Cilindrada: vamos falar direito?

Márcio Madeira da Cunha

Sobre Rodas

O versátil jornalista Márcio Madeira, especialista em automobilismo, assina a coluna semanal com as melhores dicas e insights do mundo sobre as rodas

sábado, 15 de julho de 2017

Mesmo os mais leigos dos leitores certamente já ouviram algumas expressões associadas à cilindrada de motores, tanto em moto quanto em carros. “Ah, esse motor é 2.0”, ou “essa moto tem 500 cilindradas” (SIC). Mas o que, exatamente, significa a cilindrada de um motor?

Falando da forma mais leiga possível, a cilindrada faz referência ao “tamanho” do motor. Sendo um pouco mais específicos e precisos, podemos dizer que ela indica a capacidade volumétrica do engenho, ou, colocando de forma mais didática, qual o volume deslocado pelo somatório de seus pistões enquanto sobem e descem, entre as explosões.

Parece complicado, mas não é não. Motores a explosão convencionais possuem um ou mais cilindros. A imensa maioria dos carros em circulação no Brasil é equipada com motores de quatro cilindros, ao passo que a maior parte das motos são monocilíndricas. Esse número, no entanto, pode variar bastante de veículo para veículo. Cada cilindro abriga uma câmara de combustão, onde um pistão, de superfície específica, sobe e desce percorrendo um curso igualmente específico. A área da superfície do pistão multiplicada pelo curso que este percorre nos dá o volume deslocado por aquele cilindro. Então, cientes de que, dentro de um mesmo motor, todos os cilindros são idênticos, basta multiplicar este dado pelo número de cilindros para que saibamos o volume total deslocado pelo motor em funcionamento. Esta será a sua cilindrada.

Diante do exposto, fica evidente o motivo pelo qual afirmar que um motor possui determinado número de cilindradas representa um equívoco, ainda que disseminado até mesmo em caríssimas peças de publicidade ou na narração de eventos esportivos. Fazer isso é tomar a dimensão pela unidade de medida, equivalendo, por exemplo, a dizer que um muro possui “três alturas”, em vez de afirmar que ele tem três metros de altura. Assim, portanto, o correto é afirmar que o motor de uma moto tem 150 centímetros cúbicos (cc) de cilindrada, caso o volume interno do fluxo de seu pistão seja equivalente a 150 ml.

O mesmo vale para os carros, logicamente. Mas por que então dizemos 1.0, 1.6 ou 2.0?

Simples de novo. Se um centímetro cúbico equivale à milésima parte de um litro, e se os motores dos carros são geraralmente maiores que os das motos, faz mais sentido dizer que a cilindrada de um motor corresponde a 1.0 litro do que a mil centímetros cúbicos. Ou 1.6 litro do que 1600cc, e por aí vai.

Por sinal, especialmente aqui no Brasil, essa mágica definição (1.0, 2.0, 3.0) parece dizer tudo que uma pessoa precisa saber sobre a potência ou o consumo de um veículo. Mas a realidade, claro, é muito mais complexa, e esta é apenas uma de infinitas variáveis a determinar a personalidade e as capacidades de um motor. Possivelmente esta herança cultural se deva ao período em que nossos portos permaneceram fechados, e as montadoras costumavam oferecer diversas motorizações para um mesmo modelo, a partir de plataformas idênticas que variavam apenas no tamanho. Assim, claro, um modelo 2.0 tinha mais desempenho (e consumo, dependendo do uso que fosse feito) do que um modelo 1.6 ou 1.0. Mas, quando tratamos de modelos diferentes, e motores de cilindradas não muito distantes, nem sempre o maior será o mais forte.

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