Uma visita ao memorial do Colégio Anchieta

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

O Colégio Anchieta se estabeleceu na Vila de Nova Friburgo por influência do médico Carlos Éboli junto aos jesuítas. Inicialmente alugaram a antiga sede da Fazenda do Morro Queimado e providenciaram uma reforma para receber os primeiros sete alunos internos, iniciando as atividades escolares em 12 de abril de 1886. Com o passar dos anos, aumentando cada vez mais o número de alunos internos que vinham de diversas partes das províncias, viu-se a necessidade de construir um prédio novo e a ordem dos jesuítas adquiriu a sede da fazenda.

A nova construção em estilo eclético com predomínio do neoclássico foi inaugurada em 1901, e aparecia aos olhos de quem chegava à Nova Friburgo como um imponente e majestoso prédio arquitetônico. O teatro em estilo art noveau é uma das maiores preciosidades, já que a dramaturgia sempre foi uma tradição dos jesuítas. O jurista Rui Barbosa escolheu o Colégio Anchieta para educar o seu filho, assim como o fez Euclides da Cunha. O poeta Carlos Drummond de Andrade foi aluno desse estabelecimento de ensino.

Foi ainda no Colégio Anchieta, em um discurso célebre como paraninfo, que Rui Barbosa se reaproximou da Igreja. O seu discurso teve uma repercussão extraordinária em todo o país, sendo considerado uma de suas obras-primas, sua profissão de fé e testamento político. Em 1922, a reitoria do Colégio Anchieta comunicou que deixaria de receber, no ano seguinte, alunos leigos internos e passaria a se dedicar tão somente na formação de jovens religiosos e futuros jesuítas.

A justificativa foi a falta de padres docentes que vinham em sua maioria da Europa. Tendo o corpo discente formado apenas por aspirantes a uma vida eclesiástica, essa foi a fase mais interessante do Colégio Anchieta. Paradoxalmente, quando o colégio se dedica apenas a formação de jovens religiosos, quando a fé deveria suplantar a ciência, ocorreu justamente o contrário. Nunca a ciência e o academicismo estiveram tão presentes nesse estabelecimento de ensino.

Conferencistas nacionais e internacionais realizaram seminários sobre física, matemática, ética, metafísica, cosmologia, lógica e filosofia. Além do idioma nacional, os trabalhos dos alunos eram apresentados em latim e em grego. Na atividade esportiva, o futebol chegou primeiro ao Colégio Anchieta antes de se estender à elite da cidade.

No memorial do colégio existe uma antiga chuteira inglesa e vários tipos de bola quando teve início esse esporte. Além do futebol, os alunos praticavam basquetebol e jogos de força e agilidade como saltos, dardo, disco e esgrima. Os passeios higiênicos nas chácaras circunvizinhas depois de um rígido período de provas fazia parte do cotidiano dos alunos. Os exercícios militares eram uma constante por ter sido Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, militar antes de se tornar padre.

Em 1942, quase 20 anos depois de ter deixado de matricular alunos leigos, o Colégio Anchieta passa a aceitá-los novamente. Em março de 1955, foram instalados os cursos superiores de filosofia, matemática, física, letras clássicas e pedagogia, denominando-se Faculdade Civil de Filosofia, Ciências e Letras Nossa Senhora Medianeira. Cinco anos depois se ampliaram os cursos de graduação oferecendo história, ciências sociais e letras neolatinas.

No entanto, anos depois, a faculdade se transferiu para São Paulo e as irmãs dorotéias assumiram alguns dos seus cursos de graduação. Objetivando preservar a memória do colégio, o reitor Toninho Monnerat idealizou o Memorial do Colégio Anchieta. Foram selecionados objetos, móveis, indumentárias, imagens e documentos, expostos em várias salas do memorial, que representam uma pequena parte de seu riquíssimo acervo.

Merece destaque a preciosíssima biblioteca e notadamente a Capela Mater Pietatis que era uso exclusivo dos padres jesuítas e dos noviços. A capela, em estilo gótico é toda em madeira trabalhada em delicada marchetaria. Na visita pode-se igualmente apreciar a belíssima arquitetura do Colégio Anchieta como as escadas em peroba, de puro encaixe, não tendo levado nenhum prego. Essa obra de arte deve-se ao imigrante espanhol Francisco Vidal Gomes que executou gratuitamente a obra no colégio dos jesuítas como um tributo de fé.

O memorial está aberto à visitação e pode ser feito mediante pagamento de uma taxa simbólica para a manutenção do espaço. Vale a pena conferir!   

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