A presença libanesa em Nova Friburgo

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Durante muitos séculos, parte dos continentes asiático e africano foram dominados pelo império turco-otomano. Com o fim da Primeira Guerra Mundial esse império se desfaz dividindo-se em diversos países. Professando a fé islâmica, os turcos perseguiam os árabes cristãos e por isso, prevaleceu a emigração de libaneses que seguem o cristianismo. O destino principal foi a América e se estabeleceram em países como os Estados Unidos, o Brasil e a Argentina.

A chegada dos libaneses ao Brasil e em Nova Friburgo foi a partir do último quartel do século 19. Como viviam sob o domínio turco-otomano, os passaportes dos libaneses eram expedidos por esse governo, e por isso, a população os chamavam de turcos. Entrevistei Eliane Abicalil de Moura, descendente de uma dessas famílias libanesas que imigraram para o Brasil e se estabeleceram Nova Friburgo, no século passado.

O patriarca foi Naum Bechara Abicalil que chegou ao Brasil com a esposa Marie no ano de 1913, se estabelecendo no município de Duas Barras. Um dos filhos do casal Youssef Jorge Abicalil se casou em Nova Friburgo com Haiffa, cuja família havia residido anteriormente em Santa Maria Madalena. Assim como os imigrantes de outras nacionalidades, os libaneses uniram-se geralmente entre os seus conterrâneos, muitas vezes entre primos, ou com o matrimônio previamente arranjado entre as famílias.

Youssef e Haiffa fundaram a Casa Libanesa em 1920, que foi a primeira loja na Avenida Alberto Braune, mudando três vezes de endereço. Haiffa costurava os vestidos que vendia na loja e ainda era instrutora de cursos de corte e costura. A filha do casal Nair Abicalil de Moura, juntamente com o marido Genserico Moura, deu continuidade ao negócio dos pais. A família preserva muitos utensílios antigos da loja como a máquina de encapar botão, a metragem de madeira, o pendurador de roupas, o balcão, o lay out e o modo de disposição das mercadorias.

Mascatear era a profissão exercida pela maior parte dos libaneses. Posteriormente se sedentarizaram abrindo estabelecimentos comerciais. No centro de Nova Friburgo pode-se afirmar que quase metade do comércio era de imigrantes libaneses. De início, não havia especialização dos artigos e vendia-se de tudo em suas lojas, como foi o caso da Casa Libanesa.

Outra característica dos libaneses e árabes é a escolha da medicina como profissão. Foram muitos os médicos libaneses em Nova Friburgo, participando inclusive da fundação da Santa Casa de Misericórdia. Em 19 de julho de 1919, foi criado o Centro Líbano-Friburguense com o intuito de irmanar os libaneses, prestar auxílio mútuo e promover a sociabilidade entre os seus pares.

Na década de 1930, do século 20, foi criado o clube Sírio e Libanês substituindo o Centro Líbano-Friburguense. Era localizado na Praça Getúlio Vargas e promovia a sociabilidade entre os seus associados e notadamente atividades esportivas, criando um time de futebol.

Atualmente a comunidade libanesa de Nova Friburgo se organiza em torno Associação Cultural Líbano-Friburguense que promove em datas comemorativas uma missa maronita, normalmente na capela de Santo Antônio, em português e em árabe. Conforme o levantamento realizado por Leyla Lopes são essas as famílias libanesas que se estabeleceram em Nova Friburgo: Abib, Abdo, Abicalil, Abdala, Abinasser, Abirachid, Adip, Abi-Râmia, Aboumurad, Abbud, Abrahão, Alcoury, Alexandre (Skandar), Ailmel, Amim, Assad, Assaf, Assef, Assum, Ayd, Auad, Aucar, Ayub, Aziz, Badin, Barucke, Boutros, Baduhy, Bedran, Bechara, Boechen, Boulos, Buaiz, Beyruth, Calil, Cannan, Carim, Chaloub, Cheade, Chible, Chicre, Chini, Chequer, Caled, Coury, Cury, Daher, Deccache, Dagfal, David, Derzi, Dib, Elias, Estefan, El-Jaick, Fadel, Farah, Feres, Ferreira (o nome original é Haddad, aquele que trabalha com o ferro), Francis, Gandur, Gastim, Gazé, Gazel, Gervásio, El-Haber, Harb, Gibran, Helayel, Haddad, Hissi, Ibrahim, Iunes, Jabour, Jamal, Jana, Japor, Jasbicke, Jorge, Kazan, Keidh, Jadah, Khaled, Kharan, Koury, Lopes (ou Lêpus), Mansur, Mattar, Miled, Miguel, Mussalém, Mussi, Marum, Nacif, Nader, Neder, Name, Namen, Nasser, Noé, Osório, Pedro (o mesmo que Boutros), Quinan, Rafidi, Râmia, Saad, Saade, Sada, Sader, Saleme, Salles, Salomão, Salim, Sarruf, Sayech, Suaid, Simão, Estefan, Santos(ou Acoubb), Tanis, Tanusse, Theme, Tupogi, Tanure, Zarife e Ziede.

A Casa Libanesa, atualmente na Praça Getúlio Vargas, próximo à esquina com a Rua Monsenhor Miranda, é o comércio mais antigo de Nova Friburgo em termos de tradição. Uma viagem no túnel do tempo já que mantém as mesmas particularidades da loja como há 100 anos. Outro patrimônio da Casa Libanesa é a dona Nair Abicalil. Ainda costurando os vestidinhos de festa junina com restos de tecidos nos brinda com deliciosas histórias sobre a velha Nova Friburgo.

  • Foto da galeria

    A chegada dos libaneses em Nova Friburgo foi a partir do final do século 19

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    Comércio de um libanês em Friburgo. Acervo Fundação D. João VI.

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    Dona Nair Abicalil ainda costura os vestidinhos de festa junina.

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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