Posso consertar as pessoas?

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

sexta-feira, 03 de janeiro de 2020

Está você tentando mudar alguém? Está sofrendo por conviver com uma pessoa que não age como você gostaria? Fica se irritando ou desanimando por causa do comportamento complicado de outro indivíduo? Você ainda acredita que pode consertar uma pessoa?

Pense nesta declaração: “As pessoas têm dificuldades de abandonar seus sofrimentos. Diante do medo do desconhecido, elas preferem o sofrimento daquilo que lhes é familiar.” (Thich Nhat Hanh, “Compartilhando Experiência, Força e Esperança – Reflexões diárias do Grupos Familiares Nar-Anon”, p. 2, 2018). Estranho?

Temos dificuldade em abandonar sofrimentos? Não parece ilógico isso? Afinal, queremos paz, serenidade, alegria, ausência de problemas. Primeiro precisamos entender que há uma diferença entre sofrimento e dor. Dor é inevitável. Sofrimento pode ser opcional.

Alguém que você amava, morre. Isto causa dor, uma dor normal. Não tem como evitá-la. Não precisa fugir dela. Ela irá embora com o tempo e com a aceitação da perda. Ou, na pior das hipóteses, não ficará perturbando num mesmo nível o tempo todo. Isto é dor.

Alguém tem um comportamento abusivo com você. Por exemplo, briga por besteira. Fala de um jeito que parece que está brigando. A pessoa faz isso por causa do temperamento, vamos dizer, bélico que pode ter herdado em grande parte do pai ou da mãe, ou de ambos, e por causa de talvez ter sido filho único, ou filho caçula que pode ter sido paparicado. Cresceu com a crença psicológica de que deve ser servida pelos outros. É impaciente, espaçosa, acredita que os outros estão aí na vida para servi-la. Isto causa sofrimento em sua vida com ela. Isto é sofrimento. E agora? Como evitar este sofrimento?

Primeiro vamos pensar se você teve algum relacionamento parecido com este em seu passado. É muito comum que uma pessoa se case com alguém com características, boas e ruins, parecidas ou iguais às de seus pais. Exemplos: se um homem teve uma mãe autoritária, não é raro ele se casar com uma mulher também autoritária. Se uma mulher teve um pai nervoso, explosivo, mulherengo, não é raro casar com um homem também impaciente, pavio curto (ou sem pavio) e paquerador. Por que o sofrimento do passado, com exceções, geralmente se repete em relacionamentos do futuro?

Vamos reler o texto que coloquei acima: “As pessoas têm dificuldades de abandonar seus sofrimentos. Diante do medo do desconhecido, elas preferem o sofrimento daquilo que lhes é familiar.” Podemos extrair deste texto o pensamento de que você aprendeu a lidar com o sofrimento lá atrás em sua família de origem. Vamos dizer, ficou meio que calejado com ele. E alguns podem ter criado uma visão de vida baseado no que viveu de sofrimento, como se a única opção de vida fosse aquela. É como um peixinho que vivendo dentro de um aquário acredita que aquilo é todo o mundo existente.

Já que muitas pessoas aprenderam erradamente que a vida é só sofrer, elas podem ter medo de se permitir sair do sofrimento porque o que virá? Vivendo sob o sofrimento atual que tem semelhanças com o do passado, a pessoa já sabe o que fazer. Ela aprendeu a se defender. Mas como se tornará a vida sem o sofrimento habitual, evitável?

Se você vive com alguém que de certa forma mantém o sofrimento do seu passado, primeiro pense que você não tem poder de consertar esta pessoa para que ela se torne como você desejaria que ela fosse. Aceitar a realidade não é gostar do que você vê, mas é um primeiro passo para mudar o sofrimento desnecessário.

O segundo passo começa com várias coisas, por exemplo: (1)Comece a crer que é possível sair do sofrimento. (2)Pense que há um sofrimento pessoal, dentro de si, e é este que precisa ser tratado, porque sobre este você tem possibilidade de mudança do que depende de suas escolhas. (3)Admita que não é possível controlar o comportamento de outra pessoa, pois só ela pode mudar ela mesma, se ela quiser. (4)Quando você para de tentar mudar os outros, é possível encontrar serenidade dentro de si. (5)Sua serenidade não precisa depender do outro mudar.

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O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

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