declarava pernambucana. Foi e é considerada por muitos uma das maiores escritoras brasileiras. "A Hora da Estrela" foi seu último romance publicado em vida e transformado em filme. Embora sua poesia não utilize a forma em versos, ela também se destacou com seus poemas repletos de lirismo. Títulos: A perfeição / Dá-me tua mão / Sonhe / Sou… / Minha alma tem o peso da luz. 

  • Hilda Hilst (1930-2004)

Considerada uma das maiores escritoras de língua portuguesa do século 20. No entanto, a poeta paulista chegou a anunciar, nos anos 1990, que largaria a literatura séria, pois estava “irritada com o parco alcance de sua escrita”. Mas, não parou. Escolheu criar polêmica com uma famosa tetralogia obscena, que inclui ‘O Caderno Rosa de Lori Lamby (1990)’, uma das suas obras mais conhecidas. Hilda foi poeta, dramaturga e ficcionista. Publicou mais de 40 obras. Títulos: Amavisse / Tenta-me de novo / Dez chamamentos ao amigo / Árias pequenas, Para Bandolim / Porque há desejo em mim / Poemas aos homens do nosso tempo. 

  • Cora Coralina (1889-1985)

Pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto, cujo pai, Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, foi nomeado desembargador por D. Pedro II. Criada às margens do rio Vermelho (GO), em um sobrado da família, aos 15 anos de idade Ana se tornou Cora, derivativo de coração. Coralina veio depois, como uma soma de sonoridade e tradução literária. Poeta e contista de prestígio, Cora se tornou um dos marcos da nossa literatura. Iniciou sua carreira aos 14 anos com o conto Tragédia na Roça, publicado no Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás. Títulos: O cântico da Terra / Mulher da vida / Aninha e suas pedras / Meu destino / Ainda não / Assim eu vejo a vida.

  • Adélia Prado (1935-)

Importante poeta mineira, conhecida na literatura brasileira pelos poemas que valorizam a mulher e falam da fé cristã. Depois de 24 anos trabalhando como professora, a carreira na literatura passou a ser a principal atividade. A escritora teve o apoio de Carlos Drummond de Andrade, que sugeriu a publicação de seus textos. Sob o olhar feminino, os poemas de Adélia Prado utilizam um vocabulário simples para falar de religiosidade, família e cotidiano. Em 9178 recebeu o Prêmio Jabuti por “O Coração Disparado”, na categoria Poesia. Títulos: Dona Doida / Com licença poética / Momento / Fragmento / Um jeito.

Breve história da poesia brasileira

A literatura brasileira é um desdobramento da literatura em língua portuguesa, surgida durante o século 16. Essa história tem início com a chegada do jesuíta José de Anchieta e no decorrer dos séculos, nossa poesia passou por várias escolas, até chegar ao final do século 20, com o pós-modernismo.

Pesquisei e aprendi que nosso estilo pode ser dividido em poesia existencial, lírica e social. “Na poesia existencial, os temas são as grandes experiências da vida, como a angústia, dúvida, solidão, velhice e morte, e destacam-se as obras da segunda geração do Modernismo, a chamada “geração de 1930”, com poetas como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Vinícius de Moraes”.

Já a poesia lírica é “centrada na primeira pessoa do discurso (o ‘eu lírico’) e é marcada pela subjetividade, com a expressão das emoções do sujeito”. E a poesia social tem como temas as questões políticas e sociais, como, por exemplo, “a poesia abolicionista de Castro Alves (no Romantismo) e os poemas de Drummond que foram escritos na época da 2ª Guerra Mundial e publicados em seu livro intitulado “A rosa do povo”, de 1945”.

Entre nossos escritores, vários autores dedicaram-se à poesia, além dos já citados: Mario Quintana, Ana Cristina César, Paulo Leminski, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Affonso Romano de Sant’Anna, Machado de Assis, Manuel Bandeira…. e tantos, tantos outros. 

O espaço aqui é pequeno, restrito, muito aquém do que gostaríamos para falar e publicar as obras primas produzidas pelas nossas poetas. Necessário esclarecer que a prioridade desta edição são as mulheres, apenas porque março ficou marcado como o mês da MULHER.

 

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