Heródoto e Paulo Azevedo: o fim de uma era política

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Eles foram grandes adversários políticos durante mais de uma década a partir de meados do século XX: o liberal Heródoto Bento de Mello e o populista Paulo Azevedo. Com estilo e representação diferentes, dividiram a cidade deixando pouco espaço para outros candidatos ao governo municipal. Anteriormente, Nova Friburgo teve importantes prefeitos, a exemplo de Galdino do Valle Filho, Dante Laginestra, Feliciano Costa e Amâncio Mário de Azevedo. Heródoto Bento de Mello entrou para o executivo municipal de uma forma conturbada. Era vice-prefeito na chapa de Vanor Tassara Moreira, escolhido pela UDN por ser o filho do carismático Dr. Dermeval Barbosa Moreira, conhecido como o médico dos pobres. Vanor e Heródoto desde a campanha eleitoral trocavam rusgas e animosidades: Vanor declarou que, se eleito, Heródoto jamais colocaria os pés na prefeitura. Vanor venceu com estreita margem de votos o empresário Álvaro de Almeida, e curiosamente, Heródoto, como vice, teve mais votos do que Vanor. Naquela época, o prefeito e o vice tinham votações separadas. Na década de 60 do século XX, o medo do comunismo era expressivo e o já prefeito Vanor tinha bom relacionamento com representantes dos sindicatos têxtil, metalúrgico e ferroviário, além dos grupos de esquerda do município, escolhendo inclusive para líder do governo na Câmara o vereador comunista Francisco Bravo.

Essa circunstância dentro de um contexto nacional de repressão ao movimento comunista começou a chamar a atenção sobre o então prefeito. Parece-nos que a gota d’água foi o fato de Vanor ter apoiado uma paralisação das fábricas metalúrgicas e têxteis no dia primeiro de abril de 1964, como resistência ao golpe militar. Vanor, por pressão da direção do Sanatório Naval, foi forçado a renunciar ao cargo de prefeito. O vice Heródoto assume o seu lugar e desde então se torna um expoente político local. Já Paulo Azevedo inicia sua carreia política ancorado no seu tio, Amâncio Mário de Azevedo, exercendo cargos públicos durante o seu governo. Paulo Azevedo foi eleito prefeito pela primeira vez em 1988 e torna-se o principal adversário político de Heródoto. No entanto, a radicalização entre Heródoto Bento de Mello e Paulo Azevedo ocorreria quando Azevedo faria um sucessor depois de seu mandato como prefeito. Heródoto aponta irregularidades legais na sucessão, entra na Justiça e vence o processo judicial. Como segundo colocado, Heródoto governa por dois anos, de 1994 a 1996. Esse episódio não agradou a população e favoreceu Paulo Azevedo, que seria reeleito em 1996, com mais de vinte mil votos de vantagem sobre Heródoto.

Nessa fase, Paulo Azevedo governa isolando-se em seu sítio, raramente despacha na prefeitura e não era visto em público. Mesmo os seus assessores mais diretos tinham dificuldade em ter acesso à ele. Paulo Azevedo tomou medidas administrativas acreditando que nada abalaria o seu carisma e popularidade. Privatizou um serviço público essencial: o abastecimento de água. Ao privatizar esse serviço, provocou uma enorme onda de protestos no município, em todas as classes sociais, já que o aumento da conta d’água foi significativo. Esse fato acarretou a sua ruína política afastando-o, desde então, da vida pública. A eleição de Saudade Braga, com dois mandatos consecutivos, parecia ter tirado Heródoto e Paulo Azevedo do cenário político. Quando não se esperava mais que Heródoto Bento de Mello se candidatasse a administração municipal, em razão de sua avançada idade, com mais de 80 anos, surge ele no cenário político tentando passar um estilo jovial, usando de forma emblemática um chapéu no intuito de driblar a imagem de político provecto. Mas não foi o marketing que o elegeu: foi um vácuo político que existia no município, no qual não havia muita opção de candidatos.

Nessa ocasião, Paulo Azevedo manteve o seu estilo misantropo, fixando-se em seu sítio e raramente aparecendo em público. E assim, Heródoto Bento de Mello retorna ao executivo municipal, lembrando Getúlio Vargas quando volta ao poder e a velha canção do “bota o retrato do velho”. Ambos não deixaram herdeiros políticos, e parece ter sido essa a intenção. Heródoto Bento de Mello e Paulo Azevedo tiveram algo em comum: a interrupção de suas carreiras políticas de forma trágica. Heródoto sofreu um acidente numa estação de trem, na Suíça, e a sua lenta convalescença impossibilitou o término de seu mandato como prefeito. Já Paulo Azevedo foi vítima da tragédia em 2011, que se entendeu por todo o município. O desabamento de um morro sobre a sua residência, em seu sítio, provocou o seu falecimento. Foi o fim de uma Era política.

Publicidade
TAGS:
Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.