Peter Bucsky compartilhou texto sobre a vida uma semana antes de morrer

Mensagem foi enviada a vários amigos. Autor disse que empresário ficou profundamente comovido
segunda-feira, 26 de março de 2018
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)
Foto de capa
Peter Bucsky: gentileza e alegria em pessoa (Arquivo AVS)

Amiga da família Bucsky por muitos anos, Myriam Kato, que trabalhou no hotel como recepcionista em 1977 e anos depois atuou como gerente,  disse que o empresário Peter Bucsky era um apaixonado pela vida, tinha ótima saúde e se exercitava sempre, a ponto de às vezes ir trabalhar de bicicleta. Ela conta que, no último dia 17, recebeu de Peter um texto de autoria do colunista Wanderson Nogueira, publicado em A VOZ DA SERRA naquele mesmo dia (veja a íntegra abaixo).

“Evitar, deixar pra lá... É assim que se perde a vida... E só há um jeito de se perder a vida: vivendo! Vivendo caminhamos para a morte sem perceber, e, mesmo nem sempre vivendo de fato, ainda sim caminhamos para a morte. Perderemos quem amamos e quem nos ama também nos perderá. É a lei da vida! É a regra do jogo! Assim, seria aconselhável não perder sequer um dia! Um dia! Um dia de cada vez! Iluminando alguém e se deixando ser iluminado por quem te salva sem que peça para ser salvo ou que tenha a intenção de ser santo só por estar te salvando!”, diz um trecho.

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Wanderson comentou que, por coincidência, encontrou Peter casualmente no dia 18, e o empresário lhe disse que o texto o comovera profundamente, e por isso o enviara a vários amigos.

“Um dia - um sentimento”

Texto de Wanderson Nogueira publicado em A VOZ DA SERRA que Peter compartilhou com vários amigos no último dia 17:

“O tempo passa e no furor das horas nos distraímos. Simplesmente nos distraímos no compasso e descompasso da diversão de chorar e sorrir. Conversamos bastante, mas pouco confessamos nossos segredos mais íntimos. Os sentimentos. As verdades que zombamos não acreditar, apesar do punhado de certezas que se desenham ao longo da história que se estende à nossa frente e diz: ‘Você sabe o que fazer. Você sabe o que precisa ser feito. Por que se perguntar tanto, se você já tem as respostas?’

Caçadores de respostas mais do que de aventuras frutíferas! Colecionadores de futilidades que fogem rapidamente. Há futilidades pertinentes, mas raramente serão no fim de tudo importantes. Eu não gostava de azeitonas até experimentá-las e descobrir o quanto são deliciosas! Perdi muito tempo não comendo azeitonas, simplesmente por supor que não eram para o meu paladar. Na verdade a gente perde muito tempo supondo. Evitar, deixar pra lá... É assim que se perde a vida... E só há um jeito de se perder a vida: vivendo!

Vivendo caminhamos para a morte sem perceber, e, mesmo nem sempre vivendo de fato, ainda sim caminhamos para a morte. Perderemos quem amamos e quem nos ama também nos perderá. É a lei da vida! É a regra do jogo! Assim, seria aconselhável não perder sequer um dia! Um dia! Um dia de cada vez! Iluminando alguém e se deixando ser iluminado por quem te salva sem que peça para ser salvo ou que tenha a intenção de ser santo só por estar te salvando!

Quando alguém dá a sua alma e distribuiu seus milagres – aceite de bom grado e valorize isso! Não deixe chegar um dia em que sinta falta disso, simplesmente porque você foi tolo e dispensou a glória de ser amado. Não deixa também chegar um dia em que perceba que não foi tolo o bastante por glorificar um rosto, mesmo que não te reconheça glorifique um rosto, porque faz bem insistir em ser milagre para alguém.

Um dia você percebe que pode estar solitário no meio da multidão, mas um dia você percebe que estar sozinho nem sempre significa que você está solitário. Ninguém nasceu para ser solitário. O desenho de nossas vidas se preenche com outras vidas que nos dão a garantia de que o mundo é bom.         

Não é acaso saber que na vida nada acontece por acaso. É erro desconsiderar o que os fatos nos falam. É tolice desviar do que os encontros nos ensinam. Cada fato é um convite a ver além do que se vê para prestigiar o milagre. Cada encontro é um apelo a mais para imergir no sagrado e se confundir iluminado na luz que nos cerca.   

Um dia, parando para ver a lua é que avancei. Acima dos meus olhos, tudo aos meus pés. O futuro não pode cadenciar nossas escolhas. Só temos o presente com as lições do passado. Temos um dia! Não temos nada nas mãos e ainda que nada em mente - os anseios do coração. Mas esses anseios não podem nos cegar para este um dia que ocorre e passeia pelos nossos passos! O dia não carrega nossos passos, mas segue ainda que não sigamos. Acontece.   

Temos o direito à tristeza, tanto quanto à alegria. Temos o direito de dar as mãos e de repente abraçar uma alma. Temos o direito de sentir o coração vazio ou apertado para saber que ainda temos coração. E, quando descobrimos essas coisas, encontramos de certa forma alguns porquês: estamos vivos agora, talvez tenhamos um mês, um ano, uma década ou mais, mas de certo é que temos um dia. Um dia para sentir. Um dia para fazer o que tem que ser feito. Um dia para dizer o que se quer dizer e se deixar ouvir o que se quer ouvir. Um dia para convidar alguém para correr nas colinas. Um dia para trazer o sol para as ruas de seus afazeres. Um dia para se derreter na chuva. Um dia para queimar na lua. Um dia para declarar o que tem que ser dito, pois a vida e o tempo são conjunções complexas, mas não complicadas, quando você sabe que tem um dia.

Há perigos no amanhã, há riscos no caminho, há incertezas quando se trata de dois ou mais corações, mas quando se tem um dia, você valoriza cada fato, porque aprecia melhor tudo, aprecia mais detalhadamente o dia e tudo que nele se compõe, se constrói e se desfaz. Você pode... Um dia... Antes que seja tarde. Um dia…”

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