O Ipê Amarelo

Wanderson Nogueira

Palavreando

Aos sábados, no Caderno Z, o jornalista Wanderson Nogueira explora a sua verve literária na coluna "Palavreando", onde fala de sentimentos e analisa o espírito e o comportamento humano.

sábado, 14 de dezembro de 2019

É nos dias de chuva e frio que acordo mais cedo e fico ali na cama ouvindo a chuva lá fora. Me pego às vezes pensando na ironia que é o destino de cada pingo de chuva e toda a sua magnífica trajetória. Fico na cama por horas... Não protelando o sono ou a natural preguiça, mas observando a vida que se transforma lá fora. 
Passeio os olhos pelos cantos das paredes. O silêncio de cada cantinho tendo como sinfonia a chuva e os barulhos lá de fora. Tudo se transforma num imenso labirinto em que minhas memórias se cruzam com aquele instante em que sou só eu e eu mesmo caminhando pelos segundos. Penso no ipê amarelo que fantasia minha janela e todas as vidas que alimenta. 
Algumas, ele alimenta com seus frutos, outras apenas com sua majestosa beleza. E é irrelevante dizer que embarco em uma de suas folhas e fico a imaginar o curso que segue do seu nascimento até o derradeiro voo que faz para nutrir a terra. É o quadro que mais admiro. O ipê amarelo enquadrado por minha janela. Há quem nunca abra a janela e há aqueles que nunca abrem os olhos…
O ipê amarelo está lá para mim todos os dias, mas há dias que não o percebo. Como posso ser tão tolo em não apreciar tão esplêndida beleza? Não quero soluçar insensibilidade para passar a vida arrotando bestialidades. O tal ipê amarelo é minha estrela de dia. O mesmo ipê amarelo é minha doce inspiração para saborear os dias. É o milagre livre de autorias santas. 
Eu não sei a cor do seu ipê e nem sei o que o suspende ao céu. Mas sei que todos nós precisamos de algo que nos tire um pouco dessa cegueira que enxerga tudo, menos o que se esparrama à nossa frente. Aquele algo que freia essa velocidade que teimamos em acelerar para que as paisagens passem mais rápidas. As paisagens não passam. O que passam são esses normais que correm da loucura de saborear a vida em todos os seus instantes.
É preciso passear pelos cantos da parede. Cada canto de parede é uma galáxia. Olhar para além da janela é encontrar um universo cheio de galáxias. A galáxia dos ipês amarelos, dos jardins cheios de flores de várias cores e tantos outros canteiros de diversas naturezas e nomes. Qual é a sua galáxia? Que planetas têm nela? Que nomes você dá a eles?
Na minha janela tem um ipê amarelo. Ele é repleto na primavera e é igualmente lindo no verão. Não desaponta no inverno, nem no outono. Ele me convida a dançar a vida, ele me chama para ver o mundo. E eu amo as nossas conversas cheias de um silêncio que reinventa o sentido da paz. O ipê amarelo veste minha alegria de otimismo e me dá o chão que eu preciso para seguir.
Quando eu acordar amanhã, lá estará o ipê amarelo me esperando na janela. Vou seguir meu ritual diário e ao voltar reencontrarei o ipê amarelo que esteve me acompanhando por todo o dia. Na batalha com as horas, na grande brincadeira com cada minuto. Vestido de amarelo, colorindo o mundo. O quadro que mais admiro. O ipê amarelo enquadrado por minha janela, enraizado em meu espírito, transformando a vida.  

 

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