Memória das indústrias friburguenses – A fábrica Ypu

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Um galpão no Sítio Ypu

Parte 1

Inicialmente gostaria de esclarecer que todos os três artigos sobre a Fábrica Ypu têm como fonte tão somente o depoimento de Brigitte Madeleine Schultz, da família Pockstaller e do memorialista Décio Monteiro Soares, no livro “Terra Friburguense”. Quem sabe essas notas estimulem pesquisadores a se debruçarem sobre fontes primárias e através da análise de uma documentação, e com rigor científico, demonstrem como as indústrias mudaram a história de Nova Friburgo.

Em 10 de julho de 1912, Maximilian Falck juntamente com Willian Peacock Denis inicia em um galpão, às margens do Rio Santo Antônio, a fabricação de ligas, suspensórios e passamarias. Nessa ocasião, a atividade econômica em Nova Friburgo advinha fundamentalmente da agricultura e subsidiariamente do turismo. Sob a razão social de M. Falck & Cia, escolheu-se o nome fantasia de Fábrica Ypu por ter iniciado suas atividades no Sítio Ypu, de propriedade de Maximilian Falck, sua residência de verão.

Há o registro dos primeiros funcionários sendo eles José Gonçalves, Amélia de Carvalho, Adolfo Iaggi, Ezídio Ferreira da Silva Assis, Johannes Friedrich Schimid, Caetano Alves da Cruz, Paul Max Kunzel, Alfredo Barro Beauclair, Júlio Piram e Alice Rodrigues dos Santos. Foram importados da Alemanha 14 teares e a matéria-prima vinha toda de fora do país. Além da dificuldade na importação da matéria-prima o problema era a falta de operários especializados na pacata vila serrana para operar o maquinário importado.

Em razão disso, gradativamente técnicos alemães vão sendo cooptados para trabalhar na indústria e Maximilian Falck recorreu até mesmo a marinheiros alemães da Marinha Mercante detidos no Sanatório Naval como prisioneiros por conta da Primeira Guerra Mundial. Essa mesma guerra beneficiou a fábrica de Falck, pois houve dificuldade na importação de produtos estrangeiros, podendo sua empresa ocupar mais espaço no mercado nacional.

Transcorridos cinco anos desde a sua fundação, a fábrica já tinha 155 operários treinados por técnicos vindos da Alemanha. Nessa ocasião, retirou-se da sociedade Willian Peacock Denis e dois anos depois são admitidos como sócios Julius Arp, proprietário da fábrica Rendas Arp, e João Haasis. Esse último falece no ano seguinte à sua admissão. Na década de 1920, além da passamanaria, a fábrica passa a ter oficinas de tecelagem, trançadeira, tinturaria, engomação, tipografia, cartonagem, oficina mecânica e carpintaria.

Como os suspensórios estavam na moda entre os homens, e a empresa era grande produtora, chegou a ser conhecida como “fábrica de suspensórios”. Em 1924, passa a ser uma sociedade por quotas de responsabilidade limitada, tendo sido admitidos os sócios Hermann Ostman, como gerente geral, Antônio Edmundo Pockstaller, como gerente comercial e Emil Cleff, responsável pela produção. A introdução desses novos sócios será fundamental pois a Fábrica Ypu quase falira nos anos anteriores.

Emil Cleff racionalizou a produção da fábrica e melhorou a qualidade dos produtos. Já Pockstaller incrementou as vendas, introduzindo a marca Ypu em todo o território nacional e reestruturou o escritório da empresa no Rio de Janeiro. Com o desenvolvimento da fábrica aumentou-se o capital sendo admitidos novos sócios como Max Falck Júnior, Max Georges Cleff, filho de Emil Cleff, entre outros membros da família. Com essa alteração, retiram-se da sociedade Julius Arp e Hermann Ostman. Max Georges Cleff passa a ocupar o cargo de diretor possivelmente por influência de seu pai, responsável pelo setor de produção da fábrica.

Em 1938, a Fábrica Ypu transforma-se em sociedade anônima e a razão social passa a ser Fábrica Ypu S.A. Maximilian Falck faleceu em 1944, deixando três herdeiros, Maximilian Falck Júnior, Edith e Cecília Falck, essa última participando da administração da fábrica. Cada um herdou 30% da empresa e os 10% restantes estavam divididos entre os Cleff e um outro sócio.

Na realidade, quem administrava a fábrica eram os Cleff, já que os Falck seguiam o conselho do patriarca Maximilian Falck de deixar a administração da empresa com os primeiros. Maximilian Falck Júnior morreu em um acidente de avião e Edmundo Pockstaller, marido de Edith, não interferiu na administração da tríade formada por Emil e Max Cleff e Oscar Schultz, genro do primeiro. Depreende-se que foram os Cleff, juntamente com o diretor industrial Oscar Schultz, os responsáveis pelo grande crescimento da Fábrica Ypu, tornando-a na potência que chegou a ser durante décadas. Na próxima semana o orgulho “Emil Cleff, o rei do galão.”

  • Foto da galeria

    Maximiliam Falck fundador da Fábrica Ypu

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    Saída de operários da Fábrica Ypu. Detalhe para o emprego de crianças, comum à época

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    Emil Cleff, à esquerda, em momento de descontração

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