Os tesouros literários das águas mediterrâneas - Parte 4

Tereza Malcher

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A comédia ou o canto do Kómos

 

Há mais de dois mil anos que a comédia atrai o público ao teatro porque além de ser prazerosa, faz bem à saúde. Foi com este pensamento que a comédia nasceu em Atenas, na Grécia antiga e, posteriormente, enraizou-se e floresceu na vida das cidades, primeiramente nas mediterrâneas, ao norte da África, Ásia Menor e sul da Europa, como a Itália. Hoje as encenações teatrais trazem a essência da comédia grega antiga, dado que suas características foram inovadas ao logo do tempo e adequadas à cultura dos diversos lugares do planeta. 

É um gênero literário e teatral que surgiu depois da tragédia e emergiu das cerimônias dionísicas, em festividades populares na Grécia antiga, denominadas de procissões, que eram chamadas de kómos. Assim, a comédia ou o canto do kómos além de ter caráter orgiástico, era caracterizada pela brincadeira, zombaria e situações que causavam risos. Havia interação entre os atores e o público, que era convidado a fazer parte do espetáculo. Em seus primórdios, eram encenadas em arenas, que recebiam um público até superior a dez mil pessoas, moradores da localidade e de lugares próximos.

O enredo não envolvia grandes emoções, tragédias ou dramas. Pelo contrário, polemizava o cotidiano do governo, encenava laços afetivos conturbados através de intrigas familiares e amorosas, retratava a educação dos sofistas, criticava pessoas importantes da comunidade e ridicularizava as guerras. Além do humor, esse gênero continha mensagens filosóficas e morais, que influenciou os modos de viver das civilizações. 

Diferentemente da tragédia, cujos personagens eram os heróis, os deuses ou semideuses, a comédia se utilizava do palhaço, do fingidor, do bobo, entre outros personagens, inspirados no dia a dia da população, ou seja, na vida do homem comum, como até hoje a dramaturgia cômica se estrutura. 

Um dos autores mais conhecidos da Grécia antiga foi Aristófanes, que escreveu 40 peças aproximadamente, entre elas está “Assembleia de mulheres”, peça que tratam do envolvimento da mulher com a política. (uma encenação atualizada pode ser vista no YouTube).

Tanto a tragédia como a comédia grega eram denominadas de canto, o canto do bode e o canto do kómos, porque suas encenações contavam com a participação de um coro, com o qual os personagens interagiam.

Até os dias atuais a literatura e o teatro se abraçam através de uma interação artística em diferentes línguas e dialetos, além de fazer transparecer o conhecimento, as tendências e o pensamento como se fossem os porta-vozes da existência humana ao longo de milênios.    

 

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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