Mudando paradigmas – A homogeneidade

Hamilton Werneck

Hamilton Werneck

Eis um homem que representa com exatidão o significado da palavra “mestre”. Pedagogo, palestrante e educador, Hamilton Werneck compartilha com os leitores de A VOZ DA SERRA, todas as quartas, sua vasta experiência com a Educação no Brasil.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Uma consequência natural do processo de produção em série é a homogeneidade. Passou-se a dar valor às peças iguais, em oposição ao trabalho artesanal anterior, em que a mão do artesão era percebida em cada objeto feito.

Não foi estranha a aplicação dos conceitos de homogeneidade às demais situações da vida social e de formação da mão-de-obra. Esta homogeneização trouxe a padronização, seja de procedimentos, seja de comportamentos.

Ao lado da produção padronizada de tudo o que dependia da industrialização, passou-se ao processo de padronização, através de cursos, determinando palavras, ações e criando manuais para as empresas.

Este processo foi uma verdadeira camisa-de-força, extremamente despersonalizador, e trouxe consigo, também, a uniformização. No início do século XX, os movimentos eram uniformizados e militarizados; os partidos nazista e fascista eram, todos, uniformizados. A ordem estava intimamente ligada à uniformização e representava, portanto, o progresso. A fala dos políticos brasileiros do início do século XX, dos gabinetes da recém-instalada República, era uma fala positivista, refletindo ordem e progresso, lema da Bandeira Nacional e do positivismo.

Nas escolas, o ensino da história, por exemplo, era ministrado como uma sucessão de fatos e datas, geralmente pontuados pelos conflitos e guerras gerais, indicando o progresso. Além disso, outro elemento da concepção positivista e mecanicista, além da racionalidade cartesiana, era a homogeneidade em cada disciplina e, por outro lado, a separação entre elas, como compartimentos estanques, mostrando uma realidade intelectual bem diferente da vida, embora fosse a realidade da produção. A preparação para a vida era, na verdade, a preparação para um mundo mecânico, matemático, formado por dois eixos de ordenadas e abscissas ao estilo de Descartes, colocando de lado os elementos que personalizassem os objetos.

Esse estilo de ordenamento das coisas afetou profundamente a arte. A criatividade é derrubada pela homogeneização, porquanto a arte, em sua concepção, é uma livre manifestação da expressão do artista. Como enfrentar essa situação? No caso do Brasil, criou-se uma parceria entre os senhores conservadores do café e do leite e a mentalidade positivista de Auguste Comte, que se manifestou de modo concreto no incremento de uma arte técnica, na defesa do desenho técnico e da redação técnica, em que havia muito mais padronização que nas criações espontâneas. Os cursos de cunho dito científico eram o contraste em relação aos cursos clássicos, de formação humanística.

Homogeneidade e segmentação andavam juntas por fazerem parte do mesmo paradigma mecanicista.

Não sendo homogênea, a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, recebeu o repúdio da sociedade conservadora. Provavelmente o anarquismo dos migrantes italianos tenha influenciado, mas os cursos continuavam com sua estrutura segmentada, dando acesso ao ensino superior, por sua vez segmentado. Tal estrutura permanece no Brasil, ultrapassando a Lei Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 4.024, de 1961, a lei nº 5.692, de 1971, as reformas subsequentes e, somente na década de 1990, com a Lei de Ensino, nº 9.394, de 1996, alguns parâmetros que permitem maior ênfase à criatividade conseguem se estabelecer.

Também na formação do pensamento, o ensino de matemática – sobretudo da teoria dos conjuntos -, mais que uma formação sistêmica, promoveu homogeneidade e segmentação, quando considerava, em se tratando da pessoa, as que estavam de preto, as que usavam sapatos brancos, ou, pior, quando considerava o conjunto dos sapatos, dos vestidos, dos brincos, dos óculos, etc.

No Brasil, a visão holística do mundo e da vida chegou muito depois. Se, em 1968, quando da invasão da Sorbonne, já se discutia a questão da interdisciplinaridade, no Brasil tal assunto era tratado em pequenos folhetos impressos pelas universidades católicas, em artigos do filósofo Henrique Carlos de Lima Vaz, em 1974. Em nosso livro Ensinamos demais, aprendemos de menos (Vozes, 1987), abordamos o assunto em dois capítulos, e em 1996 a nova Lei Diretrizes e Bases da Educação consagra a interdisciplinaridade e os temas transversais.

Portanto, por causa dos efeitos e influências da homogeneização, chegamos tarde a uma visão do mundo, embora o Brasil esteja atingindo um PIB de pouco mais de dois trilhões de dólares no final de 2017. Nossa indústria é outra, precisa ser mais do que é e não conta com uma educação capaz de formar cérebros que lhe sejam úteis e necessários e que também possam participar da divisão do bolo econômico.

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