Nenhum projeto no Clube de Xadrez pode ser licenciado, diz professor da UFF

Diretor da Escola de Arquitetura e Urbanismo, Werther Holzer lembra que tombamento do terreno é anterior ao desmembramento
segunda-feira, 06 de setembro de 2021
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)
A sede do Clube de Xadrez antes de existir o prédio do salão social anexo
A sede do Clube de Xadrez antes de existir o prédio do salão social anexo

Diretor da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Nova Friburgo, o professor Werther Holzer diz que, tecnicamente, a prefeitura  não poderá licenciar nenhum projeto de construção que interfira no salão social do Clube de Xadrez, mesmo com o desmembramento do terreno. Ele lembra que o tombamento do número 151 da Avenida Galdino do Valle Filho, que consta do decreto 268 de 26 de novembro de 2012, é anterior ao desmembramento, realizado em 2015.

“O desmembramento do terreno não interfere no tombamento original do imóvel como um todo. O objetivo do decreto municipal é justamente preservar a ambiência urbana. Um prédio naquele espaço, mesmo de acordo com o gabarito, estrangularia a Praça do Suspiro. O tombamento é um gravame (registro lançado sobre um bem para informar que ele está atrelado a algum tipo de contrato), não importa a numeração", afirmou ele ao jornal A VOZ DA SERRA.

Werther cita como exemplo o tombamento dos imóveis no entorno da Praça Getúlio Vargas: mesmo que a numeração mude, os imóveis continuam protegidos. “Se a prefeitura vier a licenciar algum tipo de obra que afete a volumetria do salão social, que está tombada, assim como a fachada, estará desrespeitando a própria lei municipal”, afirma Werther. 

A Prefeitura de Nova Friburgo informou na última sexta-feira, 3,  que ainda não tramita nenhum projeto de licença de obra, mas não esclareceu se concederá a licença quando for solicitada.  A prefeitura alega que o Clube de Xadrez é particular e não tem poder de impedir a venda de um bem privado. “Os proprietários, independentemente do projeto que tenham para o imóvel, deverão respeitar o que consta da legislação”, informou através de nota.

Como mostrou na semana passada a coluna “Observatório” do jornalista Wanderson Nogueira, o salão social do Xadrez (foto acima), palco de bailes memoráveis e onde funcionava o Centro de Convivência da Pessoa Idosa, foi vendido a um grupo de investidores para a construção de um prédio de até cinco andares.

Neste fim de semana, A VOZ DA SERRA mostrou, com exclusividade, que em 2015 o terreno hoje integralmente ocupado pelo clube, totalizando quase cinco mil metros quadrados, foi desmembrado em dois lotes - um no número 151 e o outro no número 153 da Avenida Galdino do Valle Filho. 

O lote 151, com 2.190 metros quadrados, é o que abriga há 94 anos a sede tombada. O charmoso prédio em estilo mourisco (SAIBA MAIS AQUI), com um pequeno salão de festas e varanda, e que já ganhou um pavimento extra,  teve a fachada e a volumetria (dimensões que determinam o volume da construção e também o tamanho e o formato originais do terreno) tombadas pelo decreto de 2012. Ali, junto à sede, também ficam o parque aquático, o bar e a academia do clube, que continuarão funcionando.

O lote que foi vendido é o 153, com 2.446,14 metros quadrados, onde funcionava o Centro de Convivência da Pessoa Idosa Zilma Mussi Gervásio, composto do salão social gigante e quadra de esportes. Esse prédio, construído muitos anos depois da sede (as atas foram perdidas na tragédia de 2011), imita o estilo da sede e está com aspecto de abandono (foto acima).

A venda realizada em março, segundo a presidente do clube, Alda Helena Medeiros, foi a única saída para desafogar o Xadrez de mais de 20 anos de dívidas que já somavam quase R$ 3 milhões, devido a multas judiciais. Falido, o clube chegou a ir a leilão por quatro vezes.

Segundo Alda, desde o governo Saudade Braga (2000-2008) o clube tentou a desapropriação do salão social, dando prioridade ao município, como reza o estatuto. Vários governos se sucederam, todos acenaram com a possibilidade, mas nenhum assinou o cheque. 

Em 2005, o salão passou a ser alugado pela prefeitura, por cerca de R$ 10 mil mensais, para as atividades do Centro de Convivência da Pessoa Idosa. Ao assumir em janeiro deste ano, o prefeito Johnny Maycon (Republicanos) decidiu suspender o contrato, alegando ter outras prioridades. A venda foi a única saída.

“Com a pandemia, tivemos que fechar a piscina, o restaurante, a academia, o bar. Os sócios desapareceram, o auxílio social do governo que ajudava a manter os funcionários em casa também acabou”, conta Alda, relembrando as dificuldades que passou.

RELEMBRE A LISTA DOS IMÓVEIS TOMBADOS EM FRIBURGO

O tombamento da sede do Clube de Xadrez (Avenida Galdino do Valle Filho, 151)  consta do decreto 268 de 26/11/2012, que, juntamente com o 267 de 26/12/2012, consolida, segundo a Fundação Dom João VI, a preservação de mais de 150 imóveis em Nova Friburgo. O decreto 268 ratifica tombamentos feitos anteriormente pelo Iphan (âmbito federal) e pelo Inepac (estadual), enquanto o 267 inclui a residência de Galdino do Valle Filho, que havia ficado fora da lista. 

