Laboratórios farmacêuticos vendem doenças?

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

A doutora Adriane Fugh-Berman é médica, pesquisadora e professora de Farmacologia, Fisiologia e Medicina de Família do Georgetown University Center. Ela se dedica a lutar contra o marketing farmacêutico e foi entrevistada pela jornalista Concília Ortona, do Centro de Bioética do Cremesp, especialista em Bioética e mestre em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP). A entrevista, com o título “Laboratórios vendem doenças”, foi publicada na revista “Ser Médico” do Cremesp – Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, edição 67, de abril a junho de 2014, páginas 5 a 9. Vejamos um resumo desta entrevista.

Concília diz que os médicos não sabem detectar mensagens subliminares em artigos de revistas científicas cujo propósito é apoiar a eficácia de remédios que nem chegaram ainda ao público, e exagerar ou criar “estados de doenças”. Quem prepara tais artigos são os “ghost-writers” (“escritores fantasma”) que trabalham para laboratórios farmacêuticos, escrevendo artigos científicos para depois serem assinados por cientistas.

Dra. Adriane diz: “A indústria [farmacêutica] não contrata médicos para vender remédios e sim para vender doenças.” Laboratórios fazem um planejamento de estratégia subliminar de marketing para apoiar a eficácia de uma droga, o que configura, segundo esta médica, não só numa conduta antiética, mas também perigosa à saúde pública. Ela afirma que este planejamento distorce a literatura médica. Aliás, não há um paralelo entre isto e as igrejas que distorcem o evangelho pregando a teologia da prosperidade, e as que promovem curas sem orientar o povo a mudar o estilo de vida não saudável?

A pesquisadora explica que o marketing das empresas farmacêuticas e de equipamentos médicos “são competentes em esconder eventuais erros e/ou resultados negativos encontrados em pesquisas com as drogas a serem lançadas, nos muitos artigos que produzem.” E quem tentar corrigir as desinformações, é atacado por estas empresas.

A médica afirma que mesmo em revistas científicas mais conhecidas e respeitadas, a manipulação de informações ocorre, em parte porque os editores podem ser um pouco ingênuos por serem médicos e não redatores treinados, não sabendo reconhecer técnicas de persuasão ou mensagens de marketing embutidas.

Em 2011 a doutora Adriane publicou um artigo que mostra que cerca da metade dos ginecologistas dos Estados Unidos continuou crendo que a terapia hormonal na menopausa não era perigosa mesmo após os riscos terem sido descritos num estudo de longo prazo sobre estratégias de prevenção de doenças em mulheres chamado “Women’s Health Initiative” – WHI, (Iniciativa da Saúde das Mulheres). Ataques a este estudo sério continham frases tipo “o ensaio do WHI é polêmico”, “resultados de ensaios clínicos não devem guiar tratamentos”, “riscos associados à terapia hormonal têm sido exagerados.” Leia mais sobre isto em “A infestação em revistas médicas: como a escrita fantasma vende a hormonioterapia” no site www.plosmedicine.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pmed.1000335

Este site mostra exemplos de como um grande laboratório usou artigos com escrita-fantasma para diminuir os riscos de câncer de mama associados às terapias, defender os “benefícios” cardiovasculares obtidos, e promover usos fora do que consta na bula como prevenção da demência, do Mal de Parkinson, de problemas de visão, até de rugas.

O assédio das indústrias farmacêuticas começa em acadêmicos de medicina, oferecendo a eles palestras, participação em publicações etc. Nos médicos atuantes é oferecido participação em estudos falsos, sendo pagos para prescrever um remédio e chamar isto de “estudo”.

A doutora Adriane disse que “a maneira clássica de expandir o mercado de um medicamento é inventar um estado de doença ou exagerar a importância ou a prevalência de uma condição já existente.” O site dela mostra como a indústria farmacêutica influencia nas prescrições, promove acesso à informação imparcial em relação a drogas e incentiva médicos a escolherem educação médica continuada livre da influência dos laboratórios. Você pode ver isto em www.pharmedout.org.

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