No rastro da Maria Fumaça

sexta-feira, 16 de julho de 2021
por Giovanni Faria*, especial para A VOZ DA SERRA
Giovanni Faria no leito de um antigo trilho (Acervo pessoal)
Giovanni Faria no leito de um antigo trilho (Acervo pessoal)
Sob meus pés, nas botas sujas de poeira e lama, muito mais do que um caminho qualquer. O leito em que serpenteava o trem entre Cachoeiras de Macacu e Nova Friburgo ainda conta história, mata saudade, traz lembrança. É apenas a primeira parte de uma viagem no tempo. Depois, essa aventura continua entre Nova Friburgo e Sumidouro, onde as estações amareladas e precárias e os túneis frios e escuros nos levam, sem parada, a um encantamento da alma, a um florescer do espírito.

Em meio ao silêncio da mata, caminhando com o coração, é possível ouvir na mente saudosa, ou mesmo na imaginação, mas como se fora real, o apito do trem...
Sou caminhante, sou peregrino. Todos os anos, mochila nas costas, cruzo centenas e centenas de quilômetros pelo Caminho de Santiago de Compostela, na Europa. Onze vezes rasguei Espanha, Portugal e França a pé, até a cidade onde está enterrado o primeiro apóstolo de Cristo martirizado – Tiago. Mas as emoções de caminhar pelo antigo leito do trem de nossos antepassados são imbatíveis. É sensação caseira, é flertar com séculos passados, é imaginar um mundo que andava sobre trilhos, em retas e curvas perfeitas.

Lá vou eu subindo a serra. A Estação da Pena surge ainda com a exuberância de uma construção que testemunhou por décadas o ponto de partida de uma subida fantástica em meio à mata fechada. Impossível, ali naquele cenário de aquarela, entre árvores frondosas, flores e frutos, não imaginar a caldeira ardente da Maria Fumaça pronta para invadir a floresta. “Correndo vai pela terra / vai pela serra...”, sintetiza aquele momento o “Trenzinho Caipira” de Villa-Lobos na letra de Ferreira Gullar.

Cada passo, um achado. Na terra úmida ou molhada da serra, banhada por águas cristalinas de fontes e cachoeiras, uma marca que não se apaga: pedaço de trilho, tachões, pregões, parafusos, arruelas, restos de ferro que sobrevivem ao tempo. Basta olhar atentamente para o chão que uma preciosidade dessas surge à sua frente. E mais, muito mais: pontes imensas, toneladas de ferro suspensas sobre o rio, a mata, o nada. Dormentes surgem aqui e ali. Mais à frente, restos de uma construção pertencente à Estrada de Ferro Leopoldina, uma fonte onde os passageiros bebiam água enquanto o trem também era abastecido no Registro, datado de 1919. Mas um pregão sob meus pés, mais uma curva perfeita, mais uma ponte – desta vez todas em blocos de pedra gigantes. 

Por cerca de 20 quilômetros, andados em oito horas num caminho hoje bem estreito, engolido por barreiras e vegetação, é fácil imaginar a emoção e o privilégio de quem chegou a Nova Friburgo de trem. Da janela, por certo apreciou a exuberância da natureza, o canto dos pássaros, o céu da montanha que ora surgia nas pequenas clareiras. Chego à terra natal exausto, quase maltrapilho, mas radiante de felicidade. Ainda percorro o trecho final, passando por Theodoro de Oliveira e Mury, antes da chegada à majestosa estação na Avenida Alberto Braune. Ali, uma pena, as marcas desaparecem nas construções desenfreadas e no descarte irregular de lixo e entulho no rio – o cartão de boas-vindas já não é tão belo como outrora.

Mas o caminho continua. Agora, em direção a Sumidouro. E é no trecho de aproximadamente 15 quilômetros entre Dona Mariana e Murineli que o caminhante volta a se surpreender. Diferentemente da serra, aqui é tudo plano – e que plano divinal. Uma vista de tirar o fôlego, entre montanhas e vales a perder de vista. As marcas do trem, desaparecido há tantas décadas, aqui saltam aos olhos a cada passo. Já na saída de Dona Mariana, a velha estação, locais de abastecimento de água, postes de ferro... Dá vontade de cavar o chão, ora duro, ora areado, e encontrar os trilhos que, assim parece, estão ali apenas escondidos pela ação da natureza. “Muita gente aqui ficou rica vendendo os trilhos”, conta o antigo morador. “Foi tudo derretido e virou dinheiro”, arremata.

Não é difícil resvalar nos pequenos, mas preciosos, resquícios de uma época hoje relegada a fotografias amareladas e memória dos mais velhos. Só os chamados pregões, que fincavam os trilhos nos dormentes, encontrei 12 trechos. Mas a maior preciosidade estava à beira do caminho. Dona Maria Branca, 84 anos, perde logo a timidez ao contar histórias deliciosas do tempo do trem. “No dia do meu casamento, o trem chegou lotado de convidados, uma festa”, relembra. “Desde pequenos, meus filhos se encantavam com o trem, que passava aqui em frente de casa”. Dela, recebo de presente o único pregão que guardou quando da retirada dos trilhos. “Se você gosta tanto de trem, isso tem que ser seu”, diz, ao me entregar a preciosidade embrulhada num saco plástico. O peregrino agradece, e segue viagem.

E aí chegam os três túneis. Que beleza, que experiência atravessar o primeiro deles, com 160 metros de comprimento em total escuridão – os demais têm 74 e 40 metros. Sem lanterna, é quase impossível percorrê-lo, pois o solo é irregular, bem areado, e com muita água que mina da pedra. Ali, a sensação é de passagem de uma dimensão a outra. O passado não bate à porta, mas a arromba depois de invadi-la. Sensação única. No túnel do meio, apreciar as paredes de pedra, como que esculpida a picareta, é um prazer pleno. E a viagem termina, em Murineli, com o caminhante sendo recebido pela velha estação ainda com ares de mocinha. O trecho à frente, que chegava à famosa Ponte Seca, não existe mais, ao menos fora das cercas de arame farpado e porteiras de fazendas que cruzaram o caminho do trem.

O apito do trem silenciou-se quando eu tinha 5 anos. Morava na Rua Henrique Zamith, 19, onde nasci, a 100 metros do pátio ferroviário hoje ocupado pela Polícia Militar. A ferrovia era meu quintal, extensão de minha casa. Caminhar de Cachoeiras de Macacu a Sumidouro, passando por Nova Friburgo, é revisitar a mim mesmo, carimbar o passaporte de uma viagem ao meu interior. De Milton Nascimento e Fernando Brant pego emprestado, e se pudesse roubaria, a canção “Encontros e despedidas”, que me acompanhou a cada passo dessa aventura por trilhos e trilhas: “A plataforma dessa estação... é a vida!”

*Giovanni Faria é jornalista, professor da PUC, friburguense ardoroso e apaixonado por trens e caminhadas

 

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