A VOZ DA SERRA ouve testemunhas sobre a era de horror dos Irmãos Necrófilos

Em 2018, jornal colheu depoimentos de pessoas, incluindo uma sobrevivente, que vivenciaram a história de Ibraim e Henrique de Oliveira
sábado, 28 de setembro de 2019
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)

Em meados da década de 1990, Nova Friburgo viveu um dos períodos mais tensos de seus 201 anos. Ibraim e Henrique de Oliveira, os Irmãos Necrófilos, aterrorizaram e foram responsáveis por pelo menos oito mortes na região de Janela das Andorinhas, no distrito de Riograndina. Além de assassinar as vítimas com requintes de crueldade, geralmente a machadadas, pauladas ou facadas, havia a prática da necrofilia (violação sexual dos cadáveres). As histórias de horror serviram de inspiração para o filme de ficção “Macabro”, lançado no último dia 23 em Londres, na Inglaterra, dirigido por Marcos Prado e produzido pela Zazen  e Querosene Produções. A produção ainda não tem data para estrear no Brasil.

Em março de 2018, a equipe de A VOZ DA SERRA  foi até o local em busca de depoimentos de testemunhas daquela época. O material colhido é inédito, exclusivo e contém informações desconhecidas pela grande maioria das pessoas, bem como revelações chocantes, que servem de base para esta reportagem especial, com vídeo.

O começo

Darly Ferreira de Azevedo (produtor rural, foto acima): “A gente passou um negócio que nunca mais eu desejo ver outra vez. Uma coisa terrível. Ver aquelas crianças que foram criadas aqui do nosso lado, que a gente viu crescer, nunca esperava que iriam se tornar aquilo. Eu cheguei a conhecer o pai deles. O Henrique é até afilhado do meu sogro, pais do Hélio. Eles nasceram em uma casa aqui perto, um pouco mais acima do comércio do Hélio. Depois da primeira encruzilhada, é a última casa, uma branca. Viveram muito anos ali e a adolescência foi no meio do mato. No português claro, a criação deles foi à “moda cacete”. Aquelas crianças não tiveram o carinho de pai e de mãe. A mãe deles não batia muito bem da cabeça e o pai batia em todo mundo. Era chegar em casa e, sem motivo algum, dar um cacete na mulher e filhos. Ele bebia muito.”

Hélio Fonseca (comerciante, foto abaixo): “Eles tinham cometido um crime aqui, mas ainda eram menores de idade. Foram presos pela P2, um ficou aqui em Friburgo e o outro foi para o Rio de Janeiro.”

Sobrevivente: “O Ibraim era muito atentado. Peste ruim. Graça a Deus que o Diabo carregou ele. O Henrique era mais tranquilo.”

A primeira vítima

Darly: “O primeiro que começou com isso foi o Henrique. Tinha uma menina de uns 15 anos que morava aqui perto, bem raquítica, fraquinha, miudinha. Ele levou ela para o mato e a matou lá. O pai dessa menina deu parte e a família inteira fugiu para Varginha. Pouco tempo depois eles mataram uma moça lá também e aí começou a aquela onda de crimes. Foram presos, tiveram na Fundação Padre Severino. Eles cumpriram a pena e foram soltos. Quando foram soltos, ao invés de eles tentarem se recuperar, caíram na bandidagem de novo.”

Hélio: “Quando eles foram liberados, em 1994, o pessoal ficou assustado quando viu o Ibraim andando por aí, e vieram comentar com a gente. Conseguimos capturar o Ibraim e levamos ele para delegacia. Lá, o delegado disse que não tinha como manter ele preso porque, além de ser menor de idade,  já havia cumprido a pena. Logo depois que ele foi liberado, começaram as tragédias. A primeira vítima foi um segurança, já em 1995, que estava tomando banho de rio e o Ibraim com um toco de braúna acertou a cabeça dele por várias vezes. Por sorte uma mulher que estava no local conseguiu escapar.

Darly: “Ele tentou abusar da mulher do segurança, mas ela saiu correndo. Ela chegou no meio da multidão nua, desesperada, correndo e gritando muito. Foi aí que começaram os assassinatos em série. Depois foi a tia deles e uma outra mulher, esposa de um tal de Ornellas, para os lados de Varginha.”

