Elizabeth Bishop será homenageada na 18ª edição da Flip

sábado, 14 de março de 2020
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
Elizabeth Bishop será homenageada na 18ª edição da Flip

As críticas à escolha da homenageada pela Festa Literária Internacional de Paraty - Flip têm a ver com o posicionamento político e a relação controversa da autora com o Brasil. Embora sua obra não tenha cunho político, em suas cartas Bishop elogiou e apoiou o golpe militar de 1964, além de demonstrar desprezo pela cultura brasileira.

“A notícia da escolha de Elizabeth Bishop como autora homenageada na Flip 2020 é uma pá de cal num ano em que a cultura, a arte, a literatura descem ralo abaixo no Brasil, menosprezadas e desprezadas não só pelo governo, mas pelos brasileiros que o elegeram”, publicou no Facebook a escritora Luciana Hidalgo, sobre a escolha da poeta norte-americana.

“Escritores têm todo direito de expressar livremente o que pensam. No entanto, por que um festival literário da importância da Flip, no Brasil, prestaria tributo a uma autora estrangeira capaz de dizer tantas bobagens elitistas, reacionárias e preconceituosas sobre nós, deixando assim de homenagear autores brasileiros de enorme relevância?”, criticou Hidalgo em um longo texto onde dá exemplos retirados das cartas de Bishop.

Outras vozes

Por outro lado, a poeta Angélica Freitas defendeu: “Amo a Bishop em toda a sua complexidade. Uma mulher desenraizada, lésbica, alcoólatra. Teve uma vida trágica. Apaixonou-se por uma brasileira e morou aqui, numa bolha de gente rica. Uma das maiores poetas do século XX. Uma das minhas poetas favoritas”.

Já o cronista Antonio Prata contemporizou e disse que é preciso aceitar outras visões políticas. “Sim,  Bishop elogiou o golpe de 64, e Nelson Rodrigues também. Jorge Amado elogiava a União Soviética (como boa parte de nossos intelectuais). E Vinicius tem uma letra pedófila. Exijam alinhamento político e ideológico e pureza moral de artista e a arte acaba”, escreveu no Twitter.

Para Cassiano Elek Machado, diretor editoral da Planeta no Brasil e ex-curador da Flip, as críticas são  "compreensíveis" diante do momento politico polarizado pelo qual o país passa, "em que as sensibilidades estão aguçadas e qualquer coisa já acende uma faísca e vira um incêndio".

"É uma escolha que tem diversos pontos que podem ser contestados, mas também lança uma luz sobre uma poeta que produziu no Brasil uma literatura da maior qualidade, teve uma relação intensa com o país e foi uma importante agente cultural da literatura brasileira no exterior", argumentou Machado.

Sobre a poeta 

Elizabeth Bishop nasceu em 1911 (Massachusetts/EUA) e pouco conviveu com os pais: o pai morreu antes que completasse um ano e, quando tinha apenas cinco anos, a mãe foi internada em um hospital psiquiátrico. Foi viver com parentes no Canadá, onde permaneceu até voltar aos EUA para estudar.

Em 1929, ingressou no Vassar College (Nova York), uma das instituições de artes liberais mais tradicionais e renomadas dos EUA, onde pretendia se tornar compositora. Mas acabou se interessando por Letras e conheceu a poeta Marianne Moore, que se tornou sua mentora.

É reconhecida como uma das maiores poetas norte-americanas: foi premiada com um Pulitzer em 1956 por seu primeiro livro de poemas, North & Sound; em 1970 recebeu o National Book Award por The Complete Poems; e o Prêmio Internacional de Literatura Neustadt, em 1976, por Geography III

O Brasil e Lota 

Graças à herança deixada pelo pai, Bishop nunca precisou se preocupar com sobrevivência. Pôde viajar pelo mundo e durante alguns anos viveu em Paris, na Flórida, em Washington D.C, até chegar ao Brasil, em 1951. Daqui pretendia seguir viagem de barco pela América do Sul.

Mas, ao chegar em Santos, onde esperava passar duas semanas, se apaixonou pelo país e pela arquiteta Lota de Macedo Soares, idealizadora do Aterro do Flamengo. Mudou-se para Petrópolis (RJ), onde morou por 15 anos, e após a morte de Lota, em 1967, voltou a morar nos EUA.

Três livros, 101 poemas

A poeta criou uma relação tão íntima com o país que se permitiu tecer em sua prosa e correspondências com amigos críticas à cultura e aos costumes brasileiros e comentários sobre os eventos que testemunhava por aqui, incluindo elogios ao golpe de 1964. Palavras que agora se voltam contra sua escolha como a homenageada da próxima edição da Flip.

"A boa arte é aquela que faz a gente enxergar o mundo criticamente, e a observação que Elizabeth Bishop faz do mundo em sua obra é uma boa lente para a gente entender e refletir sobre o Brasil", disse Mauro Munhoz, diretor artístico da Flip, à BBC News Brasil.

Sua produção é considerada concisa. São apenas 101 poemas, divididos em três livros, ao longo dos seus 68 anos de vida. Quem estuda sua vida e obra credita isso ao um perfeccionismo e autocrítica extremos, que a faziam se dedicar meses ou mesmo anos a um único texto.

"Bishop só publicava quando achava que estava perfeito, irretocável. Nos seus rascunhos, você percebe como um poema que começa sentimental e sem forma vai sendo aperfeiçoado até tudo se encaixar e virar uma joia perfeita. Ela é uma artífice da palavra como poucos", diz o poeta Paulo Henriques Britto, professor de Letras da PUC-Rio e responsável pela tradução de alguns trabalhos de Bishop.

“Flores Raras”, o filme

O diretor Bruno Barreto afirma que aqueles que criticam a escritora pelos seus comentários corrosivos sobre o Brasil, sofrem de um eterno complexo de vira-lata. "A autoestima dos brasileiros é tão baixa que não conseguem ouvir críticas", diz Barreto, que retratou o romance entre Bishop e Lota no seu filme Flores Raras (2013).

O casal viveu junto até quase a morte da arquiteta, em 1967, em Nova York, por overdose de tranquilizantes. Barreto diz que elas eram "diametralmente opostas". "Bishop era frágil, enquanto Lota era um exemplo de fortaleza. Juntas, elas se complementavam e tiveram os melhores anos de suas vidas", disse o diretor.

Bishop deu aulas na Universidade de Washington e Harvard e, após a morte de Lota, teve um longo relacionamento com a americana Alice Methfessel, 32 anos mais nova e com quem viveu nos Estados Unidos até sua morte, em 1979, devido a um aneurisma cerebral decorrente dos anos de alcoolismo.

O que mais chamou a atenção de Barreto na vida de Bishop em sua pesquisa para o longa foi sua capacidade de superar perdas, tema de um de seus poemas mais conhecidos, A arte de perder.

"Desde pequena, ela sofreu perdas. Era errante, disfuncional e alcoólatra, mas vai se fortalecendo entre um porre e outro. Ainda que não se colocasse como vítima de nenhuma forma, acho que a Bishop foi salva pela poesia. Talvez tivesse morrido mais cedo se não escrevesse."

(Fontes: Marília Marasciulo, da Revista Galileu / e Rafael Barifouse, da BBC News Brasil)

 

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