Integralmente tombados (fachadas, telhados e volumetria)

  • Residência de Galdino do Valle Filho

  • Prédio da Usina Cultural

  • Sobrado do Willisau Center

  • Antigo Fórum Julio Zamith

  • Prédio dos Correios, na Praça Getúlio Vargas

  • Chalé onde morou conselheiro Julius Arp, na avenida com seu nome, 80, hoje o restaurante Colonial Gourmet, no Espaço Arp

  • Villa Tico-Tico, na Alameda Princesa Isabel 317 (Vale dos Pinheiros)

  • Três casas na Rua Paraná, no Bela Vista

  • Residência na Rua Conde D’Eu

  • Cinco imóveis na Rua General Osório, entre eles o Colégio Modelo, a casa dos Pobres, a Casa Madre Roselli e a residência da família Celles Cordeiro

  • Residência do médico Salim Lopes, na Rua Fernando Bizzotto 

  • Duas casas (Villa Maria e Villa Serra Nova) na Rua José Tessarolo dos Santos (antiga Baronesa), no Paissandu

  • Casa da antiga delegacia na Rua Teresópolis, pertencente à Afape

 

Apenas fachadas e volumetria tombadas

  • Dois imóveis na Avenida Galdino do Valle Filho, incluindo a sede do Clube de Xadrez (número 151)

  • Quatro casas na Rua Francisco Mielle

  • Casa na Rua Sete de Setembro, já na altura da Praça Getúlio Vargas

  • 25 imóveis no entorno da Praça Getúlio Vargas

  • Sobrados nas esquinas da Praça Dermeval Barbosa Moreira com Rua Monsenhor José Antônio Teixeira (antiga Rua São João)

  • Três imóveis na Rua Monsenhor José Antônio Teixeira (antiga Rua São João)

  • Três imóveis na Rua Ernesto Brasílio

  • Casa na Rua Eugênio Muller

  • Um imóvel na Rua Farinha Filho (número 30)

  • Dois imóveis na Rua Monte Líbano (14 e 18)

  • Dois imóveis  na Avenida Comte Bittencourt, incluindo a casa do Centro Espírita Friburguense

  • Três imóveis na Rua Dante Laginestra, incluindo o antigo Hotel Avenida

  • Sede da banda Euterpe Friburguense e outros sete imóveis na mesma avenida

  • Dois imóveis na Rua Monsenhor Miranda, entre eles o Hotel São Paulo

  • Duas casas na Rua Augusto Spinelli

  • Prédio da Escola de Música da Universidade Candido Mendes, na Vilage, e outros quatro imóveis na Rua Maria Rosalina Bravo

  • Cinco casas na Rua Aristão Pinto

  • Prédio do antigo Hotel Floresta, na Lagoinha

  • Sede do Hotel Dominguez Plaza, na Praça do Suspiro 

 

Apenas fachadas tombadas

  • Sobrado da antiga sapataria Bota Preta e mais 27 imóveis na Avenida Alberto Braune

  • Três casas na  Rua Augusto Cardoso

  • Sete casas na Rua Fernando Bizzotto, como a Villa Eliza, o antigo Hotel Montanus, hoje com prédio novo erguido atrás, e a antiga sede de A VOZ DA SERRA

  • Treze casas na Rua Oliveira Botelho, entre elas a Villa Carmem

  • Seis casas na Rua General Osório, incluindo a Villa Maria

 

Também tombados pelo Iphan

  • O chalet e os jardins do Nova Friburgo Country Clube

  • A Praça Getúlio Vargas, incluindo seus eucaliptos

  • O Park Hotel.

 

Também tombados pelo Inepac

  • Colégio Anchieta

  • Sanatório Naval

  • Capela de Santo Antônio

  • Antiga Faculdade de Odontologia, hoje UFF

  • Antiga sede da LBA, na Rua Augusto Spinelli

  • Palácio Barão de Nova Friburgo, o prédio da Prefeitura, antiga estação de trem

  • Catedral São João Batista,

  • Prédio da Cúria Diocesana, na Rua Monsenhor Miranda

  • Usina Cultural, antiga residência do Barão de Nova Friburgo

  • Colégio Nossa Senhora das Dores

  • Prédio do Ienf, antigo Grupo Escolar Ribeiro de Almeida

  • Conjunto da antiga Estação Ferroviária de Riograndina. 

 

Publicidade

Apoie o jornalismo de qualidade

Há 76 anos A VOZ DA SERRA se dedica a buscar e entregar a seus leitores informações atualizadas e confiáveis, ajudando a escrever, dia após dia, a história de Nova Friburgo e região. Por sua alta credibilidade, incansável modernização e independência editorial, A VOZ DA SERRA consagrou-se como incontestável fonte de consulta para historiadores e pesquisadores do cotidiano de nossa cidade, tornando-se referência de jornalismo no interior fluminense, um dos veículos mais respeitados da Região Serrana e líder de mercado.

Assinando A VOZ DA SERRA, você não apenas tem acesso a conteúdo de qualidade, mantendo-se bem informado através de nossas páginas, site e mídias sociais, como ajuda a construir e dar continuidade a essa história.

Assine A Voz da Serra

TAGS: