Questão de peso

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Tirando o peso da consciência, posso subir na balança sem ficar vermelho de raiva ou de vergonha

Sendo vasta a minha ignorância no assunto, como de resto em quase todo o resto, fiquei espantado ao saber que um quilo não estava mais pesando um quilo. Aliás, a própria palavra já não é mais a mesma, visto que quase todos os nossos restaurantes servem comida a kilo, quando não à kilo,  metendo a colher na gramática e errando duas vezes no mesmo prato. Mas, contanto que a comida seja boa e o preço razoável, quem vai ligar para a gramática?

Voltemos ao quilo, também conhecido como quilograma, kg para os mais íntimos. Ao ler que o dito cujo teve seu valor diminuído, fiquei muito espantado, pois se mil gramas já não valem mais mil gramas, em que poderemos confiar neste mundo? Como se perguntava Camões, “onde pode acolher-se um fraco humano”, sem que “se arme e se indigne o Céu sereno contra um bicho da terra tão pequeno?”

Por outro lado, refletindo mais profundamente, concluí que talvez a notícia não fosse tão má. Toda moeda tem dois lados, às vezes ambos valiosos, como é o caso do dólar, e não é o caso do real, sem falar no peso venezuelano. E a vantagem que vi na notícia é de especial interesse para as mulheres. Porque, veja se não tenho razão, se um quilo pesa menos do que um quilo, uma senhora que se ache gorda por fazer o ponteiro da balança subir vertiginosamente para o número setenta, talvez na verdade não tenha mais do que sessenta e nove e novecentos. A diferença é pequena, mas vale muito para a vaidade feminina. Se uma mulher cisma que está gorda, é melhor não discordar, mesmo que ela esteja com os ossos da costela furando o vestido.

Bem pesadas as coisas, acho que está na hora de contar a verdadeira história do emagrecimento do quilo. Como sabe o douto leitor, todas as medidas internacionais têm um valor definido pelo Sistema Internacional de Pesos e Medidas. O metro, por exemplo, é “o trajeto percorrido pela luz no vácuo durante um intervalo de tempo de 1/299 792 458 milésimo de segundo”. A definição é tão simples, clara e sintética que qualquer menino de quinta série entende.

A do quilograma é ainda mais fácil de compreender, não precisa ser nenhum Einstein: “massa de um cilindro de quatro centímetros de platina e irídio”. Todas essas preciosidades ficam guardadas a sete chaves em Paris. E não é que, embora mais protegido do que se tivesse mil anjos da guarda em volta, o tal do quilo conseguiu livrar-se de cinquenta microgramas em apenas cem anos! É o que dizem os cientistas, que se viram obrigados a rever o valor de várias unidades, para que elas não continuassem mentindo aos seres humanos, especialmente à parte feminina da espécie, que dá enorme importância a questões de pesos e dimensões.

Eu, por mim, nem me preocupo tanto com o assunto. Sei que o passar dos anos tem me acrescentado uns quilinhos a mais do que o desejável. Mas, tirando o peso da consciência, posso subir na balança sem ficar vermelho de raiva ou de vergonha. Ainda mais agora, que estou descontando cinquenta microgramas de cada quilo que as balanças dizem ser meu!

Publicidade
TAGS:

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.