Conversa com as montanhas

Wanderson Nogueira

Palavreando

Aos sábados, no Caderno Z, o jornalista Wanderson Nogueira explora a sua verve literária na coluna "Palavreando", onde fala de sentimentos e analisa o espírito e o comportamento humano.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Quando cai a tarde e começa a anoitecer na minha cidade penso em quanto sou grato por ser friburguense. Meu sangue, meu espírito, minhas vivências, meu coração – todos friburguenses. De nascimento, por ancestralidade. De tal modo que meu coração friburguense comprime e exprime sangue friburguense. De tal forma que não funciono tão bem quando o ar que circula nos meus pulmões friburguenses não é ar friburguense. De tal jeito que é a energia que vem das montanhas friburguenses a que melhor renova a minha alma, igualmente friburguense.      

Amo ver a minha cidade, pouco a pouco, se iluminar conforme a noite vai assumindo o lugar do dia. Olhando Nova Friburgo, assim do alto, me lembro do quanto apaixonado por ela sou. Torno a me apaixonar de novo pelo simples ato de olhá-la. Prevejo que tornarei a me apaixonar amanhã e depois de amanhã também. É sentimento contínuo que nada pode mudar ou abalar.  

Olho no olho de suas mais altas montanhas. Será que elas atrapalham mesmo a ver o horizonte? As montanhas conversam comigo e me convencem que não. “Sou convite para que olhem para o alto e além”. 

Sim! As montanhas nos exigem olhar para as estrelas. Nova Friburgo tem o privilégio de ir além e seus filhos têm o dever de querer ir além. Confesso às montanhas que as coisas lá embaixo não andam tão bem. Elas sabem e concordam. Intimam à transformação, mas aconselham: para mudar é preciso antes resgatar autoestima, acreditar, recuperar a vocação de ser de vanguarda, pioneira. 

Mais do que as próprias montanhas, nossa inspiração está nas pessoas e na nossa própria história. História que inspira mais para libertar do que aprisionar. História que inspira para motivar essa gente a escrever novas histórias, com o exemplo que o passado nos traz, mas com a gana que o futuro nos impõe.

Como falar de futuro, se o presente está tão renegado? – pergunto. As montanhas me respondem: “Vocês já têm a resposta ou no mínimo o intuito dela. Coragem para respirar o caminho que a simples pergunta leva. Determinação para aproveitar a beleza que é a de descobrir uma resposta”. 

As montanhas mantêm – silenciosas - a sua vigília, enquanto quase todos adormecem. Velam os meus sonhos que são os sonhos de tantos outros friburguenses. Adorar Nova Friburgo já não é o bastante. Amar sem agir pelo amor é como sonhos sem ação que pela ausência de atitude estão destinados a nunca se realizarem.    

Olhando para o quanto as montanhas aconchegam nossa gente, visita-me a certeza que pode e deve ser diferente. Há de se insistir na esperança que caminha. Há de se teimar em fazê-la nova como seu próprio nome induz.

E o sol escapole para o céu, enquanto a lua se veste de luz. Minha cidade não tem mar, mas tem luar e amanhecer mais lindo do que qualquer outro lugar. Leio para as montanhas poemas de Goncalves Dias e romanceando a cena, me faço oração ao pedir a Deus que não permita que eu morra sem ajudar a fazer desse lugar - o melhor lugar.

 

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