Maconha e vulnerabilidade para psicose

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Será que o uso de marijuana (maconha) pode alterar o cérebro e produzir sintomas típicos de uma psicose (loucura)? Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Montreal no Canadá estudou os efeitos da maconha em jovens procurando ver se seu uso favorecia o surgimento de experiências tipo psicóticas. (Josiane Bourque, Mohammad H. Afzali, Maeve O'Leary-Barrett, Patricia Conrod. Cannabis use and psychotic-like experiences trajectories during early adolescence: the coevolution and potential mediators. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 2017).

As experiências do tipo psicótica são aquelas nas quais a pessoa experimenta percepções aberrantes como alucinações, tem ideias com conteúdo fora do normal e sentimentos de perseguição. Segundo uma das pesquisadoras, Josiane Bourque, ainda que estes sintomas sejam infrequentes nos adolescentes, quando estas experiências são relatadas continuamente, ano após ano, então existe um risco aumentado de ocorrer um primeiro episódio psicótico ou outra condição psiquiátrica. Os achados deste estudo confirmaram que há uma relação entre o uso regular de maconha pelo adolescente e risco de surgir sintomas psicóticos.

Os achados deste estudo têm importância clínica que ajudam em programas de prevenção nos jovens de modo que se estabeleçam estratégias quanto ao consumo de drogas com o fim de tentar retardar e prevenir o uso da maconha na juventude em risco de psicose. Programas de prevenção em escolas no Canadá conseguiram reduzir o uso de marijuana em adolescentes em cerca de 33%. Estudos futuros tentarão demonstrar que a prevenção no uso desta droga pode prevenir alguns casos de psicose.

No estudo acima mencionado foram investigados cerca de quatro mil adolescentes de 13 anos de idade alunos de trinta e uma escolas do ensino médio na região metropolitana de Montreal. Eles preencheram questionários anuais computadorizados para avaliar o uso de drogas e sintomas psiquiátricos. Também foram submetidos a testes de QI, memória de curto e longo prazo, assim como habilidades de controle inibitório (controlar atitudes negativas).

No estudo feito na Universidade de Montreal, primeiro de tudo verificaram que existia um grupo de 8% de indivíduos entre a população geral de adolescentes que tiveram experiências tipo psicose. Em segundo lugar os pesquisadores exploraram como a marijuana consumida por jovens entre os 13 e 16 anos de idade aumenta a possibilidade deles estarem no grupo dos 8% que sofreram sintomas psicóticos. Finalmente examinaram se a relação entre o aumento do uso de maconha e o aumento das experiências tipo psicótica podem ser explicadas pelo surgimento de sintomas de ansiedade ou depressão, ou pelos efeitos do uso da droga sobre o desenvolvimento das habilidades cognitivas.

Os estudos revelam que o uso semanal ou diário de maconha por jovens aumenta em 159% o risco de o adolescente ter sintomas tipo psicóticos recorrentes (que voltam ou se repetem). Foi verificado também que ocorreu um prejuízo na função cognitiva quanto ao controle inibitório dos usuários regulares de maconha do estudo, sendo o controle inibitório a capacidade de impedir ou reter comportamentos automáticos disfuncionais para conseguir condutas apropriadas no contexto da situação. 

Fonte: University of Montreal. "Marijuana and vulnerability to psychosis." ScienceDaily. ScienceDaily, 5 July 2017. https://www.sciencedaily.com/releases/2017/07/170705104042.htm

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