O palacete da Vila Amélia

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, por meio do Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente, ajuizou uma ação civil pública de proteção e recuperação do patrimônio histórico-cultural contra a Associação Friburguense de Amigos e Pais do Educando (Afape) e o município de Nova Friburgo. Um inquérito civil foi instaurado para apurar as condutas dos réus passíveis de responsabilização por danos ao palacete histórico da Vila Amélia, tombado provisoriamente.

O Ministério Público destaca que o palacete configura patrimônio reconhecido pelo seu valor histórico-cultural. Provas levantadas demonstram que o imóvel vem sendo negligenciado tanto pela Afape, como pela prefeitura. O casarão encontra-se  sem qualquer conservação e tem sido objeto de depredação, inclusive com atividades ligadas ao tráfico de entorpecentes. Na ação, o Ministério Público requer que a justiça determine que os réus apresentem projeto de restauração e execução de obra no respectivo imóvel, no prazo de 30 dias, a contar da decisão judicial em primeira instância. Exige, outrossim, a recuperação integral do imóvel, preservando suas características originais e dando-o destino útil, tendo como base a adequação à política local de fomento à preservação do patrimônio histórico e cultural.

Finalmente, requer a concessão de medida liminar para que os réus sejam proibidos, até a publicação da sentença de mérito, de praticar qualquer ação ou omissão tendente a destombar, suprimir, destruir, mutilar ou descaracterizar, total ou parcialmente, direta ou indiretamente, o patrimônio cultural e arqueológico.

O palacete da Vila Amélia foi construído pelo português Antônio Alves Pinto Martins, nascido em 1862, no Minho, em Portugal. Filho de lavradores veio para o Rio de Janeiro com 11 anos de idade e trabalhou durante quatro décadas como comerciante. Casou-se com Carolina Gomes da Rocha, com quem teve oito filhos. Porém, em 1914, aos 52 anos, Antônio Martins teve um derrame e decidiu mudar com a família para a salubre cidade de Nova Friburgo. Adquiriu uma chácara às margens do Córrego do Relógio e explorou-a comercialmente. A única menina entre os seus oito filhos, Amélia, daria nome a chácara dos Martins, Vila Amélia.

Antônio montou nas proximidades um quiosque para a venda de laticínios como leite, queijo e manteiga, verduras, legumes, frutas frescas e em conserva, mel, linguiças de porco por ele defumadas e vinho. Futuramente seria conhecido como Mercado da Villa Amélia. Na chácara havia um pomar com pereiras, macieiras, goiabeiras, canforeiras, jabuticabeiras, laranjeiras, caquis, tojos, bananeiras, pita e nêsperas, cujas mudas vieram de Portugal.

Na várzea plantava-se hortaliças, legumes e aspargos. No meio de uma enorme touceira de hortênsias se erguia um majestoso e imponente sobreiro, árvore que trouxe de Portugal e no qual tirava a cortiça para fazer as rolhas das garrafas de vinho que produzia. Havia uma outra árvore na propriedade em que Martins fazia uso para fabricar palitos. Construiu na chácara uma belíssima residência para a família, sendo o palacete inaugurado em 18 de maio de 1916, ficando conhecido na cidade como a mansão da Vila Amélia.

À frente da residência havia um lago com peixes, um chafariz e flores como rosas, margaridas, azaléas, orquídeas, palmeirinhas, cravos e boca de leão ornamentavam o seu entorno. Havia dentro da residência uma imponente escada de pinho de riga e na parede um vitral colorido, vindo da Europa, que ocupa toda a altura da casa. As louças, jarros d’água, bacias e saboneteiras eram em faiança portuguesa e tinha o monograma AM, de Antônio Martins, assim como as toalhas, guardanapos e roupas de cama.

O Córrego do Relógio era circundado por videiras plantadas por Antônio Martins que se entrelaçavam sobre uma pérgula de ferro. Os veranistas que passeavam pela Praça do Suspiro geralmente percorriam as margens do córrego apreciando as videiras até alcançar a chácara para adquirir o famoso mel. Martins trouxe de Portugal a árvore que florescia a flor de tojo, cujo pólen servia para o seu apiário.

O mel que Antônio Martins produzia ganhou uma medalha de ouro em Bruxelas, a Medalha Mel Flor de Tojo. Antônio Alves Pinto Martins faleceu dia 25 de junho de 1924, com 62 anos em sua residência na Vila Amélia. Já a matriarca da família faleceu em 1945, com 82 anos de idade. A partilha do palacete e da chácara entre os herdeiros foi muito tensa e litigiosa. A atividade econômica da chácara e a comercialização de seus produtos deu origem a atual feira que funciona no bairro Vila Amélia.

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    O palacete foi inaugurado em 1916, ficando conhecido como a mansão da Vila Amélia

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    A comercialização dos produtos da chácara deu origem a feira da Vila Amélia

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    Os Martins e Antônio, o patriarca, ao centro.

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