Esse tal de amor

Wanderson Nogueira

Palavreando

Aos sábados, no Caderno Z, o jornalista Wanderson Nogueira explora a sua verve literária na coluna "Palavreando", onde fala de sentimentos e analisa o espírito e o comportamento humano.

sábado, 15 de junho de 2019

(Inspirado no musical Eros, de Rebecca Noguchi)

Esse tal de amor... Ah! Nos cativa, nos faz cantar, nos faz chorar. Nos faz experimentar os verbos para além das suas próprias etimologias. Esse tal de amor que tanto nos dá, tanto nos tira e sempre nos constrói - mesmo destruindo. Devassa o ser para avassalar a alma. Desperta. Adormece. Nunca aquieta, ainda que fique lá sussurrando - à espreita.

Nós à espera de serem desatados ou à espera para mais uma amarra que confunda e/ou desafie. “Decifra-me e não garanto que me conhecerá!” Esse tal de amor...

Esse tal de amor que arranca as suposições com suas verdades que nos aparecem, mesmo quando preferimos ocultar o que dizem. E nos vinculamos às crenças de que esse tal de amor é tão bom de se viver só para mantermos a motivação em arriscar.

Sem risco, não há como voar. Mesmo nesse tal de amor que sugere ser fácil, mas que nos convence de que o tempo pavimenta estradas lisas, só que com curvas, cruzamentos e perigos. Dúvidas? Nada mais humano. Carência todo mundo tem. Nada tão humano como o anseio de falar por si mesmo desse tal de amor. E, falamos mesmo sem ter tido a possibilidade de experimentá-lo, vivenciá-lo ainda que por centímetros na linha do tempo que nos é concedida.

Esse tal de amor que acelera o coração, mas acalma os dias freando os ponteiros do relógio. Um minuto é a eternidade quando a espera se faz presente. Virá na próxima esquina? E será que terei visto se já se foi?

Esse tal de amor que um dia foi paixão. Amor é quase sempre evolução de paixão e pede para que de vez em quando retroceda para ser paixão de novo. Porque se amor é sal, paixão é muitos outros temperos. Mas o paladar cansa e a boca pede a simplicidade do essencial.

Esse tal de amor que idealiza aventuras num mundo repleto de cotidianos. Mas idealiza, até perceber que intimidade o sustenta muito mais... Esse tal de amor que a gente sempre acha conhecer tão bem, mas que se nomeia com sobrenomes diferentes nos surpreendendo mesmo quando achamos não ser mais capazes de nos deixar surpresos.

Esse tal de amor que é colo, beijo, nuca, arrepio, pele, mão na mão, carinho, amasso, afago, atenção. Esse tal de amor que tanto sonhamos, às vezes desperdiçamos, tememos pelo medo de perder antes mesmo de ganhar, louvamos mesmo sem ter a sua visita e permanência. Mora comigo? Vá embora! Volta, por favor. Se o amor pudesse voltar no tempo... Se pudéssemos parar no ar, em meio ao voo feliz que percebemos.

Como beija-flor. Como personagem de desenho da Disney. Como criança no ápice de sua espontaneidade. Esse tal de amor é tão espontâneo que conhece a ingenuidade e pratica a entrega sem cobrar.

Ah! Esse tal de amor tem cheiro que nem sempre é possível guardar. Lembranças. Desejo de futuro, quando é presente. Esse tal de amor que não sei apresentar, que se apresente... E que se tenha e tenhamos capacidade de perceber, receber, dar e se entregar.

 

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