De perto ninguém é normal

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O que é ser uma pessoa normal, mentalmente falando? É a que trabalha muito? A que tem muita emoção, sendo bem sentimental? Ou a que é fria, calculista que canaliza suas energias e sentimentos para a produção material? O que é ser normal como pessoa?

Não podemos responder tais questões sem considerar a natureza humana. Todos os seres humanos possuem um corpo físico com ossos, músculos, órgãos. Há a atividade cerebral que produz a capacidade de pensar, decidir, agir, sentir, escolher, meditar, gravar nas memórias fatos, imagens, sons, pensamentos, ideias. Com o cérebro conseguimos criar, imaginar, ele é o órgão da mente e dela saem pensamentos, sentimentos, escolhas. Nela há a espiritualidade, capacidade de transcender o visível pela imaginação, pela fé, pela contemplação. O mais inteligente animal irracional não consegue todas estas coisas.

Será que o cérebro humano evoluiu a partir do cérebro de um animal, tal como um macaco? Duas reportagens descrevem quatro genes humanos com o nome de SRGAP2A, SRGAP2B, SRGAP2C, e SRGAP2D, localizados em três regiões distintas no cromossomo número 1 (Dennis, M.Y. et al. 2012, “Evolution of Human-Specific Neural SRGAP2 Genes by Incomplete Segmental Duplication”, Cell, 149: 912-922). Parece que eles possuem um papel importante no desenvolvimento do cérebro (Charrier, C. et al. 2012, “Inhibition of SRGAP2 Function by Its Human-Specific Paralogs Induces Neoteny During Spine Maturation”, Cell, 149: 923-935). A descoberta mais importante talvez seja o fato de que três dos quatro genes (SRGAP2B, SRGAP2C e SRGAP2D) são encontrados só nos seres humanos e em mais nenhum outro mamífero, incluindo os macacos.

Pia Melody, em seu livro sobre co-dependência afetiva, diz: “O ser humano é perfeitamente imperfeito”. Paulo, o apóstolo, lutava contra seus defeitos de caráter e dizia: “Vejo uma lei diferente agindo naquilo que faço, uma lei que luta contra aquela que a minha mente aprova”, (Romanos 7:23, linguagem de hoje). Freud dizia que ter saúde mental é conseguir trabalhar e amar. Jesus Cristo ensinou que a saúde do eu tem que ver com a morte do ego narcisista, egoísta, orgulhoso, materialista e que isto o homem não consegue fazer por si mesmo. Os grupos de ajuda mútua baseada nos 12 Passos, Tradições e Conceitos, dizem que a mente não pode curar a mente.

Por natureza nascem os imperfeitos. Um bebê já nasce com o egoísmo nele. Então, todos nós temos lutas com nosso jeito de ser, com defeitos de caráter, não importa se você é uma pessoa pró-ativa, produtiva e de sucesso profissional e econômico. Há defeitos em sua personalidade e necessidade de mais amadurecimento. Neste sentido, ninguém é normal.

Não deveríamos classificar alguém de normal só porque é produtivo no trabalho, porque esta mesma pessoa pode ser fria nos relacionamentos, sofrendo, portanto, bloqueios emocionais. Nem é correto afirmar que uma mulher muito romântica só porisso, é normal, porque pessoas, homens e mulheres, muito apaixonadas podem matar emocional e fisicamente o companheiro, por ciúme doentio, sentimentos de posse, domínio, insegurança, carência afetiva, inveja, etc.

Normalidade é um alvo, um caminho, e, neste sentido não há ninguém que possa dizer: “Cheguei lá!” Talvez os que estão dando bons passos na direção da normalidade mental são os que possuem melhor discernimento e percepção de suas anormalidades e lutam contra elas, com, sem, ou apesar dos medicamentos que, em alguns casos, podem ser necessários temporariamente na ajuda de busca da normalidade.

Saúde mental é coisa de um dia de cada vez. Talvez, só você saiba de algum defeito de caráter que sua riqueza material, posição social, poder empresarial, político, eclesiástico, sua cultura acadêmica não resolveram. Aceitar seu defeito de caráter é o grande primeiro passo rumo à normalidade.

O pior não é ter problemas de caráter, porque todos nós temos, mas fugir da verdade disto, e perturbar as pessoas, a família, a sociedade, a atividade política, eclesiástica e empresarial e estagnar.

Não somos inferiores porque temos lutas mentais pessoais devido aos conflitos na personalidade. Nisto, estamos todos no mesmo barco, sejam religiosos ou ateus, ricos ou pobres, leigos ou do clero. De perto, ninguém é normal.

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O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

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