A história por trás do “criado-mudo”

Termos com origens da época escravagista ainda são muito utilizados nos dias de hoje
quinta-feira, 19 de novembro de 2020
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)
A história por trás do “criado-mudo”

“Não é necessário um estudo muito aprofundado para perceber que o período escravagista ainda traz marcas profundas para os dias atuais no Brasil. Basta olhar para as estatísticas que a resposta fica escancarada”, diz Luana Negralu, membro da coordenação do Coletivo Negro Lélia Gonzalez.

É importante sempre citar que a escravidão era parte do processo econômico no Brasil, os negros escravizados eram uma “mercadoria” valiosa e não considerados cidadãos de direitos. Com a assinatura da Lei Aurea, o sistema econômico do Brasil ficou fragilizado e o governo brasileiro não sabia o que fazer com uma população majoritariamente negra, sem qualquer plano que a amparasse e a reparasse após quase 400 anos de escravidão.

Após a abolição, à população negra, foi negada o acesso a todo tipo de direito básico (saúde, educação, trabalho, alimentação e moradia). Os reflexos desse abandono social são sentidos até hoje. Pessoas brancas recebem o dobro das pessoas negras; segundo o atlas da violência, o número de feminicídio de mulheres negras subiu consideravelmente quando comparado ao de mulheres brancas; Jovens negros são as maiores vítimas de violência (a cada 100 assassinatos, 71 são negros); os negros são a maioria da população carcerária, apesar das estatísticas mostrarem que não são os que cometem mais crimes, são os que são mais condenados, muitas vezes, injustamente; os negros tem baixíssima representatividade no cinema, na literatura e no parlamento; os negros são a maioria dos desempregados, em situação de rua e vulnerabilidade. “A pobreza e a violência no Brasil tem cor e ela é negra!”, alerta Luana.

Denegrir; mulato; criado mudo, termos com origens da escravidão

A escravidão continua tão enraizada na sociedade brasileira que o uso de algumas expressões e termos oriundos dessa época são usados de forma comum.

“Ainda há o hábito de se utilizar termos racistas que foram, propositalmente, arraigados na nossa sociedade ao longo de quase 400 anos de escravidão. Vivemos em um país que sempre tratou o povo negro como um “produto” passível de desprezo. O uso de termos desse tipo não pode ser considerado uma novidade”, pontuou. “Citando os que mais me incomodam: “mulata”, “serviço de preto”, “denegrir”, “não sou tuas negas” e “mulata tipo exportação”. Além todos os termos que se referem a algo ruim como sendo algo negro como “magia negra”, “a coisa tá preta”, “lista negra” e “ovelha negra”.”, listou Luana.

Explicando o significado dos termos

  • Mulata: tem origem da palavra mula – do idioma espanhol – e significa o cruzamento do cavalo com a jumenta. Tal termo era utilizado para se referir aos filhos das escravas com os senhores.
  • Criado-mudo: aquele móvel baixo que normalmente fica na cabeceira da cama tem esse nome porque, na época da escravidão, os escravos ficavam nesse mesmo lugar segurando as coisas para os “senhores” – sem fazer barulho para não atrapalhar.
  • Denegrir: tornar algo negro é uma expressão utilizada para se referir à uma ofensa ou humilhação a alguém. Portanto, tornar negro seria ofensivo.
  • Meia Tigela: quando os negros que faziam trabalho forçado nas minas de ouro não alcançavam as “metas”, recebiam apenas metade da tigela de comida.
  • Serviço de preto: é utilizado quando algo é mal feito. Associa, mais uma vez, algo que vem do negro como algo ruim.
  • Não sou tuas negas: refere-se à mulher negra como qualquer uma e reflete a forma como a sociedade nos percebe. Tem relação direta com o período escravagista em que a negra era propriedade do homem branco e utilizada apenas para trabalho e satisfazer desejos sexuais.
  • Mulata tipo exportação: é utilizado para se referir a uma negra muito bonita, soando como um elogio, no período escravagista se referia às mulheres negras de pele menos retinta que seriam exportadas para servirem ao mercado sexual.
  • Cor do pecado: Utilizada como elogio, se associa ao imaginário da mulher negra sensualizada. A ideia de pecado também é ainda mais negativa em uma sociedade pautada na religião, como a brasileira.
  • Samba do crioulo doido: a expressão debochada, que significa confusão ou trapalhada, reafirma um estereótipo e a discriminação aos negros.
  • Inveja branca: A ideia do branco como algo positivo é impregnada na expressão que reforça, ao mesmo tempo, a associação entre preto e comportamentos negativos.

“Termos são usados de forma inconsciente, muitas vezes sem querer ofender”

Para Negralu, a forma como esses termos estão enraizados na cultura brasileira revela que, quando usados, em muitos casos não há intenção de conotação pejorativa. “Eu acredito que o uso desses termos, faz parte do inconsciente coletivo, sem a intenção de ofender alguém. Eu também tive que, ao longo da minha história, desconstruir e eliminar do meu vocabulário termos que eu não sabia que ofendia a minha própria imagem. Daí a importância de ser discutida essa questão e trazer a todos a história por trás de cada um desses termos”.

A exemplo do que sugeriu Luana, grande parte da população friburguense desconhece sua própria história e por isso, informações importantes ficaram esquecidas com o tempo. Ao Barão de Nova Friburgo, por exemplo, são rendidas homenagens até hoje. É dele o nome dado ao prédio onde funciona a sede da prefeitura e à principal honraria da cidade, concedida pela Câmara Legislativa: Comenda Barão de Nova Friburgo. O barão se tornou um dos homens mais prósperos no Segundo Reinado com o tráfico de escravos, sendo fornecedor de cativos para as lavouras de café da região. Ele era proprietário de três fazendas em Nova Friburgo: a Fazenda de São Lourenço, a Fazenda do Cônego e a Fazenda Córrego D’Anta.

Enfrentar o bloqueio de se dialogar sobre esses temas é um dos grandes desafios para quebrar esse abismo cultural e social no país. “Acredite você que, em pleno século XXI, falar sobre determinadas questões relacionadas à negritude ainda é visto como um tabu. O papel do Coletivo Negro Lélia Gonzalez de Nova Friburgo passa pela educação da nossa população, trazendo a nossa história, aquela que não foi ensinada na escola. Só (re)conhecendo tudo o que remete à nossa ancestralidade será possível desconstruir, não só termos e expressões racistas, mas tudo o que é reflexo da escravidão negra e o subjugo o qual foi submetido todo o nosso povo durante séculos nesse país”, concluiu.

 

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