Hélio: “A tia deles morava em Banquete e havia sumido. Nós fomos lá procurar por ela. O pessoal aqui tinha comentado que essa tia dava um suporte a eles com comida e água, deixava eles morarem por lá, e mesmo assim eles mataram a própria tia. Achamos o corpo dela a uns 200 metros da casa que ela morava.”

Darly: “Com um golpe de facão, cortaram a mulher na altura do queixo.”

Hélio: “Eles matavam e deixavam os corpos no local. Não tinham o trabalho e preocupação de esconder o corpo.”

Comunidade em alerta

Darly: “As escolas fecharam, o pessoal não podia sair de casa. Vários vizinhos acharam, depois de tudo acabar, vestígios das cabanas deles com restos de comida e panelas, perto de onde moravam.”

Hélio: “A situação foi piorando a cada dia. Muita gente andando armada e a gente imaginando a toda hora que poderia acontecer o pior.”

Sobrevivente: “Eu vinha descendo com meu filho, uma outra mulher, e na mão um pedaço de pau. O Ibraim passou por mim e tentou me cercar. Ele começou a me jogar casas de cupim para tentar me encurralar. Eu me abaixei e, junto com meu filho, saímos correndo, gritando por ajuda. Depois disso, nunca mais o vi. Graças a Deus.”

Hélio: “A Odete, outra mulher que estava com ela, eles conseguiram pegar.”

Sobrevivente: “O Ibraim matou ela no alto de uma mata com uma foice.”

Derly: “Ela era minha vizinha. O Hélio mesmo falava com ela para não andar sozinha. Ela respondeu: Ah, meu filho, eu não tenho medo, não. Olha aqui minha peixeira dentro da minha bolsa. Ele, então, pegou ela com aquilo tudo e ainda a arrastou para um matagal.”

Sobrevivente: “Eu não ficava mais na minha casa. Morria de medo. Ficava na casa dos outros, meu marido ia trabalhar e eu ia para lá também, não podia ficar em casa de jeito nenhum. Eu fui criada junto com os dois irmãos. Tirando a tentativa deles me matarem, a última vez que eu os vi foi na escola.”

Demora na captura dos assassinos

Hélio: “A gente achava que iria resolver rápido, que logo eles iriam ser pegos. O pessoal foi ficando apreensivo, tenso, muita gente querendo ir embora, falaram para eu sair também, por conta da minha mulher e filho pequeno. Eu sou nascido e criado aqui, tenho minha família, meu comércio, meus amigos, vou embora para onde? Eu não podia ir embora e deixar o pessoal em uma situação dessas.”

Darly: “Eu escapei deles por sorte, uma vez. Tenho uma mangueira para retirar  água da nascente. São 1.800 metros. Um dia faltou água. Fui verificar e encontrei a mangueira cortada. Encontrei um pedaço de pau e um trilho. Eu já estava cabreiro, voltei e chamei o Hélio e mais um companheiros e fomos seguindo a trilha. Achamos a cabana deles no meio do mato. O Hélio voltou para avisar a polícia, mas eles perceberam e fugiram, porque quando os policiais chegaram, só encontraram os pertences deles. Acharam uma panela com batata e um cobertor que eles roubaram. Eles entraram em casas que tinham armas, mas nunca roubaram. Acho que eles não sabiam usar ou tinham medo. Gostavam muito de facão e pedaço de pau. Eram as armas deles. Eles não sabiam andar de ônibus. Só andavam a pé.”

Hélio: “Nós tivemos um apoio muito importante da P2, porque não havia condição de cercar todas as áreas. A mata é muito grande. Veio gente de Teresópolis ajudar na caçada e foi passando o tempo e nada era resolvido. Veio até o Bope. Tínhamos mateiros também. Teve um dia que eu, dois policiais e um mateiro demos de cara com eles. Já estava escurecendo. Começamos a correr atrás dos irmãos, mas eles conseguiram se esconder em uma caverna que a gente não chegou a ver na hora. Passamos em frente aos dois, mas não vimos o esconderijo.”

