O carnaval do protesto

David Massena

David Massena

David estreou nas colunas sociais ainda na década de 70. É jornalista, cerimonialista, bacharel em Direito, escritor e roteirista. Já foi ator, bailarino, e tantas coisas mais, que se tornou um atento observador e, às vezes, crítico das coisas do mundo.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

“Doutor Vanor,  doutor Vanor,

Eu quero uma audiência com o senhor

Aqui em casa todo dia falta água

E quando chove o lamaçal é de amargar.”

(Trecho de marchinha que foi sucesso no carnaval de 1964, de autoria de Enpeas de Barros)

A necessária liberdade, o riso frouxo, a pilhéria, entre outras características do carnaval, foram citadas na última crônica, publicada no fim de semana de folia, como ingredientes da festa que clama pela desconstrução da formalidade. Em Nova Friburgo a carnavalização chegou à política em 1894, quando os grupos e as agremiações friburguenses foram às ruas para um manifesto contra o projeto da luz elétrica, da água e do esgoto, que não se materializavam, e contra os impostos altíssimos cobrados pela décima urbana.

O clube carnavalesco “Quem são eles?”, em 1914, realizou diversas reuniões e ampliou suas comissões organizadoras para a montagem dos carros alegóricos, também denominados críticos, porque traziam para as ruas temas polêmicos, quase sempre alfinetando os políticos locais.

Em 1963, o Bairro da Vila Nova sofreu com as chuvas por conta da construção da estrada de acesso ao Colégio Nova Friburgo, da Fundação Getúlio Vargas. A lama descia e formava um grande piscinão. Foi naquele carnaval que o compositor Enéas de Barros compôs a marcha para o “Bloco Unidos da Vila Nova” que dizia: “Eu sou o jacaré ô ô/ O jacaré bacana e bossa nova/Troquei o Amazonas por Friburgo/ Agora moro lá em Vila Nova!/Em Vila Nova nadar na lama é meu passatempo./Na Vila o ambiente está para mim/Pois nem no Amazonas quando chove/Existe tanta lama assim.”

As ruas do Centro do Rio de Janeiro já viram desfilar dezenas de grupos críticos, com pilhérias políticas e sociais. Os mais importantes foram Os Tenentes do Diabo, sociedade que surgiu também em 1855 com o nome de Zuavos Carnavalescos; os Democráticos Carnavalescos (1867); e o Clube dos Fenianos (1869). Muitos historiadores atribuem a esses grupos a inspiração para a criação das escolas de samba.

Em outros momentos na história das escolas de samba, as críticas políticas e sociais foram emblemáticas. Um, na virada dos anos 60 para 70, auge da ditadura militar no Brasil. Três enredos marcantes, nesta ocasião, falavam sobre a liberdade. O primeiro, em 1967, quando a Salgueiro desfilou com o enredo “A história da liberdade no Brasil”. Dois anos depois, em 1969, a Império Serrano falou sobre os “Heróis da Liberdade”. E, no Carnaval de 1972, a Vila Isabel levou para a passarela o enredo “Onde o Brasil aprendeu a liberdade”. Era um momento em que a censura estava no auge e as escolas deram vazão a esse grito represado pela liberdade.

Em meados dos anos 80, a Caprichosos de Pilares e a São Clemente também falaram sobre o momento conturbado da abertura política no Brasil, quando o povo ainda não votava. Elas levaram para a avenida o grito de “Diretas Já!” e usavam faixas falando sobre a Constituinte. Houve também, em 1989, o célebre desfile da Beija-Flor, em que Joãosinho Trinta produziu um Cristo mendigo, para criticar a pobreza, mas a alegoria acabou proibida pela Justiça, a pedido da Igreja.

Em 1987, aqui em Nova Friburgo, a Alunos do Samba, desfilou com o enredo “Historiada Tupiniquim”, de Elói Machado, e subverteu o carnaval, num protesto contra a corrupção. Já no final da década de 90 e nos anos 2000, quando o país viveu mais estabilidade política e econômica, os enredos críticos foram deixados de lado.

Neste reinado de momo em 2018, os desfiles das escolas do grupo especial carioca, Paraíso do Tuiuti e Beija Flor de Nilópolis, na Sapucaí, chamaram a atenção pela dimensão política dos sambas-enredo e por referências nada sutis ao atual estado do país. O recado está dado aos políticos, mostrando que o carnaval vai muito além das plumas e paetês, pois é capaz de trazer à tona a realidade carnavalizada e levar milhares de comuns à reflexão. Hora de colocar as barbas de molho.

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David estreou nas colunas sociais ainda na década de 70. É jornalista, cerimonialista, bacharel em Direito, escritor e roteirista. Já foi ator, bailarino, e tantas coisas mais, que se tornou um atento observador e, às vezes, crítico das coisas do mundo.

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