O último trem: ainda acalento o sonho de uma linha turística

sexta-feira, 16 de julho de 2021
por Girlan Guilland*, especial para A VOZ DA SERRA
O último trem: ainda acalento o sonho de uma linha turística
Diferentemente dos versos da conhecida canção de Adoniran Barbosa (1912/1982) - coincidentemente composta naquele conturbado 1964, ano também do episódio-tema deste Caderno Z - na manhã seguinte, não teve trem. A quarta-feira, 15 de julho de 1964, adentrou à história friburguense como um dia triste. Definitivamente, o fim da linha. O fim de um ciclo de mais de 90 anos.

Se eu perder esse trem, que sai agora às onze horas. Só amanhã de manhã...
Passava pela hoje Avenida Alberto Braune um cortejo que se repetiu nas últimas nove décadas, mas naquele dia em sua vez derradeira. Personagem marcante se despedia da paisagem local - da qual parecia ser indissociável - como num ritual fúnebre, para nunca mais ser vista. A não ser nas imagens amarelecidas pelo tempo, de fotos saudosas, como de um ente querido que se fora para sempre.

Parecendo possuir vida própria, em movimentos cadenciados; personalidade, em sua forma imponente e até mesmo voz, em seu som melancólico. Um de seus nomes: ‘Maria Fumaça’. Seu inconfundível apito ecoaria pela última vez. O trem passou há exatos 57 anos, em sua última viagem, deixando muito mais do que saudades. Sim, há muitos saudosistas até hoje que se ressentem da falta do ‘cavalo de aço’, o velho trem que por quase um século foi sinônimo de progresso para Nova Friburgo e região. Difícil não encontrar alguém ou alguns, famílias inteiras até (principalmente de antigos ferroviários), sem história ou reminiscência do trem e da ferrovia para contar.

O trem consolidou o turismo, a cultura e o ensino 

Não dá para imaginar o que teria sido de Nova Friburgo e os municípios do entorno, principalmente a partir do boom do café, que fez de Cantagalo o maior produtor desaa rubiácea no Brasil, enquanto Nova Friburgo se tornava centro aglutinador de comércio e atrativo turístico. O trem fez a cidade virar polo de efervescência cultural ainda em fins oitocentistas, além de consolidá-la como polo de ensino, concentrando os melhores colégios do país, atraindo filhos da elite brasileira para estudar em estabelecimentos de excelência.

Muito mais do que aquela última viagem (sem volta), o fim do transporte ferroviário na cidade representou algo que até hoje - diferentemente do que aconteceu em outras regiões do país - resultou num ato radical: a extirpação total dos trilhos, retirados à passagem da última composição. Hoje, muito mais do que questionado, tal gesto é lamentado, pois a extinção de toda a malha ferroviária, dificultou quaisquer possíveis planos de retomada e resgate desse modal de transportes local. Não é impossível, mas um significativo obstáculo.

Em imagens da época, é possível ver pessoas chorando à passagem do último comboio, despedindo-se da máquina como, se realmente, fosse um ente familiar. Não seria para menos, afinal desde épocas imperiais a passagem do trem era cena comum ao cotidiano friburguense.

Desde o barão que a concebera - embora faleceu sem vê-la concluída - a linha férrea atravessou o tempo, moldando o desenvolvimento regional. Seu fim, embora até hoje incompreendido, teve justificativa econômico-financeira, principalmente no que seria a inviabilidade de manter seus custos. Mas hoje, claramente, se evidencia o erro da extinção de seus ramais, que poderiam perfeitamente coexistir como mais uma alternativa de transporte.

Um trecho com fins turísticos

Embora não vi e nem vivi aqueles tempos, sou da geração pós-trem, tendo nascido um ano - 11 meses para ser exato - depois da última passagem da ‘Maria Fumaça’ pelo nosso vale, mesmo assim herdei o gosto por esse universo. Creio que reminiscências familiares ajudaram.

Desde sempre, estive envolvido nas causas ferroviaristas, a exemplo das movimentações a partir de 2015 e que, em 22 de agosto de 2017, resultaram na criação do Clube do Trem de Nova Friburgo - a Associação de Preservação da Memória Ferroviária, que ajudamos a fundar, sobretudo pensando no rico patrimônio e no potencial deste segmento na região. A meu ver, o resgate de um trecho de linha férrea, com finalidades turística, terá grande e positivo impacto, sobretudo ao criar mais um atrativo turístico, principalmente pós-pandemia, em que a atividade turística é uma das grandes apostas para retomada econômica, principalmente de cidades como Nova Friburgo.

Como sonhar não custa nada, é crível continuar apostando nessa possibilidade, como vem fazendo dezenas de outros municípios pelo Brasil afora. Só assim, a nossa geração terá saudado uma bela dívida com a história.

*Girlan Guilland é jornalista. 

 

 

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