Pequenos produtores de lei

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

O fracasso das chuvas. É assim que os pequenos produtores rurais se referem ao período de seca e estiagem no município de São Sebastião do Alto. Quando ainda era os Sertões do Macacu foi desbravada aproximadamente na década de 70 do século 18, com a chegada de faiscadores atraídos pelo ouro de aluvião. Suas terras são banhadas por dois grandes rios, o Grande e Negro, cujo encontro das águas na localidade de Guarani dá origem ao Rio Dois Rios. Com o esgotamento do ouro, os garimpeiros passaram a dedicar-se à lavoura branca e posteriormente ao cultivo do café.

A inexpugnável floresta foi derrubada para dar lugar a milhares de pés de café cobrindo os morros da região. Com a crise do setor cafeeiro, principalmente pelo esgotamento das terras, os fazendeiros migraram para a pecuária. A atividade econômica da Região Serrana gira em torno da produção de leite e subsidiariamente da lavoura de legumes e verduras.

Com o desmatamento da floresta para o plantio do café reduziu-se o volume de chuvas na região e isso interfere não só na lavoura como igualmente na produção do leite. No inverno, período da seca, não existe pasto nos morros e os produtores rurais necessitam adquirir ou fabricar a alimentação para o gado, aumentando o custo da produção que não pode ser repassado aos consumidores.

No município de São Sebastião do Alto visitei a Fazenda Santo Antônio da Tocaia e conversei com os proprietários Sílvio Azevedo Cardoso e seu filho Adilson Marinelli Cardoso, produtores de leite. Sílvio Cardoso disse que a chuva tem “fracassado” cada vez mais. Nessa propriedade se tira leite apenas uma vez ao dia, com uma produção de 80 litros diários. No período das chuvas são retirados 150 litros diariamente e quase não há gastos com a alimentação dos animais, pois eles se alimentam nos pastos da fazenda.

Na estiagem, quando os morros estão completamente secos e sem pasto planta-se capim-napier e cana-de-açúcar para a alimentação do gado. Mas precisam complementar essa alimentação com farelo de milho e soja. Perguntei sobre o gado que criam e me informaram que lá trabalham com o Girolando. Existe no Brasil uma diversidade de raças bovinas, a Girolando, Holandesa, Gir, Jersey, Guzerá, Pardo-Suíço, Simental e Simbrasil.

Estima-se que cerca de 50% do rebanho leiteiro brasileiro seja formado por animais oriundos do cruzamento entre Gir e Holandês, base do Girolando. Essa raça bovina consegue se adaptar facilmente a diferentes sistemas de produção e de temperatura. Minas Gerais é um dos principais polos dessa raça e o principal produtor, responsável por 27% do leite produzido no país, seguido pelo Rio Grande do Sul e Paraná.

Na Região Sudeste, o Estado do Rio de Janeiro se encontra em terceiro lugar na produção de leite. A seguir, fui ao sítio Boa Vista do sr. Luiz Cerbino Latini, um pequeno produtor de leite no Vale do Muribeca. Ele possui apenas dez vacas, pois é a quantidade que pode prover. Na alimentação do gado, além da cana e do capim, adiciona-se silagem com milho e soja com polpa cítrica. Essa polpa é produzida a partir do bagaço de laranja, resíduo das fábricas de suco dessa fruta.

A polpa cítrica é usada na complementação do milho e tem 80% do valor energético desse grão. Percebi que a soja é o produto mais caro para os pecuaristas e dão às vacas para comer com muita parcimônia. A soja está tão cara que muitos tem substituído esse produto por farelo de algodão. Lembrando que o sal entra também na alimentação. Para complementar a renda o sr. Latini cria o porco macau. Trata-se de um suíno de pequeno porte que têm origem na Índia de onde trouxeram os portugueses. É considerado o verdadeiro porco caipira. Este porco se encontra em risco de extinção no Brasil em razão de não possuir valor comercial, já que o porco macau possui muito mais gordura do que carne.

porco pirapetinga também perdeu espaço ficando restrito a criação de subsistência. Como estudos recentes indicam que a banha de porco não é prejudicial à saúde como se supunha antigamente, o mercado de banha de porco vem crescendo e os porquinhos macau e pirapetinga, produtores de muita banha, podem voltar a ser economicamente viáveis.

Esses produtores rurais dependem das cooperativas que desempenham papel importante na organização da produção, no processamento e na comercialização do setor. O protagonismo das cooperativas está fortemente ligado ao desenvolvimento da cadeia produtiva de leite e seus derivados. Não fossem as cooperativas, os pequenos proprietários rurais não teriam como sobreviver da produção de leite. Assim, o cooperativismo desempenha um papel importante na inclusão social, na geração de renda e emprego, representando uma solução fundamental para o desenvolvimento dessa atividade.

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    Fazenda Santo Antônio da Tocaia. Sílvio Cardoso e seu filho Adilson Marinelli Cardoso

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    Luiz Latini, pequeno produtor de leite no Vale do Muribeca

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    Na estiagem os morros ficam secos e sem pasto

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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