Em memória de Hilda e Catarina

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 04 de janeiro de 2018

No Brasil, com o fim da escravidão, ocorreu a desorganização do trabalho nas fazendas de café, acontecimento esse que parece não ter tido impacto no âmbito doméstico. Os escravos, em sua maioria, abandonaram as lavouras de café. Já os que trabalhavam nas casas-grandes, como tinham melhor tratamento, permaneceram junto aos seus senhores e depois patrões. Finda a escravidão, virou uma prática entre as famílias brasileiras as “crias da casa”, cooptando para trabalhar como domésticas meninas pobres e geralmente negras, de municípios interior do estado onde a miséria grassava. As famílias pobres e numerosas enviavam suas filhas numa faixa etária aproximada entre 8 a 10 anos para trabalhar nas residências da elite ou mesmo de famílias de baixa classe média. Como chegavam muito novinhas, acabavam em alguns casos sendo tratadas como pessoas da família. Vejamos um ambiente doméstico, em Nova Friburgo, em princípios do século 20, através da narrativa de Hilda Faria que nos permite conhecer como se dava as relações das crianças com uma cria da casa chamada Catarina. Hilda Faria era de uma família em que os seus pais moravam no bairro das Braunes juntos ou próximos de seus avós, patrões de Catarina. Negra alta, mãos e pés grandes, cabelo carapina, difícil de pentear, sorriso luminoso e coração de ouro foi assim descrita por Hilda. Catarina era carinhosamente chamada de Catirina. A avó de Hilda era descendente de índios e negros e daí talvez resultasse a sua estreita amizade com Catarina, conclui Hilda. Seu avô, imigrante português, observava as duas mulheres estendendo roupa, descascando legumes, desfiando paina, mexendo o doce de goiaba, pêssego ou marmelo nos grandes tachos de cobre. As brincadeiras era correr atrás de patos e galinhas, guerra de travesseiro, esconde-esconde em baixo da mesa e das saias amplas de merinó. Catarina nos seus quase dois metros de altura cobrava respeito da meninada na hora do banho, das refeições e da escola. Por outro lado, livrava-os de enrascadas, facilitava o acesso às uvas maduras do quintal, aos doces e às cocadas. Chamando a atenção dos “pestinhas” Catarina impunha respeito: “Basta agora! O café está coado. Tem cuscuz e batata doce assada.” Sabia que bastava acenar com quitutes para chamar a atenção e garantir a obediência. Em noites enluaradas Catarina contava histórias. Noites de encanto, com reis e rainhas, fadas, duendes, mas igualmente de espanto, medo, com bruxas, ogros, vampiros e almas do outro mundo. De vez em quando a avó de Hilda ia com Catarina visitar a sua filha no Buraco Quente, para os lados do Pico Caledônia, assim era   chamado o bairro de Olaria. Vestindo roupa domingueira, levavam pão, doce de caixeta, balas, roupas e traziam frutas como carambolas, ameixas, araçás e marmelo. A meninada adorava comer marmelo assado e recheado com licor e açúcar. Certa feita Hilda foi castigada na escola, ficando no “banco dos vadios”, ao lado de um menino com orelhas de burro e de uma menina com as mãos vermelhas da palmatória. Tudo isso porque não soube responder que o ovo era da galinha. Catarina indignada, que nunca vira uma cartilha, consolou Hilda: “Criança é coisa de Deus! Castigar uma criança porque não sabe de quem é o ovo da galinha é pura maldade. Cruz Credo”. A sua graça, malícia e esperteza quando inventava artes e representava, fazendo as crianças rirem, ficou na lembrança de Hilda. Quando Catarina faleceu Hilda já era professora. Nas suas memórias, Hilda se recorda da preta grandona, generosa, que ensinava as crianças a cuidar da galinha com gogo, do Iriri com a asa partida e a deixar em paz a pata no seu ninho.

Nas histórias da carochinha aprendeu sobre honra, bondade, coragem, esperteza, sabedoria, mistério, verdade, mentira, o mal e o bem. O seu cabelo carapina onde o pente não entrava, suas mãos grandes e laboriosas que sabiam afagar, seu colo amplo onde as crianças choravam, dormiam ou eram consoladas jamais foram esquecidas pela professora Hilda Faria. 

 

  • Foto da galeria

    Imagem de uma criança semelhante ao castigo descrito por Hilda

  • Foto da galeria

    Nova Friburgo na primeira metade do século 20

  • Foto da galeria

    Uma Nova Friburgo no tempo de Hilda Faria

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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