Última vítima

Derly: “A última morte deles foi na Fazenda Barreto. Acabou com a família. Matou a mulher, que estava grávida e outro filho dela que foi socorrer a mãe. O Hélio ajudou a socorrer o filho dela, mas não resistiu. Ele tinha 9 anos.”

Hélio: “Eles andaram mais de dez quilômetros arrastando a mulher. Foi uma dificuldade para achar o corpo. E no final de 1995 conseguiram pegar. Foi um ano de muito terror.”

Derly: “A polícia montou uma base na Janela das Andorinhas e nós ficávamos sabendo tudo o que acontecia. A movimentação era muito grande.”

O dia da morte de Ibraim e a captura de Henrique

Hélio: “Na noite anterior ele tinha invadido uma casa num lugar chamado Barro Branco e tinha remexido tudo por ali. Quando pegaram o Ibraim ele estava dormindo. O Henrique viu que o circo tinha se fechado e saiu da região antes de pegarem ele.”

Derly: “O dono do terreno tinha visto um rastro perto do varal de roupas e notou que algumas peças tinham sumido. Ele seguiu o rastro até chegar nessa casinha onde viu o Ibraim dormindo. Ele já estava preparado e apertou (atirou) em cima dele. O Henrique foi se esconder em uma fazenda. O (João) Aguilera, dono da fazenda, dias depois entregou o Henrique à polícia. Ele está preso até hoje.”

Hélio: “Tivemos que sair escondido daqui com o corpo do Ibraim porque a população queria fazer justiça com as próprias mãos. Quando a notícia da morte dele se espalhou, teve mais de 100 carros fechando a passagem. Eu fui chamado para reconhecer o corpo. O Heródoto (Bento de Mello) era o prefeito naquela época e tinha prometido uma recompensa de R$ 5 mil pra quem pegasse os Irmãos Necrófilos. Eu e o César, ajudamos a encontrar o Ibraim e dividimos o valor.  Eu fui ao julgamento e o Henrique pegou uns 30 anos de cadeia, mas como no Brasil a pessoa não cumpre a pena toda, a gente fica apreensivo, temendo pela volta dele. Teve um rapaz daqui que foi preso e dividiu cela com ele em Bangu, no Rio.”

Um terceiro irmão

Derly: “A mãe deles morreu a pouco tempo e o pai deles morreu ainda na época de todo o terror, de infarto. E ainda tem o irmão mais novo, que chama Jaílton. Esse aí eu não conheço.”

Sobrevivente: “Eu só fiquei tranquila depois que tudo acabou. Agora ninguém me atenta mais. Só meu cachorros (risos). Eu tenho 24. Não passa nem mosquito.”

Filme "Macabro"

Hélio: “Achei estranho quando falaram que o filme estava sendo rodado em Três Picos, sendo que tudo aconteceu na Janela das Andorinhas. Acho interessante contar essa história, sim. Se eu puder, vou ver esse filme.”

Sobrevivente: “Esse filme já era para ter sido feito há muito tempo.”

Derly: “Espero que essa história não se repita. Eles fizeram muita maldade com o povo.”

O que é a necrofilia?

Necrofilia é o ato de violar um cadáver e usá-lo como objeto sexual. Apesar de serem conhecidos como “necrófilos”, os testemunhos contam que somente Ibraim de Oliveira praticava atos sexuais com suas vítimas, após os assassinatos.

Curiosidade

Até meados de 1995, por ser uma região afastada, as mortes não haviam ganhado tanta repercussão. Após o assassinato brutal a golpes de machado de uma idosa, os moradores da Janela das Andorinhas, revoltados e exigindo uma resposta das autoridades, marcharam em passeata na Avenida Alberto Braune, com o caixão da vítima. O caixão chegou a ser aberto, chocando os presentes. A comoção deu certo. 

À época, o prefeito Heródoto Bento de Mello anunciou uma recompensa de R$ 5 mil para quem capturasse os irmãos. O caso também foi parar na grande mídia, tendo destaque até no programa Fantástico, da Rede Globo. O Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope), dias depois, destacou agentes e montou uma operação especial para capturar os assassinos. 

 

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TAGS: crime