A história do Centro Excursionista Friburguense

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Na segunda década do século vinte, industriais alemães como Julius Arp, Maximiliam Falck e Otto Siemens, instalaram indústrias têxteis em Nova Friburgo seguida pela atividade metal mecânica iniciada por Hans Gaiser, algumas décadas depois. Além de terem mudado a história de Nova Friburgo estabelecendo uma ruptura com o passado, colocando o município na Era Industrial, outra grande contribuição dada pelos alemães foi a prática do montanhismo. Nova Friburgo possui inúmeras montanhas, morros, picos e pedras como a dos Três Picos, Pico da Caledônia, Morro do Ronca-Pedra, Pedra Cabeça de Dragão, Pedra Garrafão, Pedra da Babilônia, Pedras da Catarina Pai, Catarina Mãe e Filho, Morro do Gato, Pedra do Chapéu da Bruxa, Pedra da Pirâmide, Pico do Von Veigl, Pedra Janela das Andorinhas, Duas Pedras, Pedra do Porcelet, Pedra do Imperador, Morro da Cruz, Pedra Riscada, Pedra do Cão Sentado, entre outras.

As montanhas de Nova Friburgo são o alinhamento mais importante do Brasil em termos geográficos, com 1.500 quilômetros de extensão. Ficou constatado que os dois cumes mais altos da Serra do Mar são o Pico Maior dos Três Picos e o Pico da Caledônia. O primeiro, situado no Parque Estadual de Três Picos, na região conhecida como Salinas, com 2.366m, e o segundo, com 2.257m, situado no bairro do Cônego. Como os executivos e os técnicos das indústrias alemães tinham a cultura e a tradição do montanhismo em suas cidades de origem, resolveram criar uma associação. Entre os empresários alemães, o que realmente tinha o hábito do montanhismo era Otto Siemens, proprietário da Fábrica de Filó. Antes da fundação do Centro Excursionista já existiam grupos que organizavam subidas às montanhas de Nova Friburgo como os jovens da Associação Católica da Juventude Friburguense e os funcionários da Leopoldina. No entanto, os que tinham como costume o montanhismo eram os alunos internos do Colégio Anchieta, nos denominados passeios higiênicos.

Nos salões do Hotel Central, no dia 20 de julho de 1935, foi criado oficialmente o Centro Excursionista Friburguense. Realizada a eleição do primeiro presidente, foi eleito Friederich Von Veigl. O centro objetivava promover excursões, longas caminhadas e escaladas. Era o segundo clube de montanhismo do Brasil. A Pedra do Imperador, as Catarinas, as Duas Pedras e o Morro de Cruz, eram os passeios mais procurados, por estarem mais próximos do centro da cidade. Em 1902, foi colocada uma cruz no alto do morro que passou a ser conhecido como Morro da Cruz. Já o Cão Sentado ganhou notoriedade na década de 1960 do século 20.

Um dado curioso é que a montanha das Duas Pedras tem esse nome em razão de duas rochas que ficam no sopé dessa montanha. No dia 14 de julho de 1954, escalava o Pico Maior, Hermano Fontão, acompanhado do famoso escalador carioca Silvio Mendes e mais dois outros escaladores, Salomith Smith e Wilson Melo. Os três pertenciam ao Centro Excursionista Brasileiro e essa escalada repercutiu muito entre os excursionistas do Rio de Janeiro. Um encontro nacional da prática desse esporte foi realizado no Hotel Engert que ficava na Rua Alberto Braune.

A partir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando o Brasil lutou contra a Alemanha Nazista, esse conflito teve reflexos no Centro Excursionista Friburguense. Foi um período em Nova Friburgo em que os alemães passaram a sofrer muitas represálias.  Até o industrial Julius Arp teve o seu nome retirado da Praça Paissandu. Para se ter uma ideia do nível de tensão na cidade, quando dois esportistas alemães vindos de Petrópolis se preparavam para escalar foram considerados como espiões que estariam levando rádio transmissor para o Pico do Caledônia. Foram presos, mas liberados quando constataram que apenas tinham entre os seus pertences binóculos e máquinas fotográficas. Os excursionistas alemães de Nova Friburgo, constrangidos, se afastaram do clube possivelmente em razão dessas perseguições. Desde a saída deles, o Centro Excursionista foi cessando suas atividades e permaneceu fechado entre os anos de 1943 e 1952.

Porém, em 1953, João Batista Pimentel, um dos fundadores, procurou Hermano Fontão para reativar o centro e nessa ocasião contou com o apoio do primeiro presidente Friederich Von Veigl. No entanto, entre as décadas de 1960/80, o centro novamente paralisa as suas atividades. No final dos anos 90, Cláudio Debossan retoma a administração do centro e estimula a vinda de novos adeptos do montanhismo. O grupo vem se mantendo até hoje e ganhando fôlego com a entrada de jovens amantes dessa prática esportista. Sem fins lucrativos, desde 1958, o Centro Excursionista Friburguense é reconhecido como de utilidade pública municipal, e em 1997, foi considerado como de utilidade pública estadual, se mantendo com a contribuição de seus associados.  

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    As montanhas de Nova Friburgo são o alinhamento mais importante do Brasil

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    Os fundadores do Centro Excursionista

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    Otto Siemens, na extremidade a direita, proprietário da Fábrica Filó tinha o hábito do montanhismo

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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