Animais de estimação e vínculo humano

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

É comum ter um animal de estimação. Em 2013, segundo o IBGE, no Brasil havia 132 milhões deles, sendo 53 milhões de cães, 38 milhões de aves, 22 milhões de gatos, 18 milhões de peixes ornamentais e 2,7 milhões de pequenos répteis e mamíferos. Psicólogos sociais questionam se um animal de estimação, o chamado “pet”, é um objeto natural de vínculo afetivo.

Os cientistas Zilcha-Mano, Mikulincer, e Shaver em 2011 conduziram estudos em Israel sobre o vínculo humano com animais. Uma das metas era avaliar se as pessoas tentam compensar um pobre relacionamento com humanos através de vínculos fortes com um pet, ou se tentam construir com humanos o que funciona com seu animal de estimação. A hipótese mais encontrada foi a de que as pessoas tentam ter com humanos o que funciona com o pet. E viram que as pessoas com mais alta ansiedade manifestam extremos de emoção na morte do seu pet, e um luto mais longo e de difícil término.

Será que as pessoas se incomodam mais com a dor e o sofrimento de um animal de estimação do que com a de um ser humano? Stanley Coren, Ph.D., professor de Psicologia na Universidade British Columbia, cita um estudo no qual colocaram um dilema para 573 participantes da pesquisa que deveriam escolher entre salvar um ser humano ou seu cachorro, mas não ambos, de serem atropelados por um ônibus e morrerem. Verificaram que as decisões de salvar a pessoa ou o cachorro foram afetadas por fatores como: quem era a pessoa em perigo? Um turista desconhecido, um melhor amigo ou um irmão?

Cerca de 40% dos participantes disseram que salvariam seu pet e não o turista desconhecido. Mas só 14% salvaria o cão no lugar do turista se ele não fosse seu pet. Na pesquisa as mulheres salvariam o cachorro duas vezes mais do que os homens.

O que os psicólogos e filósofos que estudam moralidade querem saber é por que pessoas fariam estas escolhas e sob que circunstâncias. Um estudo de 2017 sobre este assunto foi publicado pela Universidade Northeastern, e pode ser lido em www.researchgate.net/publication/316478802_Are_People_More_Disturbed_by_Dog_or_Human_Suffering_Influence_of_Victim's_Species_and_Age.

A equipe liderada por um sociólogo e criminologista, professor Jack Levin, disse que não é só uma simples comparação entre empatia por cães ou por humanos quando ambos estão em estresse. Esta pesquisa envolveu 256 estudantes da faculdade. Deram a eles um artigo para ler com quatro versões de um ataque violento feito por um desconhecido contra um adulto, ou contra um bebê de um ano de idade, contra um cachorro filhote e contra um cão com 6 anos de idade.

Após lerem o artigo cada estudante respondeu questões medindo a empatia para com a vítima e o grau em que o ato criminoso produziu uma resposta emocional estressante neles. Os resultados mostraram que os níveis de resposta emocional quando a vítima era o bebê, o filhote animal ou o cão adulto foram equivalentes. A empatia para com o humano adulto foi menor. As moças estudantes mostraram empatia para com todas as vítimas de forma igual.

Segundo o professor Levin, a ideia é que humanos respondem a cães mais ou menos da mesma forma como a crianças e são mais prováveis de sentir empatia com a vítima na medida em que a considera desamparada e sem condições de cuidar de si, como ocorre com uma criança e um cachorro. A conclusão do estudo é que os indivíduos não olham seu pet como animal, mas como “bebês com rabo”, ou membros da família como as crianças.

Editores de jornais dizem que recebem mais críticas dos leitores sobre abuso contra animais do que com humanos. Apesar disso nos Estados Unidos 24 cavalos morrem em corridas cada semana, e nove bilhões de frangos são tratados com tortura e abatidos por ano para consumo dos americanos. No Brasil, em 2018 houve 13.512 toneladas de frangos e 7.955 toneladas de bovinos mortos para consumo humano (www.embrapa.br/suinos-e-aves/cias/mapas). O filósofo ambiental Chris Diehm disse que vivemos facilmente com “o paradoxo dos gatos em nossas casas e vacas em nossos pratos.”

Fontes:
www.psychologytoday.com/intl/blog/fulfillment-any-age/201202/how-emotionally-attached-are-you-your-pet
www.psychologytoday.com/us/blog/canine-corner/201711/why-people-sometimes-care-more-about-dogs-humans
www.wired.com/2015/04/people-care-pets-humans/

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