Consequências do estudo errado

Hamilton Werneck

Hamilton Werneck

Eis um homem que representa com exatidão o significado da palavra “mestre”. Pedagogo, palestrante e educador, Hamilton Werneck compartilha com os leitores de A VOZ DA SERRA, todas as quartas, sua vasta experiência com a Educação no Brasil.

quarta-feira, 08 de novembro de 2017

Todo professor deveria ensinar seus alunos a estudar ou, pelo menos, corrigir os erros do estudo errado. Não é difícil saber se um aluno estuda errado, basta verificar seu comportamento antes de uma avaliação. O estudo errado é feito para passar de ano, para obter nota e, logo depois, esquecer tudo. É uma espécie de trabalho linear que funciona assim: “decora, faz prova e esquece”. Por isso um acadêmico de um curso de direito pode obter notas excelentes durante o curso e não passar na prova da OAB. Por que ele esquece? Porque tudo o que estuda fica na memória de curta duração, aquela que se localiza, no cérebro, no chamado sistema límbico. Não há uma assimilação que permita a transposição dos conteúdos da memória de curta para a memória de longa duração. Vejam exemplos: o.

Joãozinho pediu um brinquedo à sua mãe que, por sua vez, fez uma exigência: as notas do filho deveriam ser iguais ou superiores a oito. Se a escola tivesse conceito poderíamos dizer que ele deveria obter muito bom e excelente. Para ele, naquele momento, a resposta foi franca e rápida, garantindo os bons resultados. A mãe duvidou porque sabia que seu filho não demonstrava familiaridade com os livros e cadernos. Ao final do bimestre ele trouxe as notas exigidas e ganhou o presente. A mãe estava contente, o mesmo acontecendo com a professora. No entanto, nada aprendera. Veja, então, o que aconteceu no dia da avaliação.

Joãozinho, que nada estudara durante o bimestre e não fez a preparação de sua memória de curta duração para enviar, durante o sono, os conceitos para a memória de longa duração, realmente nada sabia. Levantou-se naquela madrugada às 4h, mal tomou o café e estudou como um “condenado” durante toda a manhã e, às 12h, estava na escola, sentado na primeira carteira. Assim que a professora ingressou na sala ele disse:

- Professora, aplique logo esta prova senão eu vou esquecer tudo! Isto acontece porque ele estudou errado e foi fazer prova, na escola, guardando tudo na memória de trabalho, ou de curta duração. Por volta das 16h, quando os alunos começaram a sair da escola, nada mais era dominado por ele. A pergunta que ele fez indicou à professora o que ele sabia e onde estava guardado no próprio cérebro. Veja esta outra história que muito elucida o caso da criança que faz todos os deveres, recebe elogios da professora e não consegue lograr êxito em suas avaliações.

Maria do Carmo, mãe de três filhos que estudaram na mesma escola, procurou a coordenadora pedagógica para conversar e expressar seu desgosto. “Coordenadora, disse ela, já sou doutora em quarto ano. Pela primeira vez fiz esta série com meu filho mais velho, depois com a filha do meio e agora com a menina caçula. Todos os dias, depois que chegam da escola e brincam um pouco, meus filhos tomam banho e, depois, sento-me com eles para verificar os deveres de casa. Faço-os um a um e eles copiam nos cadernos e recebem elogios. Mas, quando chega a avaliação, tudo é um desastre! Não sei mais o que fazer.

Muitas vezes uma coordenadora pensa que o erro é da professora que avaliou mal este aluno, não soube lidar com o grau de dificuldade das questões e até, em certas circunstâncias, chama a professora para pedir explicações. Estamos diante de um típico estudo errado. É a mãe quem faz os exercícios, e não os seus filhos. Tudo o que foi preparado na memória de curta duração, o foi no cérebro da mãe e, não no cérebro da criança. Esta mãe precisa ser orientada para ensinar seus filhos a aprender. Ela pode rever a matéria com a criança, porém, quem precisa fazer os exercícios é a criança e, não a mãe, para depois a criança copiar. Esta é a orientação que a coordenadora pedagógica ou a pessoa consultada na escola, até mesmo quem leciona para esta criança, precisam passar para a família. Todo esse contexto serve para o professor particular contratado pelas famílias. Se este professor não ensinar a criança a estudar e fizer os deveres para ela, o mesmo processo ocorrerá: deveres feitos e resultados baixos diante de uma realidade em que houve investimento público ou particular, sem retorno, porque a criança continuou sem aprender.

Certamente, quem leciona em várias escolas já teve a oportunidade de presenciar o desespero de alunos que estudaram para uma avaliação e a aplicação da mesma foi adiada. Instala-se o desespero. Alunos e alunas preparados e com a memória de curta duração completamente acesa temem esquecer tudo até o horário destinado, agora, para a avaliação. Neste dia a vida escolar é transtornada com alunos fugindo de sala, outros querendo voltar para casa e retornar à escola para o último tempo-aula, outros permanecendo por infindáveis tempos nos banheiros, tudo para manter ativada a memória de curta duração.

Como se vê, todo o esforço para avaliar cumpriu, apenas, uma função burocrática. Mesmo que os resultados sejam satisfatórios, em pouco tempo eles demonstrarão que desaprenderam. Vamos, então, criar uma palavra: o que houve foi uma “despedagogia”. Há uma expressão antiga que pode muito bem ser ainda considerada: “A educação é aquilo que fica depois que esqueci tudo o que aprendi”. Na verdade, o que fica está na memória de longa duração ou memória semântica. São os princípios, os valores, os métodos e os processos. São estas características que fazem o ser humano ser totalmente diferente dos demais vertebrados: ser capaz de aprender a aprender. Ai está o grande salto antropológico!

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